Quinta-feira, 13 de Agosto de 2020
POLARIZAÇÃO POLÍTICA

Em tempos de pandemia, explode em grandes cidades manifestações populares

A crise sanitária da covid-19 atingiu o mundo em um período de convulsão social nas ruas. Brasil ocupa segundo lugar em número de infectados pela doença no mundo



manifesta__es_99468C28-8AC8-4855-BF6D-1E2B1CA0E597.JPG Membros de torcidas organizadas realizaram no domingo manifestação na avenida Paulista em defesa da democracia. Foto: Reprodução / Internet
07/06/2020 às 08:40

A curva dos protestos alcançou um pico elevado nas últimas semanas quando praças e avenidas de cidades brasileiras se encheram de manifestantes para pedir o fechamento de instituições  democráticas, intervenção militar e em reação uma onda de atos em defesa da democracia, expressando indignação popular à violência policial, ao racismo e ao fascismo. Essa turbulência não se resume, exclusivamente, ao Brasil, a crise sanitária da covid-19 atingiu o mundo em um período de convulsão social nas ruas.

Na avaliação do sociólogo Cleiton Maciel, a volta às ruas, neste momento, precisa ser vista como parte da ‘tempestade perfeita’, da confluência de vários fatores, entre eles, a crise econômica mundial, que faz vir à tona o calcanhar de Aquiles de cada região ou país, a sensação de falta de proteção e as incertezas que são momentos históricos propícios à crise social.



“Há uma sensação latente nestas sociedades que os Estados estão falhando no combate à pandemia e aos efeitos dela. E isso tem ficado mais evidente nos governos Trump e Bolsonaro. Seria justamente esse o momento em que um suporte social se mostraria necessário, para ser gestado uma espécie de um novo Welfare State ou Estado de Bem-Estar Social. Mas nem de longe se avista isso. Esses movimentos estão querendo pautar que Estado teremos no pós-pandemia”, avalia.

O que buscam?

Para o cientista social, a questão central é: para lutar por transformações sociais vale a pena correr o risco de maior contaminação em um momento em que ainda nem chegamos no pico da covid-19? Segundo o sociólogo, a resposta passa pela análise sobre o que esses movimentos de rua estão buscando. Nos Estados Unidos, protestos por justiça, após a morte do cidadão negro George Floyd por um policial branco, tem conotação de transformações históricas, demonstra a insatisfação com a história e não somente com o governo Trum, o que contribui para ter mais adesão e ‘benefício maior que o custo’.

“No Brasil, é um movimento de insatisfação com o governo, muito similar ao gestado em 2013. Só que com moeda invertida. Se assim o for, os Antifas (integrantes de movimentos antifascistas) podem incorporados pelo poder e acabarem sendo moeda de troca caso a antecipação de 2022 seja possível. Neste contexto, talvez fosse o caso de deixar o antirracismo ser antirracismo. Mas este seria o cenário ideal. O fato é que a pandemia e o isolamento represaram as ruas e estas vão acabar sendo ocupadas, principalmente, quando as contas econômicas da pandemia chegarem e 2022 puder ser antecipado (via impeachment ou cassação de chapa). Então, a ideia de fazer protestos de casa é uma ponderação lógica, mas para um momento ilógico", declarou Maciel, completando que enquanto ‘2022 não puder ser 2020’ haverá sempre essa tensão de descontentamento com o governo e as ruas podem ser uma pólvora à espera de uma faísca.

Rua como palco

O antropólogo Bruno Caporrino pondera que as ruas ganharam o protagonismo popular ainda no início da pandemia no país, em março, com a ala negacionista do coronavírus, incentivada pelo presidente Jair Bolsonaro promovendo aglomerações e protestos com críticas ao isolamento social, pedindo o fechamento do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e golpe militar. Com isso, as ruas passaram a ser palco político novamente, mas apenas de um lado. Todavia, segundo o antropólogo, a situação ficou insustentável para o restante da população diante das sucessivas manifestações públicas e os atos antidemocráticos que decidiu ir às ruas defender suas bandeiras.

“A sociedade civil, os mais de 70% dos brasileiros que não apoiam o atual governo, sentiu a urgência de tomar as ruas, mesmo que sejam a favor das recomendações cientificamente embasadas dos médicos e cientistas, porque não dispõem de recursos para manejar a poderosa máquina de fake news que se apropria da internet. E seu único canal ainda é as ruas, pois é caro fazer sua mensagem chegar nos celulares das pessoas. Assim, a sociedade civil nos Estados Unidos e no Brasil teve que se arriscar mesmo crendo nas medidas de isolamento, para salvaguardar a democracia, a igualdade, a justiça e a liberdade  lutando contra o racismo, a intolerância, o genocídio e o fascismo", enfatizou.

“Se puder, evite aglomerações”. Essa é uma recomendação de especialistas neste momento em que o novo coronavírus avança pelo país e há atos de rua sendo programados. O médico infectologista André Patrício enfatiza a necessidade de senso de responsabilidade. Mesmo com a reabertura gradual do comércio nas cidades e o retorno às atividades diárias, o médico enfatiza que os cuidados de prevenção ao vírus não devem ser minimizados, sobretudo, em manifestações.

Comentário: Jonária França, jornalista e doutora em comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria

As nossas práticas cotidianas ocorrem tanto no universo online quanto no offline. Hoje faz parte de nossa cultura participar da política nesses dois mundos, os quais não estão mais separados. É por isso que temos manifestações por meio de petições eletrônicas, mas também nas redes sociais, online, e nas ruas.

O que temos hoje são novos meios de participação política e novos mecanismos para manifestar nossos interesses ou descontentamentos com os atos políticos que interferem diretamente nas nossas vidas. Isso é importante para uma democracia. Quanto mais canais disponíveis e quantos mais sujeitos motivados a participar melhor para a sociedade de uma forma geral.

A rua vai ser sempre o lugar para sermos vistos. Nas redes sociais, por mais que tenhamos uma rede de conexões, elas são invisíveis. Não é à toa que na internet temos a sensação de não estarmos sendo vistos. Já na rua temos a certeza de que estamos sendo vistos e observados. Em toda a história, a rua sempre foi o espaço para manifestação popular, um espaço para o povo falar. A internet, nesses casos, serve de espaço para mobilizar o público a ir às ruas manifestar sua indignação e para fiscalização dos interesses públicos e sociais.

Blog: Tiago Jacaúna, cientista político

“Vive-se hoje no Brasil aquilo que poderíamos chamar de política contenciosa, ou seja, processos reivindicativos que mobilizam grupos sociais opositores na arena política. Essas mobilizações e reivindicações podem ser demandadas, contrárias, ou apenas monitoradas pelos governantes. O que vemos no Brasil é a construção de um cenário extremo dessa política contenciosa, uma vez que o chefe do Executivo federal claramente apoia um tipo de mobilização que explicitamente deslegitima as instituições republicanas e instaura um processo que fragiliza a democracia. Paralelamente, vai se encorpando no país mobilizações que procuram fazer frente a esses movimentos mais alinhados com as ideias do governo federal. Assim, num primeiro momento, é difícil saber quem sairá “ganhando” ao fim desse processo. Porém, pesquisas recentes apontam tendências crescentes na avaliação negativa do governo Bolsonaro, demonstrando que a ala de apoiadores menos fervorosa ideologicamente pode migrar para uma postura que seja mais moderada, enfraquecendo as mobilizações demandas e apoiadas pelo governo”.

Análise: André Patrício, médico infectologista

O Brasil vem sendo considerado como epicentro dessa pandemia, ou seja, o país lidera a tendência de crescimento do número de casos. O Amazonas também se encontra com número crescente ainda de casos. A possibilidade de ocorrência de uma segunda ou terceira onda é iminente. Muito provável que aconteça uma vez que mesmo com esse número expressivo de casos não se alcançou ainda um patamar considerado seguro para que a doença seja considerada controlada, quando aproximadamente 60% da população já teve contato com o vírus e encontra-se imune.

Qualquer aglomeração durante esse período, que a doença ainda não está controlada, acaba sendo muito arriscado. Sabemos da importância das manifestações para a democracia, expressão e luta pelos direitos humanos, porém a realização impõe o risco de exposição de um grande número de pessoas. Basta ter uma pessoa assintomática transmitindo (o vírus) no meio de muitas pessoas que não foram infectadas para desencadear um surto naquela grande população que permaneceu na manifestação.

Pico da doença

Estudo prevê que o pico de contaminação do novo coronavírus no Amazonas deve ocorrer no dia 2 de setembro chegando a mais de 16,1 mil infectados ativos. No Brasil, o levantamento da Funcional Health Tech revela ainda que o pico de contaminação  será em 6 de julho com 1,7 milhões de contaminados, corresponde a 0,85% da população brasileira.

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Repórter de A Crítica

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