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Cotidiano
Educação

Encontro discute educação de jovens e adultos com deficiência visual

Os grupos se articulam desde 2013, com apoio da Fundação Dorina Nowill para Cegos, que há 70 anos trabalha com inclusão de pessoas. 20/06/2016 às 05:00 - Atualizado em 20/06/2016 às 10:12
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Gilson Mauro se orgulha das bibliotecas adaptadas da rede estadual. (Fotos: Luana Carvalho)
Luana Carvalho São Paulo- SP

Não é difícil perceber as dificuldades e desafios que uma pessoa com deficiência visual enfrenta diariamente. Faltam rampas com piso tátil em prédios públicos e privados, hospitais e restaurantes. As calçadas não seguem um padrão e, em muitos casos, são cheias de obstáculos. Mas falar em acessibilidade envolve mais que problemas estruturais: para quem não possui ou tem baixa visão, ter acesso à informação é sinônimo de liberdade.

A garantia de direitos, cultura, esporte e lazer, empregabilidade e educação foram amplamente discutidas durante o 1º Encontro Nacional da Rede de Leitura Inclusiva, que aconteceu de terça-feira a quinta-feira da semana passada, em São Paulo. O Amazonas foi um dos primeiros a aderir a rede. No ano passado, todos os outros Estados fizeram adesão e agora pretendem compartilhar resultados de ações.

Os grupos se articulam desde 2013, com apoio da Fundação Dorina Nowill para Cegos, que há 70 anos trabalha com inclusão de pessoas. “A rede identificou um cenário onde falta acessibilidade atitudinal, ou seja, a informação existe, as pessoas sabem, mas não é compartilhada. A partir deste encontro, onde tivemos o reconhecimento de identidades e potenciais de cada região, iremos trabalhar para a construção de ações locais embasadas pelo emponderamento da rede, construindo planos efetivos de leitura inclusiva com autonomia”, explicou a coordenadora do projeto, Ana Paula Silva.

No dia 6 de julho do ano passado a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência foi instituída para assegurar e promover o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais para a pessoa com deficiência, visando a inclusão social. Um dos artigos determina que o poder público e instituições privadas adotem mecanismos de incentivo à produção, à edição, à difusão, à distribuição e à comercialização de livros e informações em formatos acessíveis. O processo ainda representa um desafio, mas os grupos  estão buscando parcerias para fazer acontecer.

No  Amazonas, o trabalho de produção de livros acessíveis começou há 17 anos com a Biblioteca Braille, que  funciona no sambódromo. O local também conta com livros doados pela Fundação Dorina Nowill, mas o acervo não é o suficiente para atender os 64,5 deficientes visuais na capital, dos quais 20% têm  cegueira total, segundo última pesquisa do Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia (IBGE). 

Porém, a rede tem possibilitado a expansão dos livros acessíveis. Gerente da Biblioteca Braille do Amazonas, Gilson Mauro de Oliveira, se orgulha em falar do trabalho que vem sendo realizado no Estado. “Com o projeto conseguimos resgatar a biblioteca Joana Rodrigues, reinauguramos a Biblioteca Municipal do Largo São Sebastião e fizemos parcerias com o Senai, que implantou mais quatro novas bibliotecas. Todas fazem parte da rede, recebendo livros da Fundação Dorina Nowill e da Biblioteca Braille do Amazonas”, contou.

Ainda segundo Gilson, o projeto tem crescido em função das parcerias entre o poder público e sociedade. “A responsabilidade da leitura inclusiva é de todos nós. Ainda falta muito para dizermos que vivemos em um país acessível. Este é um sonho de todos nós. Mas chegou a hora do cidadão parar de pensar que tudo é papel do poder público e também fazer sua parte”, frisou.

Na Biblioteca Braille do Amazonas existem 4 mil livros falados, 52 mil títulos digitalizados e mil livros em Braille para serem disponibilizados gratuitamente. “Não é só nos grandes centros que podemos ver esses trabalhos, Tudo isso acontece em Manaus e muita gente não sabe”.

Parintins na vanguarda educacional

Parintins é um dos polos da Rede de Leitura Inclusiva. Nos dias 25 e 26 de agosto, o município vai sediar o terceiro Encontro de Leitura Inclusiva do Estado, onde os colaboradores tentarão expandir os trabalhos para outros municípios. O professor de braile responsável pelo polo, Carlos Fragata, conta que as peculiaridades da região, somado às longas distâncias, fazem o desafio ser ainda maior.

“A geografia do nosso Estado é diferente, tudo é mais difícil. Para sair de Manaus para Eirunepé, por exemplo, gastamos entre quatro e cinco dias de barco. Por isso a ideia é que façamos parcerias em todos os municípios, para que cada um desenvolva suas atividades de leitura inclusiva”, disse.

Em Parintins, quatro bibliotecas já fazem parte da rede: a do Bumbódromo, da Escola Estadual São José Operário, Escola Municipal Irmã Cristine e Escola Municipal Valquíria Viana, na comunidade do Camburi.

Resistência docente

Outro desafio para o grupo é trabalhar a resistência que alguns professores ainda têm em relação aos alunos cegos.  “Tem professor que não aceita o aluno com deficiência visual na sala de aula. E quando aceita, falta formação. O aluno fica excluído, no canto da sala de aula, só para ser uma estatística de matrícula. Muitos contam com o auxílio de um professor auxiliar, mas o complicado é fazer com que o professor titular entenda que ele é o principal responsável pela aprendizagem daquele aluno”, diz Carlos Fragata.

Gilson Mauro de Oliveira - Ger. da Biblioteca Braille

 “A responsabilidade da leitura inclusiva é de todos nós. Ainda falta muito para dizermos que vivemos em um País acessível. Este é um sonho de todos nós. Mas chegou a hora do cidadão parar de pensar que tudo é papel do poder público e também fazer sua parte”, frisou. Pouca gente sabe, mas na biblioteca do sambódromo  também acontecem capacitações para pessoas da capital e interior que queiram aprender o sistema Braille e para quem quer produzir livros falados. Além de dois estúdios para gravação de livros  com vozes de voluntários, o local também conta com scanners de voz, impressora em Braille, entre outras ferramentas tecnológicas.

 Recursos em uso nas redes locais

De acordo com a Secretaria Municipal de Educação (Semed), 137 alunos com baixa visão e 22 com cegueira total estão matriculados na rede municipal. A pasta ressaltou que promove a inclusão  pelo sistema Braille, método de leitura e escrita tátil que permite aos alunos terem acesso a todos os conteúdos das disciplina e do uso do Soroban (instrumento de cálculo matemático adaptado do ábaco) para complementação na disciplina de matemática.

Segundo a pasta, os recursos didáticos adaptados auxiliam na melhor assimilação dos conteúdos, mas “a prefeitura ainda está em fase de planejamento para concurso público para o cargo de professor bi docente para atender alunos da educação especial”. 

Já nas escolas estaduais, são 43 alunos cegos e 370 com baixa visão. Segundo a Secretaria de Estado de Educação, para os estudantes que possuem perda total da visão  são usados recursos como o livro e textos em Braille, audiolivros, leitores de tela, sintetizadores de voz e o Mecdaisy, uma solução tecnológica que permite a produção de livros em formato digital acessível, no padrão Daisy (livro digital editado com notas de rodapé opcionais, marcadores de texto, soletração, leitura integral de abreviaturas e de sinais, além da pronúncia correta de palavras estrangeiras).   

Dorina Nowill 

Pioneira no desenvolvimento de livros digitais em língua portuguesa, a Fundação DorinaNowill para Cegos,  possui um moderno processo de produção de livros acessíveis no formato Daisy.  A instituição também criou o Dorina Daisy Reader (DDReader),um aplicativo aberto e gratuito para a leitura de livros digitais no formato Daisy com versões em português, inglês e espanhol, que pode ser baixado no site da fundação.
 

*Repórter viajou à convite da Fundação Dorina Nowill

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