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Ex-prefeita de Campinas se dedica aos excluídos do Alto Solimões

Afastada da política partidária, ela, no entanto, não abandona a luta por um País melhor e acredita ser missão ajudar, com a experiência e maturidade, o povo do Alto Solimões contra a exploração e o tráfico de meninas, problema considerado grave naquela região 20/09/2014 às 15:26
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Izalene era vice-prefeita na gestão de Toninho do PT e assumiu o cargo após o assassinato dele. Hoje está fora da política
ana celia ossame ---

Ex-prefeita da cidade de Campinas (SP) pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em 2001 e assistente social com especialização em saúde pública, a paulista Izalene Tiene, 71, está radicada desde 2011 na cidade amazonense de tríplice fronteira, Tabatinga (a 1.105 quilômetros de Manaus), como missionária da Igreja Católica.

Afastada da política partidária, ela, no entanto, não abandona a luta por um País melhor e acredita ser missão ajudar, com a experiência e maturidade, o povo do Alto Solimões contra a exploração e o tráfico de meninas, problema considerado grave naquela região.

Em Manaus, onde participou da 42ª Assembleia Regional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizada na semana que passou, Izalene Tiene falou com A CRÍTICA, quando argumentou que os aposentados não podem ficar apenas participando de festas e de atividades de lazer, mas sim trabalhar em prol de uma ação social. Leia a entrevista:

Como foi a atuação da senhora como prefeita de uma das maiores cidades do Estado de São Paulo?

Em 2001 era vice-prefeita, mas assumi a prefeitura com o assassinato do prefeito Antônio Costa Santos, o Toninho do PT. Quando assumi, 10 meses depois estava coordenando o orçamento participativo e na prefeitura valorizei esse aspecto: trabalhar com a população a organização do orçamento e das políticas a partir da necessidades das pessoas, com assembleias populares, um trabalho de maior de humanização.

Quais as maiores dificuldades encontradas?

Foi um mandato difícil. Não tinha como fazer obra porque o governo federal, então nas mãos do PSDB, não liberava recursos federais. Só dois anos depois, entrou o governo do PT, que repassou verbas para o município. Trabalhamos na restauração da cidade, do patrimônio histórico. Nosso desejo era combater a violência tornando a cidade mais segura e buscamos a participação das pessoas nesse processo. Implantamos uma política social de inclusão, pois não tinha ainda o Bolsa Família, assim como plano de cargos e salários dos professores. O maior investimento foi nas pessoas, construindo casas e regularizando ocupações. Campinas tem grandes universidades...A cidade, de 1,1 milhão de habitantes, teve crescimento muito grande na década de 50, mas na década de 90, com a desativação de empresas, houve um retrocesso no crescimento, mas a ampliação de serviços e a construção de universidades permitiu um grande salto na vida econômica e social. Multinacionais como a Samsung foram para lá atraídas pelas políticas desenvolvidas na cidade como saúde, transporte e educação. Além de ser um centro de tecnologia.

A senhora deixou a política partidária?

Continuo filiada ao PT, mas considero minha missão na política partidária encerrada. Para mim, o cargo eletivo tem um prazo, não sou a favor que as pessoas tenham mais de três mandatos, porque se não acaba virando profissão. Defendo que o cargo eletivo seja para o serviço, pois o Evangelho diz que todo poder é dado para servir e foi dentro dessa perspectiva que participei de política partidária.

Por que a vinda para o Alto Solimões?

Eu queria muito conhecer o Amazonas, de tanto ouvir pessoas falarem daqui e demonstrar saberem mais do que muitos brasileiros sobre a região. Depois de me aposentar, me inscrevi na CNBB Sul 1, por achar que os aposentados não devem apenas se reunir para o lazer, têm que prestar algum serviço, não deve viver uma vida só indo para bailes. Pode-se ainda fazer algum serviço para ajudar uma comunidade, isso é que renova a vida, porque temos maturidade e experiências para sermos mais úteis. Quando me indicaram para vir a Tabatinga, aceitei por achar que a igreja no Amazonas é profética e aqui há muito o que fazer. Embora viva em Tabatinga, trabalho na Diocese do Alto Solimões.

Que trabalhos faz lá?

A partir das Campanhas da Fraternidade relacionadas à saúde, em 2012, trabalhamos principalmente em ações relacionadas ao saneamento básico, que é uma situação grave em todo o Estado, e dos resíduos sólidos, que não têm onde ser descartados ou reaproveitados. Trabalhamos nos conselhos de cidadania, meio ambiente, sensibilizando a sociedade civil para educação ambiental, reaproveitamento de rejeitos.

Qual o maior desafio do trabalho naquela região?

O desafio maior é a exploração sexual de crianças e adolescentes e o tráfico de pessoas que são levadas pela tríplice fronteira, muitas vezes aliciadas por promessas. Damos apoio e orientação às famílias para evitarem esse tipo de situação, mas numa região que é multicultural, por reunir três povos de países diferentes, há sempre grande dificuldade.

A condição de tríplice fronteira é importante? Sim, tem uma dinâmica multicultural que aproxima peruanos, colombianos e brasileiros. A Diocese do Alto Solimões tem projetos sociais importantes como o incentivo ao plantio de frutíferas, uso de energia solar, tratamento de água potável.

Vai ficar lá até quando?

Até quando conseguir ajudar, contribuir para melhorar a vida daquele povo.

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