Quarta-feira, 20 de Outubro de 2021
SECA NOS RIOS

Estiagem no AM: municípios vivem drama com falta de alimentos e isolamento pela seca

Principais ‘estradas’ do Amazonas, os rios já estão secando e, onde antes existia transporte fluvial para passageiros e alimentos, agora surgem bancos de areia que afetam o dia a dia dos moradores do interior



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18/09/2021 às 07:00

Após a cheia histórica deste ano, o Amazonas já começa a enfrentar os efeitos do período de estiagem, caracterizado pela escassez de chuvas promovida pelo período seco. Exemplo disso é o que ocorre nos municípios de Tabatinga e Benjamin Constant, na região do Alto Solimões, onde os moradores relatam os impactos devido a vazante como o aumento no preço dos insumos, além do alto  custo e dificuldade para locomoção.

“Devido a estiagem, o preço dos alimentos que vem direto dos produtores ribeirinhos teve aumento, pois as dificuldades são grandes para chegarem até o município”, comentou Rosilda Carvalho de Lima, 50 anos. Ela é pedagoga em Tabatinga, município distante 1.108 quilômetros de Manaus. Segundo ela, foram os gêneros alimentícios tais como açúcar, cebola, batata, entre outros, os que mais tiveram aumento no preço.




Nível do rio em Tabatinga continua a descer. Foto: Defesa Civil do Amazonas

“Porque são produzidos em Manaus e, com a vazante, dificulta o acesso das embarcações. O nosso município também é abastecido pelos países vizinhos como Colômbia e Peru. O Peru abastece com frutas, verduras e legumes e pelo mesmo motivo da dificuldade das embarcações no rio o aumento nos produtos foi altíssimo”, ressaltou. 

Também houve alta nos preços de passagens para quem deseja locomover-se entre Tabatinga e Benjamin Constant. E como o canal do rio secou, não tem como viajar de embarcação e sim, de rota a qual percorre o triplo de distância e custa duas ou três vezes mais. 

“Houve aumento das passagens que ligam um município ao outro (Tabatinga / Benjamin). O preço era R$ 20 e atualmente custa R$ 60, mas chegou até a R$ 80”, destacou a pedagoga.

Isolados

A realidade de Aline Ferreira Cavalcante Melo, 21 anos, é bem parecida. Ela mora em Benjamin Constant, município distante cerca de 25 minutos de Tabatinga. A comerciante sente na pele as dificuldades do período seco já que a cidade ficou isolada e impossibilitada de receber a chegada ou entrada de barcos, lanchas e balsas. 

“O nosso único meio de transporte é o fluvial e como a nossa cidade está isolada, é difícil o acesso dos moradores ao município vizinho (Tabatinga)”, explica.

“Para que o cidadão possa sair do município, só há um meio de transporte, as balieiras, que normalmente tem um custo de R$ 30 para uma viagem que normalmente duraria 25 minutos e, com a seca, dobrou para R$ 60 reais com 1h de viagem. Vários bancos de praias saíram e fecharam o canal, forçando os frentista e a associação de catraieiros a subir o valor, pois o trajeto é mais longo e exige mais combustível”. E como ela trabalha com comércio, Aline Ferreira perdeu insumos e, consequentemente, perdeu a renda da família. 

“Trabalhamos no comércio e somos 100% dependentes dessa rota. Já recebemos esse mês mercadorias que 50% da carga foi perdida, por serem congelados. Esse ano pagamos um dos fretes mais caros”. 

Além de Tabatinga e Benjamin Constant, ambos localizados na região do Alto Solimões, os municípios das calhas do Alto e Médio Juruá e Alto Purus também estão sendo impactados por conta da vazante. 

Conforme monitoramento meteorológico realizado pelo Centro de Monitoramento e Alerta (Cemoa), que faz parte de uma das frentes de trabalho do Subcomando de Ações de Proteção e Defesa Civil do Estado do Amazonas (Subcomadec),  as condições oceânicas que dominam o clima apresentam status de neutralidade no mês vigente, sendo que, no panorama atual, tem-se observado que “a faixa sudoeste do estado experimentou o reflexo da escassez de chuvas promovidos pelo período de estiagem, que podem ter impactos de forma pontual, sobretudo nas áreas que compreendem as calhas do Alto e Médio Juruá, Alto Purus e Alto Solimões”. 

Ainda segundo o monitoramento meteorológico feito pelo Cemoa, o cenário futuro indica o retorno das chuvas, tendo em vista que o período seco já se encerra no mês de setembro. No mês seguinte (outubro), já deve ocorrer a transição entre a estação seca para chuvosa, em que se espera retorno das chuvas, conforme análise dos centros de referência em tempo e clima.

Monitoramento durante a estiagem

Com o encerramento das ações da Operação Enchente 2021, as atenções estão voltadas para o acompanhamento da estiagem. No Cemoa é realizado o monitoramento diário de variáveis que podem desencadear ocorrências nas áreas do monitoramento hidrológico e meteorológico.

Os produtos gerados por esse trabalho, em colaboração com institutos, agências e centros de monitoramento, subsidiam e amparam as ações de planejamento e tomadas de decisões que serão fornecidas aos 62 municípios do estado. 

Documentos como parecer técnicos, informativos, avisos e alertas são disponibilizados regularmente para as Coordenadorias/Secretarias de Defesa Civil Municipais do Estado do Amazonas, com o objetivo de otimizar a gestão de risco (prevenção, mitigação e preparação) e o gerenciamento de desastre (resposta e recuperação) para evitar potenciais situações de calamidade, e minimizar impactos sobre a população.

Monitoramento Hidrometeorológico 

Confira abaixo a situação das estações hidrometeorológicas da Amazônia Ocidental realizada pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM). Segundo os estudos, as regiões citadas na matéria enfrentam o fenômeno da vazante. O Boletim de Monitoramento mais recente foi divulgado ontem, no final da tarde.

De acordo com o CPRM, na bacia do rio Solimões, Em Tabatinga, a cota observada continuou a retomada de subidas e mantendo na faixa de maior permanência. Este fenômeno é devido a um pulso de subida bastante recorrente para esta época do ano, porém ainda não é sinal de final do processo de vazante. 

Cidades do alto Solimões permanecem submetidas às dificuldades impostas por um evento extremo de seca. Este quadro ainda é relatado nas cidades contidas nos rios afluentes pela margem direita do Solimões, rios Javari, Jutaí, Juruá, Purus e Madeira. Nas estações de Fonte Boa, Itapéua e em Manacapuru as cotas do rio Solimões permanecem dentro da normalidade para o período. 

Na bacia do rio Purus: Na sua foz, a estação de Beruri, no Amazonas, o rio Purus mantém o processo normal de vazante com níveis dentro da faixa de maior permanência.

Status dos municípios por calhas conforme a Defesa Civil do Amazonas:

Situação de Atenção

• Calha do Madeira: Humaitá, Apuí, Manicoré, Novo Aripuanã, Borba e Nova Olinda do Norte

• Calha do Alto Solimões: Atalaia do Norte, Benjamin Constant, Tabatinga, São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Iça e Tonantins



Rio em Amaturá. Foto: Defesa Civil do Amazonas

Situação de Alerta

• Calha do Juruá: Guajará, Ipixuna, Itamarati, Eirunepé, Envira e Carauari

O município de Ipixuna. Foto: Defesa Civil do Amazonas

• Calha do Purus: Boca do Acre, Pauini e Canutama

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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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