Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
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Entrevista: ‘Amazonino me persegue até hoje; sente ódio mortal’, acusa Adail Pinheiro

Prestes a completar um ano detido, Adail diz que corre “grande risco de morte” se for transferido para uma prisão comum e acusa o ex-prefeito Amazonino Mendes (PDT) de perseguição. O prefeito cassado de Coari afirma que as suas acusações são “montadas” e não descarta voltar para a política. Adail se diz vítima da mídia e da opinião popular.



1.gif Adail Pinheiro em primeiroa entrevista na sede do CPE
03/02/2015 às 23:07

A duas semanas de completar um ano detido no Comando de Policiamento Especializado (CPE) da Polícia Militar, o prefeito cassado de Coari, Adail Pinheiro, se pronuncia pela primeira vez após o isolamento. Em entrevista exclusiva ao A CRÍTICA, Adail diz que as suas acusações envolvendo favorecimento à prostituição infantil são “montadas”.

Adail afirma que o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) nega o seu direito a defesa e pede que todos os seus processos envolvendo pedofilia saiam do sigilo. Assim, segundo Adail, “qualquer um que saiba acessar o site do tribunal” poderá ver que “não há nada” nos processos. O sigilo é usado para proteger a identidade das vítimas.



O prefeito pela primeira vez liga um nome da política amazonense a sua trajetória de escândalos e condenações: o ex-prefeito Amazonino Mendes (PDT). Adail acusa Amazonino de “perseguição” e “ódio mortal”, sugerindo que o ex-prefeito teria influenciado nas suas condenações. Ele diz que o motivo é não ter apoiado Amazonino nas eleições de 2006.

“Eu atribuo o ódio que o Amazonino tanto sente de mim por eu não ter apoiado ele naquele ano. Ele, a partir de então, ficou com um ódio muito grande de mim e passou a me perseguir literalmente. Ele pediu, inclusive, para aliados dele, como Alexandre Bronze, ir a Brasília reunir munições. Ele me considerou um inimigo político”, afirma.

Em outros trechos da entrevista, Adail se diz vítima da mídia e da opinião popular, chegando a afirmar que serviu de “bode expiatório” do Estado. O prefeito afirma ainda que não quer deixar a prisão especial porque corre risco de vida. “Eu não sou um preso comum, a minha prisão é política. Eu corro risco de morte muito grande e iminente se for para uma penitenciária. Eu já fui ameaçado outras vezes”.

O senhor vai completar um ano detido. Como tem sido a sua rotina?

A minha rotina é unicamente leitura. Eu estou lendo agora o livro ‘A Arte da Guerra’. Eu acredito que já li uns dez livros. Comecei, inclusive, a ler mais aqui. Eu peço esses livros dos meus familiares. Gosto muito desses livros religiosos, de auto-ajuda. Eu sempre fui muito religioso, muito crente em Deus. Sou católico.

Por que o senhor não aceita tomar banho de sol?

Eu acho que eu sou perseguido pela imprensa. E muitas vezes até meus próprios direitos são deixados de lado e colocam só o que é de interesse. A minha preocupação é ser fotografado. Aqui é um quartel. Hoje existem vários tipos de celular e todo e qualquer cidadão tem. Qualquer um pode fazer uma foto minha caminhando, tornando isso, que é um direito meu, outra situação. Podem dizer, como já houve, que eu tenho privilégios, que eu moro num hotel cinco estrelas.

Quem vem lhe  visitar?

Somente os meus familiares e advogados. Eles vêm constantemente. Os advogados vêm aqui toda semana para me atualizar, me dar acompanhamento sobre os processos.

E como está a sua saúde?

Debilitada. Estou há um ano sem fazer atividade física, sem pegar sol, como você queria que eu estivesse? Eu tenho um sério problema de labirintite, de tonteira. Já cheguei a quase desmaiar. Tenho fraquezas e sou hipertenso, tomo remédios diários. Tenho um acompanhamento, mas a minha saúde já não era boa antes. Agora,  imagina!

O prefeito de Coari, Igson Monteiro, disse que o senhor coordenou as manifestações no município. O senhor nega?

É um absurdo o que ele falou para justificar a falta de responsabilidade e de compromisso dele com o município, com a população e com os funcionários. Ele quis politizar uma situação extremamente administrativa. Eu nego totalmente. Não tem sentido. Não tinha nenhum aliado meu no ato e vou tomar as providências jurídicas cabíveis. 

Ele foi seu vice. Por que o senhor acha que agora ele o ataca?

É mau-caratismo dele. Ele tem se mostrado um homem muito injusto com aqueles que votaram em mim, com o município e com todos aqueles que esperavam que eu, nesse terceiro mandato, pudesse trabalhar em paz e fazer uma boa administração, como foram as duas outras anteriores que eu fiz. Que ele se tornou um inimigo político, ele se tornou. Desde quando assumiu, ele logo se mostrou oposição.

O senhor não esperava isso?

Você não espera isso de um aliado. Principalmente quando esse aliado não tem voto, não tem prestígio, não soma em nada para chegar a galgar um mandato, como foi esse que caiu nas mãos dele de graça.

O senhor defende uma intervenção no município?

O Estado deve intervir para que as coisas tomem um outro rumo. O município está sendo saqueado pelo Igson e pela quadrilha que ele montou lá. Ele gastou uma quantidade de dinheiro muito grande para eleger o irmão dele presidente da Câmara. O município está fora de controle.

O senhor acha que ainda tem  apoiadores em Coari?

Estou na política desde 1994 e nesse tempo você constrói aliados e amigos. Fui prefeito duas vezes. Essa seria a minha terceira vez e eu posso dizer com toda modéstia: o que tem naquela cidade de Coari, pouca coisa não fui eu que fiz, mas quase tudo fui eu. E acho que por conta disso, por ter feito tanta coisa, acredito que tem muita gente que ainda lembra, que confia e tem amizade e carinho por mim.

Neste ano o senhor completa 15 anos desde que foi eleito prefeito pela primeira vez. O senhor se arrepende de algo?

Quem pode dizer que nunca errou? Agora depende do erro. Quando você administra um município grande e que você é o prefeito, você trabalha com o vice, com secretários, subsecretários, gestores e funcionários. É claro que uma coisa ou outra pode dar errado. E muitas vezes o prefeito não tem nem conhecimento.  Só quem pega a culpa é o prefeito. Nesse aspecto, eu acredito que qualquer um é passível de cometer erros.

O senhor diz que é culpado por atos de pessoas ao seu redor. O senhor, então, não foi omisso?

Eu sempre reunia o meu secretariado e  pedia muita atenção, responsabilidade e compromisso com a administração, com a verdade e a transparência. Então eu não posso hoje, depois de muitos anos, ser questionado por um documento que faltou na prestação de contas de vários anos atrás. Na gestão, você ter 100% de acerto é quase impossível. Se você vê as contas de presidentes, governadores e prefeitos, elas são todas aprovadas, mas com muitas ressalvas.

Mas, muito mais do que crimes  administrativos, o senhor é acusado de  crimes que envolvem máfia e até favorecimento à prostituição. Ao quê o senhor atribui isso?

Eu nego. Não existe nada nesses processos. Sabe o que eu mais queria e peço muito? Que o Tribunal de Justiça acabe com o sigilo de todos os meus processos. Esse sigilo só serve para ajudar a me execrar. Fazem uma tempestade num copo d’água, criam situações e vítimas que não existem. Eu quero que a população, qualquer pessoa, qualquer cidadão que saiba acessar o site do tribunal de Justiça, possa entrar em qualquer processo referente a Adail Pinheiro. Eu gostaria que qualquer cidadão desse País, do mundo todo, pudesse olhar o que tem neles.

O senhor diz , então, que as acusações são montadas?

São totalmente montadas, 100% montadas e se me derem oportunidade eu provo. Só que nunca me deram essa oportunidade. Desde a eleição de 2008, quando o meu sucessor, que era meu vice, venceu as eleições, eu venho sofrendo várias acusações. É preciso que se acuse, mas que prove. Eu tenho lutado para provar o contrário, mas não tenho conseguido. 

O senhor tem  advogados. Por que nenhum deles conseguiu provar a sua versão?

A minha defesa não é respeitada e ela não tem sido omissa. É a própria Justiça. Por exemplo, nós pedimos diligências para construir as provas. Infelizmente elas não foram aceitas pelo relator. Então, eu não tenho oportunidade. Quem realmente acusou? Ninguém sabe.

Todos os seus processos envolvendo pedofilia incluem diversos depoimentos de famílias e vítimas. Isso é montado?

Não existem vítimas. Essas pessoas que eles colocaram como vítimas, muitas delas, aliás, três delas, são senhoras casadas, com filhos. Por que a imprensa não mostra isso? Aí me colocam como um estuprador de uma criança de nove anos. Não existe de menor, muito menos criança, eu não tenho essa doença. Chega uma pessoa e diz que teve um caso com o Adail há 20 anos e, pronto, isso já vira verdade. Que é isso? Eu sou um homem comum. Qualquer um é passível de sofrer uma injustiça como essa que eu estou sofrendo.

E o que levaria o MPE e a justiça a forçarem todas essas denúncias graves?

Eu não sei, forças ocultas. Veja, eu era uma liderança emergente, vindo de um município importante. Nas eleições de 2006, eu atribuo o ódio que o Amazonino tanto sente de mim por eu não ter apoiado ele naquele ano. Ele, a partir de então, ficou com um ódio muito grande de mim e passou a me perseguir literalmente. Ele pediu, inclusive, para aliados dele, como Alexandre Bronze, ir a Brasília reunir munições. Ele me considerou um inimigo político.

O que o Amazonino fez contra o senhor?

Ele me persegue até hoje em tudo. Ele tem ódio mortal de mim e ele não esconde. O Amazonino se acha ‘o político’ do Amazonas e faz isso com quem o trai. Eu acredito que ele usou o poder dele para me perseguir. Eu tenho informações sobre essas viagens de aliados dele a Brasília. Depois do trabalho desse cidadão, apareceu a Érica Kokay, apareceu a Globo, depois apareceu o CNJ para constranger a Corte do Amazonas. A deputada foi a Coari de mãos dadas com a oposição. Foi tudo muito fabricado, aquele oba-oba. Ela foi ao tribunal, chamou de frouxo, fez aquele papelão político com objetivo de se promover.

Além do Amazonino, o senhor já apareceu aliado a nomes como Omar, Melo, Alfredo, Braga e até ao Lula. O senhor ainda tem contato ou admiração por algum deles?

Eu fazia parte de todo esse grupo. Amazonino, Eduardo, Melo, Omar, Alfredo, éramos todos um grupo só. Hoje eu não tenho mais contato com ninguém. Eu não posso dizer que fui abandonado, eu não estou em condições de ter contato com ninguém. Não tenho admiração, nem apreço, nem mágoa por ninguém.

Na sua última condenação, o desembargador Rafael Romano pede que o senhor seja transferido para uma prisão comum. O senhor teme sair do CPE?

Totalmente. Eu não sou um preso comum, a minha prisão é política. Eu corro risco de morte muito grande e iminente se for para uma penitenciária. Eu já fui ameaçado outras vezes. Mas, veja, isso é um crime que nem eu, nem um preso, ninguém concorda. Então, qualquer um que for acusado disso, ainda mais agora, é hostilizado e odiado.

O senhor  acha que pode reverter as  condenações?

Sim, se Deus quiser. Eu acredito na Justiça do meu País.

O senhor se sentiu prejudicado pelo desembargador Romano?

Eu não concordo com a decisão do desembargador Romano. Acho que foi uma condenação política. Ele me tirou o direito de defesa quando não aceitou fazer diligências nas provas. Ele correu com o processo, teve pressa e não respeitou a legalidade.

O senhor se sente condenado pela opinião pública?

Se tornou moda me condenar. As condenações agora são para a torcida. A imprensa tem que ter pauta e não tem pauta melhor do que Adail Pinheiro. Eu fui condenado pela imprensa, fui execrado pela imprensa, fui pego como bode expiatório desse estado. Hoje, se a justiça vier com alguma decisão a meu favor, é porque eu comprei o juiz, o desembargador, o ministro. Há uma perseguição implacável. Isso criou uma imagem de que eu sou muito poderoso. Que poder eu tenho, se estou preso? Nunca ninguém me viu em gabinete de juiz, nem de desembargador.

O senhor quer voltar para a política?

Não sei. Eu fiz um trabalho que eu julgo um grande trabalho. Acho que não. Eu gosto da política. Eu gosto e sou competente nisso. A minha competência é aprovada pelo povo, que sempre me elegeu. Agora, o futuro a Deus pertence. Primeiro eu tenho que me defender dessas acusações e tirar esse lamaçal que jogaram em cima de mim.

E o seu filho, Adail Pinheiro Filho, daria um bom candidato?

Essa é uma decisão dele. Ele que vai decidir isso. Se ele quiser e eu estiver em condições de ajudar, com certeza vou ajudar. Ele teria, sim, ética e competência. Um estudante da UFAM, rapaz centrado. Se ele quiser, terá o meu apoio. No contrário, da mesma forma. Essa é uma avaliação dele e do grupo político que nós temos em Coari.


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