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‘Falta dar espaço para as coisas que são feitas aqui’, diz Orlando Câmara em entrevista

Com grande experiência na vida cultural da cidade de Manaus, Orlando Câmara faz uma análise dos diferentes aspectos da capital que acaba de completar 346 anos e ressalta fatores que a tornam única 24/10/2015 às 15:47
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Orlando Câmara
Saadya Jezine Manaus (AM)

Seu olhar sensível, sobretudo a respeito da realidade cultural da capital amazonense, começou quando criança. Influenciado pela mãe que durante muitos anos ocupa cargos públicos voltados às questões culturais do Estado, Orlando Câmara, iniciou seu contato com o conceito de cultura na universidade, quando era integrante do Centro Acadêmico (CA) de Direito, e depois, do Diretório Central dos Estudantes (DCE), quando ajudou a transformar o festival de música em festival universitário.

Após a experiência, seu envolvimento com questões ligadas a esse conceito só se intensificaram. Neste entrevista, Orlando fala sobre sua percepção essencialmente singular que levou à construção do conceito de “Bagdá Equatorial”, que ele atribui a Manaus, capital rica culturalmente e de trajetória histórica marcante.

Você percebe que seu olhar é diferenciado – mais sensível sobre as questões da cidade de Manaus? Você acha que isso é fruto de uma vida acadêmica diversificada?

Eu percebo. Só não acho que isso seja da formação acadêmica. Acho que isso nasce com a experiência. Quando eu era universitário, a gente era uma geração que foi criada ouvindo música estrangeira e tendo Rio de Janeiro como ambição de moradia. Eu tive a sorte de ter uma experiência internacional grande e quando eu voltei para Manaus – para ficar alguns meses - foi quando acabei ficando. Eu entendi o sentido de raiz, de origem. Dispor-se a entender o que são suas raízes, ajuda a ver o mundo de outra forma. Isso não vem com a educação acadêmica, vem com sentimento.

Trabalhando o conceito de raiz, a partir de qual experiência você descobriu que a sua raiz estava em Manaus?

Em 1995 eu cheguei aqui para passar alguns meses. Eu tinha passado (na seleção) no mestrado no Japão, e já havia até fechado com o meu orientador. Aí eu tive um convite da Zeina Neves para assumir a diretoria da Emantur. Ela sabia um pouco da minha história, e eu desisti do mestrado para ficar aqui e trabalhar. Na verdade, eu não planejava mais morar aqui. Eu já estava fora há algum tempo. No entanto, morar aqui me levou a comprar uma casa e a refazer relações familiares que eu não tinha antes, de cuidado, de convivência diária. Isso mudou a minha vida. Quando você compra uma casa, você sente vontade de morar nela. A gente amadurece um pouco. Esse foi um ponto de partida.

Todo escritor tem o que alguns caracterizam como ritual, que faz parte do processo de produção. Qual o seu?

Ah, não sei. Vou dizer que isso é uma coisa inconsciente. Por uma questão de disciplina, eu costumo botar o texto no papel no domingo à noite ou na segunda de manhã, para que não fique uma coisa muito velha. Já que é uma crônica, e tem muito a ver com cronos – cronologia, eu preciso tentar manter algum frescor nela. Mas o texto nasce a semana inteira e eu começo a gravar coisas ao longo dos dias. Às vezes, gravo coisas e deixo para ouvi-las no domingo à noite ou na segunda de manhã.

Fale um pouco sobre esse conceito de “Bagdá Equatorial” que você utiliza para caracterizar Manaus.

 Olha, quando ele surgiu, eu sofri até umas agressões por causa disso. Bagdá no passado era uma cidade rica. Capital do Oriente. Boa parte das histórias do Oriente se passa lá. Mas com o tempo, Bagdá foi sitiada pelo terrorismo e pela intolerância religiosa. Manaus, a Paris dos Trópicos com a Eduardo Ribeiro, onde o IEA seria o Palácio dos Inválidos e o final da Avenida, seria no Porto. Só que essa Paris dos Trópicos naquela época era sitiada por ocupações irregulares. Era a cidade em que todo mundo queria fazer tudo sem nenhuma lei. Aí surgiu esse conceito. Bagdá era Paris do Oriente, e a gente era Paris dos Trópicos.

Você, em seus textos, trabalha muito questões relacionadas aos aspectos culturais de Manaus, seja na forma de democratização do conhecimento sobre músicas, escritores, bandas da região, como a própria utilização dos espaços públicos que também pertencem à identidade cultural de um povo. Como você vê a apropriação desses espaços pelos moradores de Manaus? Não é fraca, em comparação a Belém, por exemplo?

Na verdade, a gente vive pouco isso. Nessa comparação a Belém, tem duas situações que distinguem Manaus de Belém. Em Belém tudo é no centro. O poder econômico dessa capital, reside nesse espaço. Em Manaus isso não acontece, ele se espalhou pela cidade e a área de grande poder histórico ficou com menos importância. Agora outra situação entre as duas capitais de maneira muito marcada é que Belém não viveu ciclos de imigrantes que nós vivemos. A população de Manaus parece que se renovou por períodos, através de imigrações, desde a fundação do forte, ciclo da borracha, depois uma migração expressiva dos estrangeiros europeus que fugiam da guerra, da fome, das dificuldades. Com a Zona Franca, tivemos outro ciclo migratório e agora recente a gente começa a ver que tem um ciclo não muito mapeado, digamos assim, de haitianos, chineses, coreanos, venezuelanos, peruanos. E parece que a gente nem vê. Essa formação alimentada de muitas pessoas, de outras formações culturais, eu acho que, embora ela nos renove, nos tira um pouco essa coisa ancestral que, comparando, o morador de Belém tem.

Como isso se reflete nas atividades culturais?

 Uma vez eu fiz uma reunião com uma pessoa que realiza a Virada Cultural em São Paulo e uma coisa que ele me falou que marcou muito. Aqui a virada cultural é em vários cantos. Tinha que ter na Zona Leste e ele me falava: Orlando, faz um espetáculo onde a cidade tem afeição. Onde existe afeição? Existe naquilo que é antigo, como a sua avó, sua mãe ou seu irmão mais velho. É onde seu olhar passeia e se sente acolhido. Em São Paulo, a virada cultural só acontece naquele perímetro que vai do Anhangabaú até o Largo do Arouche porque ali a cidade se reconhece. Aqui a gente não consegue fazer isso. Em parte por culpa da administração cultural do município, do Estado e aí eu vejo que já existem movimentos diferenciados, como a movimentação que está tendo no Paço da Liberdade e isso é bacana.

Como usufruir as potencialidades culturais da região, em termos de produção e difusão?

Temos duas coisas a considerar, não podendo ser ufanista nem xenófobo. Tem que ter um pouco de cuidado nesse conceito - cultura. A mesma coisa quando se fala de imigração. Tem duas situações, o intercâmbio faz parte das políticas culturais, junto com a difusão cultural, com o estímulo à difusão. Não é que não haja espaço para as coisas que vêm de fora de uma maneira geral, mas eu acho que falta é dar espaço para as coisas que são feitas aqui e que são muito boas. Que não alcançam maior expressão porque não têm espaço. A mídia aqui não toca música daqui e quando toca, faz com cara de favor, o que é pior ainda. Vamos em um bar e o cara não toca a música dele autoral, a gente fica “enchendo o saco” para tocar cover. O que não é ruim, mas tem pessoas que tocam cover e outras que tocam músicas autorais. Mas é preciso dar mais espaço para quem produz cultura aqui.

Quando a gente fala em singularidades. Qual é a da cidade de Manaus?

A mistura. A gente gosta de se misturar e isso é muito bacana. Aqui, o “playboy” da BMW que não trabalha, vai no mesmo forró que o “moleque” do distrito, que estuda em escola pública, vai. Essa mistura eu acho uma das coisas mais democráticas. E isso constrói uma cidade bacana. A gente se mistura, e é assim. É  uma mistura diferente de, por exemplo, a da favela no Rio de Janeiro, que é uma falsa mistura. As pessoas vão à praia e você percebe a discriminação. Aqui na Ponta Negra você vê o cara tomando banho, e outro caminhando na orla, que parou seu carro importado bem ali. Nós gostamos de falar com os trabalhadores do escritório, de ser simpático com a servente e isso é bacana da gente, tem muito a nossa cara. Permitimos nos misturar. Mesmo que não seja consciente, tá! Falamos tocando nas pessoas, estabelecendo contato. Isso é a cara da gente.

E sobre a cultura empresarial? De vez em quando, narramos episódios negativos em relação, principalmente, ao atendimento nos estabelecimentos comerciais!

Existe uma visão da gente no dia a dia. Um cidadão comum e a gente no trabalho. Há uma cultura empresarial do bom treinamento, e há também a do não estimulo. É normal você entrar em uma loja, como a Bemol, a Top Internacional que não demite seu trabalhador a cada três meses e têm uma política com benefícios para seus funcionários. Você sente um atendimento diferenciado, melhor. Os funcionários são treinados para isso. Aí você vai em uma loja que trata seus funcionários mal e não dá o direito a eles. Óbvio que vão trabalhar sem prazer.

Então, o que falta?

Eu acho que, na questão empresarial, existe uma necessidade de gestão maior, porque o bom atendimento não nasce naquele cara que está lá na ponta, e sim na fase inicial, de planejamento. Quando você sai dessa coisa da convivência para ir para o profissional, principalmente em grandes conglomerados e instituições, a simpatia amazonense é embotada, desaparece perante a falta de gestão ou ela é exaltada por uma ótima gestão.

Cultura Manauara para você é?

Complicada a pergunta. O que é Cultura? É uma coisa que se faz e não se explica. Tem a cultura do milho, da soja, é a forma de eu plantar, colher, ganhar dinheiro, nisso, é lógico que também tem a parte dos credos imateriais que constroem depois uma expressão artística. Eu acho que ela é nossa identidade. Nesse aspecto do imaterial, ela é a digital da gente, aquilo que nos identifica. Se eu queimar muito, eu vou ser um dia uma pessoa sem identidade. Eu acho que nessa questão das expressões artísticas, dos credos, costumes e valores que constituem a cultura, no aspecto mais ligado à expressão e ao fazer artístico, é o nosso DNA. No dia que eu começo a destruir isso, destruo a civilização. E o mais difícil é você conseguir administrar esse intercâmbio da cultura urbana importada. O moleque que usa a camiseta preta do Iron Maiden sem saber quem é, e usa coturno, e que curte boi quando tem Boi Manaus, é porque fala o coração.

Qual seria o modelo ideal da cidade?

Uma cidade que se planeja. Lá na frente. Que constrói esse planejamento, que não é só do poder público, mas também parte dos cidadãos, das instituições, que representa todos os segmentos. A compreensão da necessidade de se planejar e compreensão de que o planejamento é materializado em conjunto.


Perfi: Orlando Câmara

Estudos: Graduação em Comunicação e Direito pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam); Pós Graduação em Gestão pela Universidade de Haifa, em Israel, Projetos pela Universidade de Ricckyo, Tókio e Comunicação de Marketing na ESPM em São Paulo.

Experiência: Escritor com experiência em Blog e Coluna, além de radialista.


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