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Cotidiano
Educação

Ensinar nos tempos da Internet é um dos desafios atuais dos alfabetizadores

Ensinar em meio às variantes surgidas com a Rede Mundial de Computadores é um dos desafios deles, que festejaram seu dia na quinta; professora lembra que telegramas usavam dialeto ‘vc’ antes das redes sociais 08/09/2016 às 21:19 - Atualizado em 09/09/2016 às 06:26
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A alfabetizadora Lucila Bonina, 43, em meio aos seus livros / Fotos: Evandro Seixas
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Os mestres alfabetizadores estão enfrentando grandes desafios atualmente para desenvolver seus ensinamentos, e um deles tem relação com a Internet. A informação é da professora de Língua Portuguesa e Mestre em Letras e Artes, Lucila Bonina Teixeira Simões, 43, ao falar sobre o Dia Mundial da Alfabetização, que foi comemorado nesta quinta, dia 8.

Na nova linguagem da Internet o grande desafio é ensinar mesmo em face das variantes que a Rede Mundial de Computadores traz, informa ela, trazendo na bagagem a experiência de quase 30 anos de magistério e 6 deles na formação de professores, inclusive universitários.

 “A Internet deixou mais evidente as criações linguísticas. E em cada meio, embora utilizando a mesma língua, tem suas variações, e toda pessoa que escreve precisa saber adequar. O grande desafio é ensinar que o ‘vc’ (abreviação do você), só cabe nas mensagens eletrônicas e posts. Alguns anos atrás nós tínhamos os telegramas, onde pagávamos por letras. E você escrevia o ‘vc’. Hoje em dia, usamos abreviaturas no Facebook, no Twitter, pelo uso abreviado de caracteres. O desafio é ensinar o aluno de que determinado tipo de linguagem é para determinado meio, pois há convenções. A Internet cria variantes da língua. O escritor José Saramago, por exemplo, disse que “não existe uma só língua portuguesa, mas línguas em português”, explica a formadora, que integra a divisão de desenvolvimento profissional de magistério da Secretaria Municipal de Educação (Semed)

Mais desafios

Outro desafio é com certeza a valorizaçao da profissão também do ponto de vista financeiro, diz. “Os professores em geral não tem uma remuneração à altura, e a questão da valorização passa pela recompensa financeira. Mas não é só isso: também entram as condições de trabalho. Sabemos os grandes desafios quanto à carência, infra-estrutura e material”, frisa a alfabetizadora.

A dificuldade de ensinar uma criança oriunda de uma família mais carente também é uma problemática citada por Lucila Bonina. “E há um significado muito forte quando a própria família não lê e ela e suas crianças não tem acesso a livros, jornais, revistas, à cultura letrada. É um problema cultural do nosso País e que é ainda um desafio, onde o professor acaba ficando sozinho na luta. Fora essa questão cultural a gente fica competindo com jogos eletrônicos, celular, computador, com acesso à informações. Parece que nas duas últimas décadas nossa missão de ensinar ficou mais árdua. Mas, em compensação, essas novas tecnologias podem ter novas ferramentas de educação. Os jovens atuais leem muito mais que os de antes. Vai do professor e da escoa saber valorizar”.

Paixão

Para Lucila Bonina, ser uma alfabetizadora “representa fazer algo concreto para um mundo, uma sociedade mais justa, porque ler e escrever é uma condição fundamental para o exercício da cidadania”. Segundo ela, “quando falamos em inclusão social e justiça social, a alfabetização é fundamental; quando penso que estou ajudando crianças a dominar a leitura e a escrita, estou dando as condições para essa criança se tornar um cidadão”.

Ela vai além. “Alfabetizar é uma paixão para mim porque, além de ser uma área muito bonita, de um alfabeto com 26 letras e onde se consegue ler e escrever, quando alfabetizamos uma criança acredito que estou plantando uma semente na sociedade que pode ser melhor para todos”, conta a educadora.

Estudantes de hoje

“O estudante de hoje é diferente em que sentido do de outros anos?”, pergunta o repórter, ao passo que a alfabetizadora responde: “Antes, considerava-se alfabetizado quem conseguia decifrar uma palavra como, por exemplo, ‘casa’. Hoje em dia só esse conceito não é mais suficiente: ela tem que ser capaz de saber quem escreveu essa palavra, porquê e ser capaz de fazer uso social da escrita”.

“Ampliou-se o conceito de alfabetização, e a comunicação e a Internet ajudam a explicar isso. A Internet trouxe o acesso à informação e determinou essa mudança do conceito de alfabetização. Se vc fizer pesquisa não basta apenas a palavra, e sim avaliar se aquele site que você está 'pegando' a informação tem credibilidade. É uma coisa impressionante de pais e mães de crianças e adolescentes que se alfabetizam e usam a Internet de uma forma que não usamos", diz ela.  

Próximos anos

Lucina Bonina vê com certa preocupação a profissão nos próximos anos, e alerta que pode haver até mesmo uma crise no segmento. “Ao mesmo estou pessimista e otimista. A desvalorização da profissão está afastando os melhores alunos da docência. É preciso que as políticas públicas no País estejam direcionadas ao investimento dos alfabetizadores, para valorizá-los, inclusive financeira e estruturalmente. Aos jovens, para ensinar precisa ter leitura e escrita desenvolvidas. Poderemos ter uma crise dos professores alfabetizados no Brasil dentro de 10 anos. Por outro lado, acredito que as pessoas que estão se especializando para a profissão estão comprometidas com a atividade”, analisa a especialista.

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