Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
Educação

Ensino bilíngue é um método que vai além das aulas de idiomas

Em uma escola bilíngue, como a EETIB Djalma Batista, na Zona Sul de Manaus, os alunos aprendem várias disciplinas em outro idioma



bilingue1_566CF4D9-02B8-4129-8BDB-678E2A4F8BA7.JPG Fotos: Junio Matos/freelancer
14/05/2019 às 07:00

Em um mundo globalizado como o nosso, tornou-se essencial saber se expressar em uma segunda língua. Não à toa, a procura por escolas bilíngues vem crescendo cada vez mais no Brasil – onde 5% da população domina o inglês, segundo dados divulgados pela British Council ano passado.

Até porque se tornar um cidadão pluricultural é uma vantagem e tanto no mercado de trabalho. E estudos comprovam que, quanto mais cedo alguém é "exposto” a um idioma estrangeiro, mais fácil fica o aprendizado.

O gerente de desenvolvimento Rone Costa, do programa de educação bilíngue pioneiro no Brasil, o Systemic Bilingual, reforça que o inglês ainda é a língua mais demandada no mercado de trabalho, até mesmo por ser o idioma em que a maioria das pessoas do mundo tem como segunda língua.

“As escolas, aos poucos, estão levando o ensino bilíngue para dentro das instituições das mais diversas formas. Os colégios estão tomando uma responsabilidade que há muito tempo foi ‘terceirizada’ às escolas de idiomas”, apontou.

“No Brasil, ainda existe a ideia de que ‘inglês de colégio’ não ensina. Que se alguém quiser aprender outra língua precisa se matricular em um cursinho. Isso está sendo superado”, afirma.

Rone Costa diz que ideia de que ‘inglês de colégio não ensina’ está sendo superada

Rone Costa diz que ideia de que ‘inglês de colégio não ensina’ está sendo superada. Foto: Reprodução

Uma das principais características de uma escola bilíngue é que o estudante não tem apenas aulas de um idioma estrangeiro. A proposta pedagógica é justamente que o idioma (seja inglês, espanhol, japonês ou qualquer outro) seja utilizado como meio de instrução para ensinar conteúdos de outras matérias, como artes, ciências, matemática, culinária, entre outros.

Prática integrada

Na prática, conteúdo e língua são trabalhados de maneira integrada durante as aulas - muito além do anacrônico “be-a-bá de decorar regras gramaticais” a qual estamos habituados. Pelo contrário. Esse tipo de proposta é norteado pelo princípio de estimular a expressão livre do aluno e a exposição qualitativa dele à língua estrangeira.

Assim, com a naturalização do uso e da construção do idioma no dia a dia em sala de aula, o aluno acaba por adquirir a segunda língua de forma subconsciente (quase como aprendemos a língua portuguesa na infância sem ter tido uma aula sequer de verbos, por exemplo, mas só ouvindo as pessoas ao nosso redor).

Enquanto o ensino tradicional de idiomas sempre foi pautado numa hierarquia gramatical, a educação bilíngue toma um caminho diferente, pois enxerga que o domínio de um idioma é só uma parte do processo de aquisição de uma segunda língua

“O diferencial é levar mensagens mais contextualizadas ao aluno, ou seja, deixar de apenas ‘treinar’ a língua para que o aluno passe por um processo de imersão, para que ele se aproprie dela, não apenas saiba usá-la”, disse o especialista.

E para quem se acha “velho demais” para aprender uma língua estrangeira, Rone Costa explica que, apesar da criança ter facilidades de se expressar sem “sotaque” por ter um aparelho fonador em formação (o que facilita a reprodução de sons que não existem no português, como o [th] do inglês de palavras como ‘think’, ‘everything’ e ‘bathroom’), um adulto, com dedicação, consegue reproduzir esses sons.

“Quanto mais exposição à língua estrangeira melhor. Exposição com qualidade, claro. Séries e filmes sem legendas, músicas, aplicativos, jogos, viagens, leitura. Enfim, cada um precisa descobrir a atividade que lhe dá mais prazer e usar como um aliado no próprio aprendizado”, explicou o especialista para A Crítica. Ele esteve em Manaus nesta semana, em evento promovido pelo Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Privado do Amazonas (Sinepe-AM).

Imersão total no japonês

Na Escola Estadual de Tempo Integral Bilíngue Professor Djalma da Cunha Batista, no Japiim, Zona Sul de Manaus, a primeira escola pública bilíngue do Amazonas, as aulas de japonês seguem essa lógica. Os 990 alunos da instituição, do sexto ao nono ano, são expostos ao idioma nipônico pelo menos oito horas por semana na sala de aula através de três disciplinas: ensino da língua japonesa(a gramática em si), matemática em japonês e ciência em japonês, com uma hora de duração cada.

Como uma forma de promover a imersão cultural, todas as matérias em japonês começam com o tradicional “kiritsu” - um cumprimento respeitoso entre professor e aluno feito antes e depois das aulas. Pode parecer curioso para quem olha pela primeira vez, mas é uma prática que faz parte do cotidiano da instituição desde 2016, quando foi reinaugurada como uma escola de tempo integral.

O gestor da escola, Orlando Moura, conta que seja nas salas temáticas equipadas com aparelhos de áudio, vídeo e leitura, até a inserção no calendário escolar de datas típicas, ou no ensino de cantigas folclóricas, tudo é incorporado para facilitar o aprendizado do idioma oriental.

“Nós [de Manaus] temos essa particularidade de ter um Polo Industrial com cerca de quarenta empresas de capital japonês. Ainda é difícil encontrar [na cidade] alguém que tenha o domínio da língua japonesa. A ideia é que esses alunos, futuramente, estejam preparados para serem absolvidos por esse mercado de trabalho específico além de poderem atuar no ramo do turismo”, diz ele.

Moura ressalta que o aluno que tem acesso ao ensino bilíngue “se sente mais valorizado”. “No Amazonas, a Escola Djalma Batista é a única instituição pública que ensina a língua japonesa. Assim sendo, não tem como um estudante não se sentir valorizado por, de repente, só ele saber se comunicar em japonês na comunidade dele. É um grande diferencial na vida deles”, disse, acrescentando que, anualmente, a escola promove um concorridíssimo processo seletivo para turmas do sexto ano.

A professa Erika Tomioka é quem coordena o ensino bilíngue na escola. Formada na primeira turma de licenciatura em língua japonesa da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ela vê a escola como uma bem-vinda expansão do ensino da língua nipônica no Amazonas.

“É muito gratificante ensinar a essas crianças uma segunda língua”, diz Tomioka, que já morou no Japão e está em Manaus há nove anos. “Além da satisfação pessoal de contribuir com o futuro deles, é bom para quem já fala a língua fluentemente ter mais opções de atuação além do Polo Industrial e do turismo”, ressalta a professora.

Motivados

Saber se comunicar em um segundo idioma é, também, ampliar as possibilidades de crescimento pessoal. Que o diga a estudante Ananda Barbosa, 12, do sexto ano, que relatou que, do ano passado para cá, já consegue desenvolver um diálogo simples em japonês com desenvoltura, o que a motiva a projetar: “Quero fazer um intercâmbio no Japão quando crescer”.

Outro aluno que se sente motivado a alçar voos mais altos é o estudante João Pedro Almeida, 13, do sétimo ano. Com um impecável caderno de caligrafia com frases escritas em japonês em mãos, ele diz que ter estudado a língua desde os 11 anos despertou nele a vontade de um dia conhecer a Terra do Sol Nascente.

“Quero ser um engenheiro que fala japonês”, conta. “Para isso, em casa gosto de assistir a animes legendados [Drangon Ball e Naruto são os seus favoritos]. Já aprendi muitas palavras novas dessa forma”.

O esforço pessoal de se expor ao máximo à língua estrangeira como faz o João, assistindo a vídeos, ouvindo podcasts, praticando a conversação ou, claro, consumindo produtos culturais do país (músicas, filmes, desenhos etc.), talvez seja uma das dicas mais básicas (e preciosas) para alguém ter êxito na aquisição de uma segunda língua.

Bilíngues na rede estadual

De acordo com a Secretaria de Estado de Educação e Qualidade de Ensino (Seduc-AM), além da Escola Estadual Djalma Batista, há mais três instituições públicas que oferecem o ensino bilíngue em Manaus: o Centro Educacional de Tempo Integral (CETI) Gilberto Mestrinho (português-Inglês), Educandos, Zona Sul da capital; o CETI José Carlos Mestrinho, português-francês, na Betânia, na Zona Sul da cidade, e o CETI Áurea Braga (português-espanhol), na Compensa, Zona Oeste de Manaus.

Amazônia: variedade linguística

E falar mais de uma língua não é novidade na Amazônia, que concentra uma riqueza de línguas nativas (só no Amazonas são 53 línguas vivas). Muitos indígenas além da sua língua nativa também falam o português e/ou línguas de outras etnias. Em fevereiro, A Crítica publicou reportagem sobre as línguas indígenas e o risco de muitas delas desaparecerem.

Em São Gabriel da Cachoeira, entre os Baniwa, por exemplo, as crianças da aldeia aprendem primeiro a língua baniwa, depois na escola têm aulas de português como segunda língua.

A professora Ana Ferreira, doutora em linguística pela Universidade de São Paulo (USP), destacou  um dos mitos mais insistentes do Brasil é que somos um povo que fala somente uma língua, o que “invisibiliza” ainda mais as línguas indígenas.

“Eles [os índios] deveriam ser valorizados porque são bilíngues (e os que moram nas regiões que fazem fronteira com os países vizinhos às vezes falam três idiomas: a sua, o português e o espanhol). O Brasil historicamente ignora essas línguas e os povos indígenas sentem essa opressão de aprender o português padrão e ignorar a própria língua”, aponta.

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Repórter do caderno de Cidades - Jornal A Crítica

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