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Falta de igualdade racial é grave, mas negros afirmam que o cenário está mudando

A população negra começa a desfrutar da verdadeira liberdade ao ganhar mais espaço na sociedade e a ter mais oportunidades, sejam elas nos estudos ou no mercado de trabalho 21/11/2015 às 18:08
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Alunos da escola municipal Sônia Maria Barbosa, na Cidade de Deus, refletiram sobre a presença e a contribuições dos negros para a formação cultural do Brasil
Kelly Melo Manaus (AM)

Há mais de 120 anos os negros receberam a carta de alforria da escravidão no Brasil, mas só hoje a população negra começa a desfrutar da verdadeira liberdade, ao ganhar mais espaço na sociedade e a ter mais oportunidades, sejam elas nos estudos ou no mercado de trabalho.

Negra, carioca e secretária municipal de Educação, Katia Schweickardt, é um exemplo de superação. Apesar do preconceito existente, embora no DNA dos brasileiros (e dos amazonenses) os genes dos negros estejam bem presentes, ela seguiu pela contra-mão e conquistou um lugar de destaque.

“Ser mulher, negra e ser secretária de Educação é muito difícil para mim porque as mulheres ainda são minoria, seja no mundo da política ou da gestão, e principalmente sendo negra. Mas acredito que a consciência das pessoas sobre o ‘ser negro’ está mudando e a prova disso é que, hoje, já somos a maioria no país. Não porque mais negros estão nascendo, mas sim porque estamos nos autodeclarando mais, se identificando com o nosso tom de pele”, analisou ela.

De acordo com o último levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 53% dos brasileiros se autodeclararam negros os pardos em 2014. Há 10 anos, os brancos eram os dominantes (51%).

Ações afirmativas durante semana

Na semana da Consciência Negra, encerrada neste sábado, diversas atividades foram realizadas, em Manaus, para lembrar a data que faz alusão à morte de um dos principais líderes negros na luta contra a resistência da opressão dos portugueses, Zumbi dos Palmares.

Na escola municipal Sônia Maria Barbosa, no bairro Cidade de Deus, na Zona Norte, alunos entre de 11 a 17 anos participaram da I Semana da Consciência Negra, que teve como objetivo discutir sobre a contribuição dos africanos tanto para a história quanto para a cultura brasileira.

De acordo com o sociólogo e organizador do evento, Francinézio Amaral, a formação cultural do País está diretamente relacionada aos negros e com a miscigenação dos povos.

“A herança dos negros está na culinária, na música, na dança, na religião, no comportamento. E a nossa luta é para que esta luta pela consciência deixe de ser apenas em um dia, mas seja no dia a dia porque a negritude é base da nossa formação social. Ser negro não é demérito para ninguém”, reforçou o professor.

O diretor da instituição, José Davi Santos, também lembrou que o preconceito muitas vezes está disfarçado e que precisa ser combatido para que a sociedade seja mais justa. “Nós temos no DNA a miscigenação dos povos, esse disfarce em piadas de mau gosto ou em apelidos pejorativos, devem ser combatidos, porque às vezes eles são os geradores de um preconceito maior”, afirmou.

Desigualdade ainda é barreira

Para a secretária municipal de Educação, Katia Schweickardt, embora a mentalidade das pessoas esteja mudando, as desigualdades sociais ainda são um das principais barreiras a serem vencidas. Na opinião dela, por exemplo, a política de cotas para negros entrarem na universidade e em concursos públicos deve ter uma data de validade.

“Essa política tem que ter uma data de término. Ela ainda é muito importante para corrigir uma distorção social, que foi causada pela falta de oportunidades que os negros sofreram durante muito tempo. Mas a longo prazo ela deve acabar. Para isso, temos que garantir uma educação de qualidade paras as populações mais empobrecidas, que concentra a maioria da população negra. É a educação que vai fazer a diferença no futuro”, afirmou.

E para Schweickardt, as desigualdades sociais existem não por causa do tom da pele, mas pela falta de oportunidades. “Quando temos mais oportunidades, não é a cor da pele que é o limitante. Nós estamos melhorando nesse processo e o Brasil já evoluiu bastante, nesse sentindo”, opinou a secretária.

Kaká Bonates, pesquisador e mestre de capoeira

Setenta por cento dos escravos que vieram para cá, eram bantos. E a cultura trazida por eles foi tão forte que está dissiminada e as pessoas nem percebem que a praticam. A influência está na fala, como nas palavras maxixe, quiabo, caçula; está na dança, na música, e a capoeira é um exemplo disso, e está até na religião. No entanto, algumas correntes neopentecostais reforçam o preconceito e é preciso ter muito cuidado com isso. Temos que tirar o véu da visibilidade e a educação é o primeiro passo para isso. O Brasil tem a segunda maior população negra do mundo e o preconceito racial chega a ser contraditório.

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