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‘Eu não serei deputado Maria vai com as outras’, diz Belarmino Lins sobre sétimo mandato

Deputado com maior número de mandatos, em atividade, e figura de proa do bloco articulado pelo senador Eduardo Braga, cogita a possibilidade de deixar o PMDB e diz que não fará oposição ‘fervorosa’ 07/12/2014 às 12:31
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Deputado Belarmino Lins diz ser vítima de “uma eleição atípica” e não poupa afagos a antigos aliados
Raphael Lobato Manaus (AM)

Após 24 anos de parlamento estadual, o deputado Belarmino Lins (PMDB) iniciará no próximo ano o seu sétimo mandato já desafiado a lidar com um cenário nunca antes vivido pelo decano: Terá que equilibrar a decisão do partido de fazer oposição com o seu desejo pessoal de se manter na base do governo, “sem se indispor com ninguém”.

Em entrevista concedida para A CRÍTICA, o peemedebista diz ser vítima de “uma eleição atípica” e não poupa afagos a antigos aliados. Belão, como costuma ser chamado pelos colegas, não fala em engrossar o coro do “blocão” de oposição, quiçá em disputar a presidência do parlamento contra os governistas, o que, segundo ele, é uma “aventura” que não cabe mais. Um futuro promissor ao grupo também não é garantido por ele, que acha que “as políticas são como nuvens, podem se mover rapidamente”.

Em 24 anos de história no parlamento, o senhor nunca saiu da base governista. Agora, a partir de 2015, o cenário lhe impõe mudanças. O senhor quer fazer oposição?

As eleições de 2014 se constituíram de forma atípica porque o grupo político dominante por quase três décadas se dividiu, levando lideranças. Eu já comecei a minha carreira na situação, desde 1990, na primeira eleição. Então, eu não fui antes da oposição e vim para a situação, ou antes fui da situação e vim para a oposição. Eu sempre fui parlamentar governista. Quando houve a divisão, o Átila (deputado federal) foi para o PSD por força de insatisfação, eu fiquei no PMDB por lealdade ao senador Eduardo Braga, como também ao Omar e ao Melo.

Então o senhor prefere se manter na base governista?

Durante essa vida política, nós convivemos juntos, eu, Braga, Omar e Melo, então não se pode estabelecer um rompimento assim, abrupto. Se eu estou há 24 anos como parlamentar governista, e agora o quadro político nos coloca numa posição diferente, eu tenho que analisar esse aspecto, o meu histórico, o meu momento. E preciso analisar com muita responsabilidade e coerência. Não se pode mudar a cor de uma vida pública a bel prazer. Eu não posso ser hoje azul e amanhã vermelho. Eu sou Caprichoso.

E quanto aos demais aliados, o senhor acha que também há essa posição?

Até hoje, a orientação que o senador nos deu, ainda quando candidato, era que nós ficássemos numa oposição de independência, apoiando iniciativas de interesse público e coletivo, mas numa posição independente. Em nenhum momento, o senador disse que seria oposição fervorosa ou radical. Cada um tem a sua oportunidade de analisar. Preciso responder a esses municípios que me deram essa eleição recorde. Nenhum outro amazonense conquistou o número de mandatos como eu. Eu não serei deputado “Maria vai com as outras”. Se houver radicalismo, não serei obrigado a seguir.

O PMDB não faz oposição há pelo menos dez anos. O partido agora está preparado para a nova fase?

O que o senador tem nos dito que é que se faça oposição sem se distanciar dos interesses públicos do Estado e da população. Uma liderança que teve quase 45% dos votos não pode trabalhar contra o povo. O partido deverá executar o papel de oposição, mas isso não significa dizer que os seus membros façam o jogo do quanto pior melhor. Eu não vou fazer isso. E outra, a reforma política está sendo discutida e é um item que pode conduzir a política a uma nova configuração, com criação de novos partidos, partidos em formação. Essa reforma abre um leque para novas páginas do livro da política brasileira. Haverá acomodações e os insatisfeitos buscarão abrigo.

Questionado sobre o assunto outras vezes, o senhor já havia citado mudanças de partido. Está nos seus planos deixar o PMDB?

Eu diria que não tenho razões, nem motivações, para sair do PMDB neste momento, mas a política é, digamos assim, vou repetir as frases do saudoso estadista Ulysses Guimarães, as políticas são como nuvens, ora nuvens brancas, ora nuvens azuis, ora nuvens cinzas. As cinzas são as mais ameaçadoras, as azuis são de serenidade e tranquilidade e as brancas são de movimentações. As brancas estão mais baixas. Essas se movem de uma velocidade que como pode acontecer na política. Mas hoje não tenho razões pra deixar o PMDB. Não digo desta água não beberei, só não vou me indispor com ninguém.

Mas uma das suas primeiras ações após as eleições foi justamente assinar uma proposta que limita a margem de manobra orçamentária do Executivo. Isso não é se indispor com o governo?

É verdade. Assinei essa medida, mas existem várias alegações que os governos que antecederam nunca tiveram necessidade de operar o orçamento nessa margem de 40%. Então isso tem sido até hoje uma procuração em branco, um cheque em branco que os parlamentares têm dado ao governo. Ora, se o governo até hoje não teve necessidade de remanejar 40%, então não vejo como imprescidível de você reduzir e causar prejuízo ao governo. Isso não significa que você não vai engessar o governo porque na hora que ele chegar aos 20%, no caso, de aprovado, e necessitar de mais remanejamento, ele retorna à Assembleia Legislativa e, com certeza, terá aprovação.

Uma mudança desse tipo nunca havia sido imposta ao governo antes. Por que só agora essa movimentação?

Nesses 24 anos, de fato, nunca a ALE tentou fazer mudança nesse assunto, mas tá fazendo agora e qual é o problema assinar, ainda mais convencido de que o governo nunca recorreu a esses 40%. Se houve redução, em qualquer momento que o governo vier a ALE, eu acho que eu estou no dever de não construir um impasse para quem está governando. Agora houve um equilíbrio, a situação elegeu 13 e os partidos que fizeram oposição, elegeram 11. Já há uma mudança política, no entanto, estamos entrando no inverno e muitas águas vão descer dos céus e a gente não sabe o resultado.

O senhor então acha que o blocão não sobreviverá a futuras investidas do governo?

Vai descer muitas águas, pode ter mudanças no cenário. Eu não vejo nenhuma atitude do blocão de maneira hostil. De todos que eu conheço, não vejo sentimento de hostilidade. A ALE, desde antes das eleições até agora, ainda não desaprovou nenhuma medida do governo porque há coerência. Eu diria que se vai dar início ao novo governo, com a reforma, não vamos nos iludir que muitas vão acontecer a nível nacional e porque eu não no Amazonas. Não sejamos incoerentes a ponto ser afirmando que esses 11 deputados se manterão juntos até o último instante.

O senhor acha esse novo cenário vai impor que o governo dê mais atenção às relações com o parlamento?

Sim, no sentido de construir uma relação de alto nível, construtiva. Não há mais clima para aprovar projetos em 48 horas. O projeto deverá vir, passar pelas comissões. Hoje, a maior queixa é que você não discute as matérias, as comissões não se reúnem. Se eu sou governista, por que que eu vou me esconder por trás da porta pra aprovar um projeto do governo? Tem que assumir. A ALE crescerá na medida em que os projetos virão. Se o governo entender que há urgência ele coloca urgência. Não vejo qual é a dificuldade de vir um secretário para debater com os deputados.

E quanto à disputa pela presidência, o senhor se interessa em ser o candidato do blocão?

Você já deu murro em ponta de faca? Você tem sinal na mão? Eu não, não tenho nem marcas. Se vier a reforma, como eu disse, vem as acomodoções. Não sou homem afeito a aventuras. Não sou homem afeito a faz de contas. Se houvesse a construção de uma união para me conduzir, eu vou dizer que não, mas não irei para o confronto, para a aventura. Não tenho mais idade pra isso. Pra quê? Para a imprensa me noticiar todo dia? Não preciso mais disso.

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