Terça-feira, 04 de Agosto de 2020
ESTRUTURA PRECÁRIA

Estudantes do Norte enfrentam dificuldades com EAD durante pandemia

Pesquisa mostra que 52% dos alunos estão tendo atividades escolares na região e que só 37% têm internet, quantidades bem aquém de regiões como o Sul, onde 94% dos estudantes conseguem seguir o ensino EAD



1784982_D9FD28C3-6F3C-4BB5-A127-4464ED912EFB.jpg Foto: Euzivaldo Queiroz
03/07/2020 às 10:14

Uma pesquisa do Instituto Datafolha, sobre a Educação na Pandemia Covid-19, divulgada recentemente, mostra que 74% dos estudantes das redes públicas brasileiras acessam alguma atividade pedagógica em casa durante a pandemia e que 84% deles dedicam mais de uma hora por dia aos estudos em casa. No entanto, a Região Norte aparece com um cenário menos favorável. 

A pesquisa deixa claro que as redes públicas deram passos largos nesta pandemia para chegar aos alunos e superar os desafios, mas eles são muitos e as desigualdades regionais são imensas, por exemplo, na oferta das atividades pedagógicas não-presenciais. No Norte, pouco mais da metade dos alunos (52%) receberam atividades escolares na pandemia, e no Nordeste, 61%. 



Em contrapartida, na região Sul, 94% dos estudantes receberam algum tipo de atividade pedagógica não presencial, seguido por Sudeste, 85%, e Centro-Oeste, 80%, apurou o Datafolha.

Do total de respondentes da pesquisa, 24% dos estudantes das redes públicas não receberam nenhum tipo de atividade não presencial na pandemia. Essas crianças e adolescentes são, na maioria, moradoras de favelas ou comunidades (57%), estudam em escolas municipais (67%), cursam o Ensino Fundamental 1 ou 2 (90%) e são pretas ou pardas (60%). São 42% residem na Região Nordeste e 22% no Norte do País. 

“Primeiramente é importante compreender que existem dois fatores contribuindo para esse resultado. O primeiro deles é inerente ao sistema de educação da Região Norte, que concentra a maior quantidade de alunos nos anos iniciais do ensino fundamental, em comparação com todas as outras regiões do Brasil. E, considerando que os alunos dessa etapa são mais novos, e portanto possuem menos autonomia para estudar sozinhos, mesmo por intermédio de tecnologia, é de se esperar que isso diminua os índices nessa região. Contudo, isso é agravado pelo fato da Região Norte ser a região com menor penetração de tecnologias digitais, e com famílias em níveis socioeconômicos mais baixos”, analisa Lucas Rocha, gerente de inovação da Fundação Lemann, instituição que encomendou a pesquisa junto com o Itaú Social e Imaginable Futures.

Para reverter essa situação é que o Estado do Amazonas, por exemplo, lança mão de estratégias alternativas, como o Centro de Mídias, completa ele, “ao utilizar da televisão para a transmissão das videoaulas para alunos que não possuem acesso à internet. E é para apoiar iniciativas como essa que a Fundação Lemann, junto com o CIEB e a Fundação Roberto Marinho lançaram o ‘Vamos Aprender’, um acervo com mais de 300 programas educativos gratuitos disponíveis para qualquer rede pública brasileira utilizar na televisão ou internet como complemento às aulas remotas”.

Formas de apoio

Ao ser perguntado sobre quais seriam as melhores formas de apoio às redes públicas para atingir os estudantes, Lucas Rocha disse que a pesquisa nos ajuda a observar que não existe uma única solução e que as redes públicas devem lançar mão de um conjunto de estratégias para chegar ao maior número de alunos possível. 

Entre essas estratégias estão, sugere o especialista, “Combinar ofertas de materiais impressos com transmissão de aulas pela televisão ou Internet e criar um canal de comunicação entre alunos e professores, seja por meio de ambientes virtuais de aprendizagem ou mesmo grupos em redes sociais”.

Rocha frisou que a estratégia adotada pela Secretaria de Estado da Educação e Qualidade de Ensino (Seduc) quanto ao “Kit Merenda” distribuído para os alunos em forma de cesta de alimentação é uma iniciativa “muito semelhante à de outras redes em todo o Brasil” e que “é preciso assegurar as demais funções sociais da escola, e a merenda escolar é uma dessas funções. 

Ausência de comunicação

Os pais ou responsáveis apontam a falta de comunicação ou de explicações por parte das escolas como um dos principais motivos para o não acesso às atividades durante a pandemia (40% justificam desta forma segundo o Datafolha).

Pesquisa telefônica

Foram efetuadas 1.028 entrevistas com pais ou responsáveis por 1.518 estudantes da rede pública em todo o Brasil. A margem de erro máxima para o total da amostra é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro do nível de confiança de 95%. A pesquisa quantitativa teve abordagem telefônica, a partir de sorteio aleatório de números de telefones celulares, e foi realizada entre os dias 18 e 29 de maio.

Apenas 37% de alunos nortistas declararam possuir Internet

Outro ponto importante apontado na pesquisa do Datafolha é sobre o acesso dos estudantes aos equipamentos eletrônicos. A maioria das famílias (95%) possui telefone celular. 59% dizem ter internet banda larga na  residência. 50% afirmam ter  de 1 a 3 equipamentos com  acesso à internet, 46% com mais de 4 equipamentos e  apenas 4% sem nenhum equipamento.

Aqui também as diferenças regionais são grandes. Enquanto nas regiões Sul,  Sudeste e Centro-Oeste os estudantes com internet banda larga são, respectivamente, 71%, 65% e 65%, na Região Norte apenas 37% declararam possuir Internet, e 53% no Nordeste.

Preocupação com a evasão escolar.

A rotina dos estudantes em casa foi outro ponto abordado com pais e responsáveis. 84% dizem que os estudantes se dedicam mais de uma hora por dia aos estudos em casa, sendo que 29% passam mais de três horas diárias. E  82% estão fazendo a maioria das atividades escolares enviadas pela escola.

Entre as principais dificuldades das atividades não presenciais estão: acesso à Internet (23%), dificuldade com conteúdo (20%), falta de equipamentos (15%) e falta de interesse no conteúdo (15%).

A pesquisa mostra, ainda, que metade dos pais ou responsáveis dos alunos que receberam algum material acredita que o aprendizado está evoluindo em casa e 54% veem motivação dos alunos nas aulas. 71% também acreditam que o relacionamento em casa não piorou após o início das atividades remotas. 

Por outro lado, 31% dos respondentes demonstraram preocupação com a  evasão escolar. Esse percentual é ainda mais alto entre pais com baixa escolaridade e menor renda. Dos pais com medo do estudante desistir de  frequentar a escola quando as aulas voltarem, o percentual é maior para responsáveis com apenas o ensino fundamental (40%), com até dois salários mínimos mensais (36%), com estudantes da cor preta (37%) e das escolas  com menor nível socioeconômico.

BLOG: Lucas Rocha, gerente de inovação da Fundação Lemann

“É preciso dizer que estamos vivendo um momento único e que os desafios são enormes e muitas vezes inéditos, pois estamos aprendendo na prática as melhores formas de oferecer educação em tempos de pandemia. Dito isto, essa situação nos possibilitou jogar luz a dois problemas que não são novos na educação. São desafios que precedem a pandemia, mas que se intensificaram nesse momento. O primeiro é o abismo digital existente entre os estudantes que possuem acesso a conectividade e dispositivos como computadores e celulares e os que não possuem. A pesquisa mostra, por exemplo, que na região Norte apenas 37% declararam possuir internet banda larga na residência, e 53% no Nordeste. O segundo grande desafio é o da comunicação entre escolas e famílias. Entre os alunos que não estão recebendo atividades pedagógicas para fazer em casa, 40% dos pais alegam que não receberam nenhum tipo de orientação das escolas, apesar do esforço enorme das secretarias e dos professores em divulgar suas ações”.

Perfil dos estudantes

● Gênero
47% feminino 
53% masculino

● Por Ciclo escolar
44% no EF1
36% no EF2
20% no Ensino Médio

● 5% tem algum tipo de deficiência 

● Cor declarada
48% pardos
37% brancos
7% pretos
2% amarelos
2% indígenas
4% outros

Perfil dos Responsáveis 

● Idade 
4% de 18 a 24 anos
30% de 25 a 34 anos
41% de 35 a 44 anos
22% de 45 a 59 anos
2% mais de 60 anos

● Parentesco
64% mãe
23% pai
5% avô/avó
5% tia/tio
3% irmão/irmã
3% padrasto/madrasta

● Cor declarada
47% parda
32% branca
12% preta
3% amarela
2% indígena
4% outros. 

● Renda das famílias
73% até dois salários mínimos
13% de 2 a 3sm
7% de 3 a5 sm
3% de 5 a 10 sm
1% mais de 10 sm
2% recusa/não sabe 

● Renda na pandemia
55% teve a renda reduzida 
33% ficou igual
11% a renda aumentou 

● Residência
35% vivem em capital ou região metropolitana
65% no interior

● Crianças ou adolescentes em idade escolar por residência
61% um estudante
30% dois estudantes
17% três ou mais estudantes 
(média de 1,5 estudantes por residência)

Repórter de A Crítica

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