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Estudo diz que existem médicos de sobra, mas com má distribuição no AM

Essa é a conclusão de um estudo feito pela professora Heliana Nunes Feijó Leite, do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) 20/07/2013 às 09:20
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Por falta de estrutura no interior, até mesmo um médico chegou a morrer em 2009, vítima de AVC; segundo Ministério da Saúde, faltam 328 médicos no AM
Steffanie Schmidt ---

Com a formação de uma média de 260 médicos por ano, de três faculdades de Medicina em Manaus, e a concentração de 94,1% dos que atuam no Amazonas, na capital, o problema da falta desses profissionais no interior passa a ser de distribuição e não de escassez. Essa é a conclusão de um estudo feito pela professora Heliana Nunes Feijó Leite, do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

A constatação foi feita a partir de um questionário aplicado a 43 dos 146 alunos que estavam concluindo o curso de Medicina da Ufam, em 2010. Dos pesquisados, 58,1% já haviam cursado o Internato Rural, uma espécie de estágio obrigatório, implantado desde 1991 na Ufam, e afirmaram conhecer os problemas do interior (86,4%). Ainda assim, 74,4% disseram que aceitariam trabalhar no interior do Estado se tivessem boa remuneração (48,8%), condições adequadas de trabalho (41,8%) e se o município fosse próximo à capital (20,9%).

“A realidade praticamente não mudou e hoje, vemos as mesmas discussões por conta da proposta do Governo Federal de trazer médicos estrangeiros, sem revalidar o diploma, para atuar nos rincões do País”, explicou Heliana Feijó.

Os seis municípios mais citados para futura atuação profissional de 51,2% dos entrevistados estão situados na Região Metropolitana de Manaus (RMM). “É onde existe infraestrutura urbana, meio de transporte, onde pega celular e Internet, e tem hospitais de médio porte. São cidades que não estão completamente isoladas”, explicou. Esses fatores, segundo a professora, permitem que o médico possa, além do serviço público, atender pacientes em consultórios particulares, devido à condição de desenvolvimento econômico-social do município. “Isso atrai também outros profissionais, como os da área jurídica”.

A falta de uma Internet operando em banda larga no Amazonas prejudica, por exemplo, o atendimento por meio do programa de Telemedicina, que visa a oferta de serviços de diagnóstico e tratamento de demandas de áreas específicas, sem precisar sair do local. “Só funciona e ainda assim mais ou menos, em Parintins. Toda segunda-feira reúnem-se médicos de Nhamundá, Barreirinha e Boa Vista do Ramos para repassar as especialidades para Manaus, pela Internet”, explicou Heliana Feijó.

Outro exemplo disso, são os médicos que estão no interior e não conseguem concluir o curso do Programa de Saúde a Família (PSF) à distância. A cada 15 dias, segundo a professora, eles têm de vir a Manaus para postar e receber as tarefas designadas. A saída do município é na sexta-feira à tarde, com retorno programado para segunda, para continuar no atendimento aos pacientes. Em outros casos, médicos chegavam a trazer a CPU do interior, onde estava instalado o programa Data Sus, que deve ser abastecido com informações dos serviços prestados, para que o município receba o repasse do dinheiro. “Essa realidade ninguém me contou. Eu vivi”, disse Heliana Feijó que foi secretária adjunta de Atenção Especializada do Interior da Secretaria de Estado da Saúde (Susam) na época da pesquisa.

Salário de R$ 25 mil no interior

O secretário estadual de Saúde, Wilson Alecrim, informou que é favorável às medidas que possibilitem ter médicos que ocupem postos vagos. Segundo ele, a falta de profissionais é mais grave no interior. Atualmente a Susam tem 420 contratos de 20h/semanais. Alguns médicos têm dois contratos. Para que os 61 hospitais no interior funcionem com uma equipe mínima de 5 médicos, seriam necessários 1.747 contratos.

“Neste primeiro momento, o programa Mais Médico do Governo Federal vai atender os postos vagos da atenção básica e, creio que posteriormente, a vagas do atendimento de média e alta complexidade poderão ser preenchidas”, disse.

Alecrim citou como exemplo da falta de médicos a situação de Tabatinga, cidade de 52 mil habitantes, que possui infraestrutura urbana, vôos diretos para Manaus, dois hospitais militares e rede de atenção básica, além de ter ligação direta com a cidade vizinha de Letícia, na Colômbia, que também oferece serviços urbanos. “A norma é que tenhamos 2 médicos para cada 1 mil habitantes, ou seja, teríamos que ter 104 profissionais lá e hoje temos apenas 37. Isso porque o hospital local é bem equipado”, afirmou o secretário.

Ele ressaltou ainda que Prefeituras e Estado pagam R$ 25 mil para um clínico geral ir para o interior.

Serviços concentrados em pólos

Para o presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam), Mário Viana, a realidade manifestada pelos estudantes é a mesma dos profissionais: é necessária infraestrutura mínima, como aparelhos “razoáveis de raio-x” e ultrassonografia, por exemplo.

“O ministro da Saúde (Alexandre Padilha) diz que é preciso que o profissional se desvincule um pouco dessa questão da tecnologia, mas pergunta para ele onde ele se trata ou consulta os familiares quando precisa? É num ‘Albert Einstein’ ou num ‘Sírio Libanês’, com certeza”, disse.

Um das alternativas defendidas pelo sindicato é a soma de esforços de municípios próximos, cuja densidade demográfica não justifique, por exemplo, a manutenção de equipamentos de alta complexidade. “É preciso que eles se unam, a partir de um planejamento do Estado, para atender as demandas. Um serviço de tomografia, por exemplo, pode ficar concentrado em um município para atender toda uma calha”, explicou.

Essa e outras reivindicações como a criação de carreira para o interior, melhorias das condições estruturais e segurança nas unidades de saúde são o motivo de uma paralisação programada para terça-feira, no Largo de São Sebastião.

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