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Escola que foi palco de conflitos entre alunos evangélicos e professores superou o impasse

Tolerância na sala de aula: Em 2012, um grupo de alunos de uma escola na Zona Norte de Manaus se recusou a fazer um trabalho escolar sobre a cultura afro-brasileira. Eles se resolveram na base do diálogo 20/11/2015 às 20:08
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Para os professores que coordenaram a atividade, o impasse serviu para promover o debate sobre preconceito na escola
Luana Carvalho Manaus (AM)

Três anos depois que um grupo de 13 alunos evangélicos da Escola Estadual Senador João Bosco, na Cidade Nova, Zona Norte, se recusou participar de um projeto sobre a cultura afro-brasileira - que este ano completa 10 anos na escola -, o  “clima” de tolerância e respeito voltou a reinar na unidade.

O episódio causou polêmica e repercutiu, inclusive, nacionalmente. Os alunos do 3º ano do Ensino Médio precisavam defender o projeto interdisciplinar sobre a “Preservação da Identidade Étnico-Cultural brasileira”, da disciplina de história. O projeto é realizado na escola desde 2005, valendo nota. No entanto, o grupo alegou que o trabalho escolar “contrariava a crença” deles e fazia apologia ao “satanismo e à homossexualidade”.

Os alunos, então, fizeram um projeto sobre as missões evangélicas na África, que não foi aceito pela escola. Revoltados e incentivados pelos pais e pastores, eles acamparam na frente da escola, protestando contra o trabalho sobre cultura afrobrasileira.

O ensino da história e cultura afrobrasileira e africana no Brasil sempre foi lembrado nas aulas de história com o tema da escravidão. Até que, em 2008, a Lei 10.639/03 foi alterada pela Lei 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio.

Antes mesmo da aprovação do texto, a professora de história Raimunda Nonata já realizava o projeto.  Até hoje, ela lembra do ‘movimento’ com tristeza. “Foi uma situação difícil, pois antes deste episódio, sempre tive muito cuidado em trabalhar o assunto com os alunos evangélicos, que em nossa escola são maioria”.

Segundo a professora, o projeto tem como principal objetivo fazer com que os alunos pesquisem e conheçam a cultura africada do País. “É um trabalho muito importante”.

Raimunda conta que, agora, todos os alunos são informados, no ato da matrícula, sobre o projeto que faz parte do calendário escolar. “Nunca foi nossa intenção ferir as crenças de nossos alunos. Tanto que, se eles não se sentirem à vontade em expor o conteúdo ao público, podem ajudar em outros momentos do projeto, como na parte da ornamentação da nossa feira cultural”, explica.

Caracterização

Racismo consiste no preconceito e na discriminação com base em percepções sociais baseadas em diferenças biológicas entre os povos. Muitas vezes toma a forma de ações sociais, práticas ou crenças, ou sistemas políticos que consideram que diferentes raçasdevem ser classificadas como inerentemente superiores ou inferiores com base em características, habilidades ou qualidades comuns herdadas.

Punição

No Brasil, o racismo é considerado crime inafiançável e  imprescritível, portanto há um rigor maior tanto da constituição quanto da lei em relação a esses crimes. Nesses casos, o Estado não depende da representação da vítima para investigar.

Como educadora, Raimunda afirma que não abrirá mão do projeto, pois vê o conteúdo como suma importância no currículo dos alunos. “Dentro dos conteúdos de história trabalhamos a contribuição cultural e econômica dos africanos no Brasil. Quando o assunto se tornou lei, fiquei muito feliz e triste ao mesmo tempo, pois infelizmente foi preciso se tornar lei para falarmos do assunto”.

Blog: Juarez Silva, historiador

"Em uma escola confessional vejo como natural que a cultura e religiosidade confessada tenham uma prevalência, muito embora se diferencie ensino religioso de ensino de cultura religiosa.   Mesmo nesse tipo de escola é preciso que ao menos o respeito à diversidade seja fomentado; por outro lado, temos as escolas não-confessionais e, principalmente nas públicas, pela laicidade, o que pode ocorrer é conteúdo de cultura religiosa e sem proselitismos. Penso que a maioria das escolas do ensino básico ainda não aborda a questão das diversidades cultural e religiosa da melhor forma possível,  mais especificamente no caso da história e cultura africana e afrobrasileira, o que inclui informações sobre as religiões de matrizes africanas.  Há inclusive obrigação legal por meio da lei 10.639/2003  de que todas, inclusive as confessionais, tratem da questão de forma transversal em todo o conteúdo. Infelizmente determinadas denominações religiosas promovem uma cultura de impermeabilidade, na qual valores e princípios de outros não devem sequer ser conhecidos, isso causa uma intolerância sistemática”

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