Domingo, 23 de Janeiro de 2022
Entre as mulheres

Evasão escolar é quase o dobro no Amazonas em comparação a outros estados

Um dos principais motivos é a gravidez precoce. Amazonas apresenta o maior índice (8,2%) de meninas que interromperam os estudos por causa da gestação



Evasao_escolar__2__C44F6DAD-26CB-448F-AF97-05F23E7CEB5B.JPG Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
28/11/2021 às 09:12

As meninas sonham com seu futuro. Seja para universidade ou desenvolver um grande empreendimento, a certeza de muitas é poder conquistar um futuro de sucesso profissional e independência financeira.

Entretanto, muitas destas acabam trilhando um caminho com diversas dificuldades, e acabam por abandonar os estudos para ter que trabalhar ou cuidar de um filho precocemente - o que muitas vezes, os dois fatores estão interligados. E o Amazonas é um grande exemplo disso.

Segundo a pesquisa "Por Ser Menina 2021", encomendada pela Plan International Brasil e executada pela consultoria Tewá 225, o Amazonas é o estado onde houve o maior percentual de interrupção escolar (32,8%), o que constitui quase o dobro em comparação com os demais estados e à média nacional (18,2%) apontado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019.

Realizada no contexto da pandemia, a pesquisa adotou um modelo híbrido quantitativo (survey) e qualitativo (por meio de reuniões em grupos focais), para ouvir 2.589 participantes de 14 a 19 anos. As meninas são de dez cidades nas cinco regiões brasileiras: Brasília (DF), Cachoeirinha (RS), Codó (MA), Formosa (GO), Jacareí (SP), Manaus (AM), Maués (AM), Porto Alegre (RS), São Luís (MA) e São Paulo (SP).

O estudo aponta que, das 383 meninas entrevistadas no Amazonas, um dos principais motivos para evasão escolar é a gravidez precoce. O Amazonas apresentou o maior índice (8,2%) de meninas que interromperam os estudos por causa da gestação. Logo atrás, vem Maranhão com 6,8%. Ambos estados apresentam índices maiores que a média nacional que corresponde a 4,9%.

Tarefas domésticas

Os modelos sociais existentes ainda reforçam desigualdades de gênero e atrapalham o pleno desenvolvimento das meninas. Dentro de casa, elas ainda realizam o dobro de trabalhos domésticos que os meninos (67,2% das meninas contra 31,9% dos meninos), o que valida a tese de que as meninas são precocemente responsabilizadas pelo cuidado com o lar e com as pessoas.

Assim, elas têm menos tempo para os estudos, lazer e atividades de desenvolvimento para a vida. A carga de trabalho doméstico piorou durante a pandemia: 54,6% das meninas disseram que as tarefas aumentaram. Para 11,2% das amazonenses entrevistadas, o grande número de afazeres domésticos impediu a continuidade dos estudos.

“Eu tinha uma colega que os pais dela têm um supermercado e ela é a única, de três irmãos, (outros dois meninos) que teve que parar de estudar, porque os dois irmãos dela queriam jogar bola, entrar naquelas escolas e ela teve que parar de estudar para assumir o supermercado. Eu achei isso super errado, porque tão privando ela de um direito básico, que é educação”, conta uma menina de 16 anos que teve a identidade preservada.

Contexto pandêmico

A pandemia do coronavírus gerou profundas dificuldades de acesso das meninas às escolas e foi citada por 19,3% das participantes como a causa da exclusão escolar. No Maranhão, essa causa chegou a 30,7% e no Amazonas a 21,4%. As meninas se sentem exaustas com as aulas on-line. O segundo motivo mais citado foi a perda de vontade de estudar, com 17,6% do total.

“Quando minha avó faleceu de Covid, as coisas ficaram mais difíceis. É como se eu não conseguisse me manter na escola, não conseguia cuidar direito dos meus irmãos, limpar a casa, enquanto minha mãe estava fora. O que mais me chateou foi que ela [mãe] não entendeu, ela simplesmente queria que eu tivesse notas boas independente de tudo, que eu limpasse a casa independente de tudo”, afirma a amazonense de 14 anos, participante da pesquisa.

Soluções

Para combater as desigualdades sociais e de gênero que ainda perduram no Amazonas e no restante do país, a pesquisadora Luciana Sonck destaca que o poder público precisa desenvolver soluções urgentemente.

"[É necessário] encontrar ações coordenadas entre as esferas governamentais, sociedade civil e setor privado, capazes de implementar soluções de curto prazo para a redução desses impactos, ao mesmo tempo em que se trabalha para a construção de cenários menos desiguais e mais inclusivos para as meninas no futuro, é um dos importantes objetivos desta pesquisa", destaca a pesquisadora.

Sonck ressalta ainda que os dados da pesquisa reforçam o compromisso que o poder público possui em aprimorar políticas voltadas para as meninas do Amazonas e em todo o Brasil. "Trabalhar pela melhora das condições de vida das meninas hoje é garantir a geração de mulheres livres, vivas e saudáveis, cidadãs conscientes e líderes do amanhã", finalizou.

Setenta e sete mil abandonam escola

Por ano 77 mil jovens abandonam as escolas estaduais, segundo informações da Secretaria de Estado de Educação e Desporto (Seduc).

Os motivos do alto índice de evasão escolar na rede estadual do Amazonas variam, sendo o principal a dificuldade de conciliar os estudos com o trabalho. Pesquisa interna da Seduc-AM indica que pelo menos 21,7% dos alunos deixam a escola por conta de emprego, seguido por gravidez (14,1%), doença (14,1%), cuidar da família (12,2%) e falta de vontade de estudar (10,3%). Segundo esse levantamento, o abandono escolar é mais frequente entre jovens de 18 a 20 anos.



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Repórter de A Crítica
Amazonense, nascido e criado em Manaus. Graduado em Jornalismo e mestrando em Antropologia Social, ambos pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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