Publicidade
Cotidiano
Poema e crônica

Estudantes amazonenses levam medalha de ouro na Olimpíada de Língua Portuguesa

Yanca Fragata, de Parintins, ganhou na categoria crônica, e Ângelo Raphael, de Manaus, na categoria poema 13/12/2016 às 19:15 - Atualizado em 14/12/2016 às 10:57
Show olimpiada
Yanca Fragata ao lado de diretora e professor Rodrigo de Souza Rocha / Raphael Albuquerque, ao lado da avó, professora e diretora (Fotos: Divulgação)
Vinicius Leal Manaus (AM)

Dois estudantes do Amazonas levaram medalha de ouro e ficaram entre os 20 campeões da final da 5ª Olimpíada Brasileira de Língua Portuguesa “Escrevendo o Futuro”, realizada hoje, terça-feira (13), na cidade de São Paulo. Ângelo Raphael Albuquerque Ferreira, de Manaus, ganhou na categoria poema, e Yanca Fragata dos Santos, de Parintins, venceu na categoria crônica. O tema da olimpíada deste ano foi “O lugar onde vivo”.

“Estou me sentindo muito feliz. Nunca imaginei em ganhar. São tantas pessoas concorrendo e você nunca pensa que isso pode acontecer”, explicou Ângelo Raphael, de 11 anos, da Escola Estadual de Tempo Integral Almirante Barroso, que venceu com o poema “Sovaco da Cobra”, sobre o lugar onde vive, a rua Oito de Dezembro, no bairro Da União, na Zona Centro-Sul de Manaus. “Escrevi sobre as histórias, sobre as pessoas, o igarapé que passa aqui na frente. Contei uma história”, explicou. Leia a íntegra do poema ao final da matéria.

Já Yanca Fragata, de 15 anos, da Escola Estadual Gentil Belém, de Parintins, a 369 quilômetros de Manaus, foi medalha de ouro na categoria crônica com o texto “O amanhecer (num dia inqualquer)”, onde fala sobre a passagem do Dia dos Pais com a mãe dela. “Na minha crônica eu falo sobre a minha mãe, do sentimento com a minha mãe no Dia dos Pais, que faz papel de dois em minha vida”, explica. “No final do texto, eu escrevo a frase ‘feliz Dia dos Pais, mamãe’, e acho que essa frase é impactante”, disse. Leia a íntegra ao final.

Se sentindo feliz em trazer a medalha de ouro para o Amazonas, Yanca fala em agradecimento. “Vencer e trazer o ouro para o meu Estado é uma felicidade, um orgulho. Não tem como explicar o que estou sentindo. É como se a ficha não tivesse caído. Estou super feliz e grata a todos que me ajudaram nessa caminhada. Nós nos tornamos uma só família, a família Gentil Belém (nome da escola)”, disse.

Ao todo, foram 20 vencedores na 5ª Olimpíada Brasileira de Língua Portuguesa, cinco em cada uma das quatro categorias “Poemas, “Crônica”, “Artigo de Opinião” e “Memórias Literárias”. Além de Ângelo e Yanca, outros quatro estudantes do Amazonas concorriam entre os 152 finalistas. Antes da final em São Paulo, a semifinal foi realizada na cidade de Salvador (BA), no dia 24 de novembro.

A olimpíada

A Olimpíada de Língua Portuguesa é um concurso de produção de textos para alunos de escolas públicas de todo o País, do 5º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio, e realizado pela Fundação Itaú Social e Ministério da Educação . A 5ª edição da competição recebeu mais de 170 mil inscrições e teve a adesão de todos os Estados brasileiros, além de 4.874 municípios. O programa objetiva aprimorar a didática dos docentes de Língua Portuguesa para desenvolver competências de escrita em alunos e contribuir com a melhoria do ensino público.

Amazonenses

Além de Ângelo e Yanca, também participaram da olimpíada a estudante Raquel Farias Glória, de 11 anos, da E. M. Bom Jesus, zona rural de Manaus, com o poema “Minha Casa Azul e Rosa”; Rissya Nogueira Vieira, da E. M. Profª Francisca Góes dos Santos, de Careiro da Várzea, com “Se não fosse a copaíba”, na categoria memórias literárias; Irley Alves Gomes, da E. E. Francisca Mendes, de Eirunepé, com “Gotas de alegria” também em memórias literárias; e Mariani Marques da Silva, do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam) de Tabatinga, com o artigo de opinião “Estrangeiros no comando”.

Os prêmios

Os 500 alunos semifinalistas e seus professores ganharam medalhas, livros e participação em oficinas culturais e de formação. Os 152 finalistas – incluindo todos os seis estudantes amazonenses – receberam medalhas e tablets, e suas escolas serão contempladas com placa de homenagem. Já os 20 vencedores e seus professores ganham medalhas, notebooks, e impressoras, assim como as escolas recebem projetor e telão para projeção e livros.

O amanhecer (num dia “inqualquer”)

Todo dia pode ter um traço singular, e geralmente tem. Isso é comum. Mas às vezes esse momento singular é composto de um simples instante muito especial, feito crônicas que revelam a grandeza que há numa pequena cena, a poesia nas coisinhas do dia a dia. 

Naquele dia um calafrio me madrugou. Os ponteiros luminosos do despertador em silêncio marcavam exatamente 5 horas. Coloco meus pés para fora da rede, visto um casaco, saio do quarto e, no corredor, o calafrio foi ficando ainda mais frio, arrepiando todos os pelos do meu corpo. 

Fui até a cozinha, preparei um copo de achocolatado bem quentinho. Antes de tomá-lo, abri a porta de saída para o quintal, sentei no batente e por segundos aspirei o cheiro da fumaça que saía do copo, olhando para a imensidão das posses do meu vizinho dos fundos, o Rio Amazonas. E apesar do achocolatado quentinho e do calor amazônico de sempre, o calafrio continuava comigo. 

Algo entristecia meu coração, fazendo-o bater devagar e forte ao mesmo tempo. Algo difícil de compreender. Naquele instante, quis ler meu livro preferido ao pé da Mangueira da pracinha ao lado de casa, então fui, e o calafrio comigo. 

Quando abri o livro, foi como se libertasse dele um forte vento de prenúncio do amanhecer daquele dia. Depois de muitas páginas lidas, desço a escadaria da pracinha, ponho minhas mãos na água e sinto a correnteza do maior rio do mundo. Ventania gostosa, mas algo me entristecia por dentro. O calafrio de alguma forma me acompanhava para onde eu fosse. 

De repente, sinto o toque de uma mão amaciando meus cabelos. E mesmo sem falar nada, logo percebi que era minha mãe. Quando a olhei, me deu um leve sorriso. Sentamos lado a lado no passeio do muro de arrimo, com nossos pés dentro da água. Ela segurou minha mão como se nunca mais fosse soltar, olhando-me com os olhos úmidos. 

Naquele instante tudo que eu consegui fazer foi lhe dar um forte abraço. E ali, envolvida em meus braços, senti suas lágrimas caírem em minha costa. Foi como se os papéis tivessem se invertido: eu era a pessoa que a protegia e a consolava; a ela, uma criança aos prantos, que precisava de ajuda. 

O abraço já durava minutos. E com os primeiros raios solares espelhando nas águas barrentas do Amazonas, no toldo do barco que bassa singrando o rio, na copa das samaumeiras soberanas na outra margem, nos bandeirões dos currais dos Bois-Bumbás Garantido e Caprichoso, nos telhados das casas da nossa encantada ilha de Parintins, nos cabelos de minha mãe e na minha alma, expulsando o calafrio, disse-lhe: "Feliz Dia dos Pais, Mamãe!"

Sovaco da Cobra

Quem olha assim logo pensa
Que é só mais uma invasão
Mais pra mim é um lugar
De muita e muita diversão.

Esse lugar tem história
Que pra você vou contar
Quem me contou foi vovô
Morador antigo do lugar.

Meu avô Geó contou
Que em 90 aqui chegou
Havia um igarapé de águas cristalinas
Onde brincavam homens, mulheres, meninos e meninas.

As casas de madeira bem construídas
Pequenas podia-se dizer
Mais abraçavam cada família
Que nelas começava a crescer.

Logo que aqui cheguei
Tomei um susto danado
Pois não acreditei no nome
Com que o lugar foi batizado

Quando pequeno perguntava
O porquê desse nome então
E muitos riam de mim
Não entendia a razão.

Deixei pra lá essa história
E fui tratar de brincar
Conhecer um pouco de tudo
Daqueledivertido lugar.

Fui logo fazendo amigos
No meio da diversão
Brincávamos de muitas coisas
Só no igarapé que não.

Não era possível brincar
Nem hoje também é possível
Pois o igarapé do lugar
Mais parece um depósito de lixo

Hoje o que posso contar
Como morador do lugar
Que aqui sou muito feliz
Você pode acreditar.

E se em algum momento
Durante a leitura da obra
Você ficou curioso
Do porque Sovaco da Cobra.

Então leia as próximas estrofes
Que você vai entender
Pois vou explicar direitinho
Pra você não mais sofrer.

De início quero contar
Que se chamava oito de dezembro
Se tinha outros nomes bem antes
Não me contaram ou não lembro.

Rua José de Nogueira
Foi o segundo nome dado
Esse é bem desconhecido
Bem difícil ser chamado

Pra encurtar essa história
E desenrolar essa corda
O nome mais conhecido
É mesmo Sovaco da Cobra.

Agora que você já sabe.
O nome da rua que moro
É esse: Sovaco da Cobra
Lugar bonito que adoro

Se pensar mais um pouquinho
Vai entender de sopapo
Que cobra não tem axílas
E nem tão pouco sovaco

Então comecei a entender
Porque a chamam assim
Pois pra muitos não existe
Mais ela existe pra mim.

Para finalizar essa história
Deixo aqui o meu recado
Ame o lugar onde vive
Seja lá como foi batizado.

Publicidade
Publicidade