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Cotidiano
FEMINISTAS

Feministas: na linha de frente por direitos, mas demonizadas por parte da sociedade

Por que as feministas, responsáveis por muitas conquistas femininas ao longo da história, são vistas como vilãs até por outras mulheres? 08/03/2017 às 00:13 - Atualizado em 08/03/2017 às 15:41
Show we can do it
Imagem “We Can Do It!” usada para promover o feminismo os anos de 1980 (Foto: Reprodução/internet)
Vinicius Leal Manaus (AM)

Oito de março, Dia Internacional da Mulher, data criada no início do século passado, no contexto das lutas femininas, e que hoje é usada para enaltecer a figura da mulher, relembrar as conquistas delas ao longo do tempo e, claro, reforçar a contínua batalha por direitos igualitários. À frente dessas lutas estão elas, as feministas, responsáveis por muitas das conquistas femininas já alcançadas, porém vistas com maus olhos até por outras mulheres.

Uma declaração recente da cantora brasileira Marília Mendonça, uma das maiores vertentes do sertanejo cantado por mulheres no País, exemplificou bem isso. Questionada sobre o feminismo intrínseco em suas canções, Mendonça afirmou que ser feminista diminuía a mulher. “Eu acho que o feminismo diminui a mulher muitas vezes. Para haver a igualdade, não temos que ficar pedindo nada, temos que trabalhar”, disse a cantora.

Mas afinal, o que é feminismo? Há uma confusão nas pessoas sobre o significado da palavra e pelo o que luta o movimento feminista? Segundo a doutora em Psicologia Iolete Ribeiro, professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), há sim uma deturpação do significado do feminismo.


Marília Mendonça (Foto: Divulgação)

“O feminismo é uma luta por direitos, é uma luta por relações igualitárias entre os gêneros. Não é nada contra alguém ou querendo que as mulheres sejam superiores aos homens. E essa confusão aí não é casual, é marcada pelo machismo que tenta desqualificar o feminismo”, disse Iolete Ribeiro.

De acordo com a doutora, as feministas geralmente são vistas sob um viés errado, estereotipado. “Muitas vezes as pessoas criam uma caricatura do que seja uma feminista, achando que a feminista não pinta a unha, não usa maquiagem, não se depila, não usa salto. Mas na realidade a luta delas é por ser livre, para escolher ser como quiser ser, que não se tenha imposições e padrões, e que a mulher não tenha que se enquadrar naquele padrão”, completou.


Iolete Ribeiro (Foto: Acervo pessoal)

A bibliotecária Fabrine Bacelar não se declara feminista, mas reconhece a importância delas para as mulheres. “O movimento feminista não é para pregar ódio aos homens. Não vejo que (nós, mulheres) estamos querendo nos vingar dos homens, mas sim é um movimento político e social que visa a igualdade entre os gêneros, colocando a mulher no lugar de libertação que os homens sempre tiveram, de liberdade de expressão, de liberdade sexual”, disse.

Segundo ela, as feministas são demonizadas porque quebram paradigmas. “A gente vive numa sociedade extremamente machista e as mulheres que se insurgem aos mandamentos dessa sociedade não são vistas com bons olhos. Fomos criadas naquela regra de que só o homem manda, que ele é o dono da casa. E hoje estamos tendo espaço. É difícil para eles aceitarem que a mulher tornou-se dona das suas próprias vontades”, afirmou.

A funcionária pública e feminista Francy Guedes afirma que essa visão deturpada do movimento feminista é originada no machismo. “As feministas vieram lutando por nossos direitos, quebrando paradigmas daquela mulher bonita, que fica dentro de casa, que é submissa ao homem. Essa sociedade machista é quem demoniza as feministas, e que dizem que somos mal amadas, sapatonas. E a nossa pauta é essa quebra de padrão e por mais liberdade às mulheres”, disse.

Francy Guedes (Foto: Acervo pessoal)

Para ela, a única saída para vencer essa demonização das feministas é a educação. “O que falta é educação e respeito. A educação desde o início, vinda de baixo, de dentro de casa. As pessoas não compreendem de fato o que é o feminismo porque vão pelo o que a mídia vende, o que a igreja ensina. E quem cria as pessoas somos nós mesmas, as mulheres. Se você vem de uma educação desde novinho sabendo o que é o feminismo, isso muda tudo”, completou.

A doutoranda em Antropologia Flávia Melo pela Universidade de São Paulo (USP), vai além e afirma haver uma perseguição às feministas. “Infelizmente, não se trata apenas da demonização das mulheres e feministas, mas assistimos ao crescimento de uma onda de intolerância fundamentalista, sexista, racista, elitista e LGBTfóbica. Se a igualdade é o que almejamos, isso significa que ainda existem processos de desigualdade que impedem as mulheres de viverem plenamente com liberdade”.

Conforme Flávia, a vilania das feministas é construída através de um discurso preconceituoso. “É um discurso estigmantizante que dissemina o preconceito, alimenta o ódio e se constitui como mais uma barreira para a construção da equidade. Essa demonização alcança os movimentos feministas, mas fere toda a sociedade, em especial às mulheres, e afasta nossos olhos e ouvidos das violações domésticas, dos feminicídios, da minoritária participação política e da dupla jornada de trabalho”.


Flávia Melo (Foto: Acervo pessoal)

A doutora Iolete Ribeiro reforça a importância de se entender melhor o feminismo. “Muitas mulheres não conhecem a história das conquistas de direitos que foram fruto do movimento feminista. Até pouco tempo atrás as mulheres não podiam estudar, jogar futebol, usar calças, exercer determinadas profissões, não tinham direito de terem propriedades e nem assinarem contratos. A luta do feminismo é que garantiu mais espaços de participação da mulher”, disse.

A educação também foi ressaltada por Ribeiro como opção para se alcançar a igualdade de gêneros. “Tive uma experiência de trabalho com homens que estavam envolvidos em processos na Vara Maria da Penha. Realizamos encontros onde discutimos sobre questões de gênero e resoluções de conflito, e algo que ficou muito marcado como resultado desse trabalho foi que esses homens nunca tinham tido a oportunidade de pensar sobre essas questões. Eles não receberam uma educação que os fizessem pensar nisso. Ao final, como resultado do trabalho, muitos homens ficaram agradecidos e transformados, e disseram que se soubessem daquilo antes, tudo seria diferente”.

A jornalista Gaby Monteiro, que se denomina feminista, foi categórica ao dizer que a luta feminista é solidária e para todos. “O movimento feminista ainda engatinha, e é preciso crescer mais. Essas pessoas que falam que não são feministas, no fundo elas são. As mulheres precisam entender que o feminismo é a única saída para combater essa opressão que as mulheres são vítimas na sociedade. E nós só estamos no começo de grandes mudanças”.

Seis passos para entender o feminismo

Diante de tanta confusão ao redor do significado do feminismo e sobre as feministas, aqui vai uma lista com as principais pautas delas. Se você se posicionar de acordo com algumas dessas reivindicações, talvez você possa se considerar feminista:

1) igualdade entre os gêneros;
2) direito à autonomia e à integridade do próprio corpo;
3) proteção contra violência doméstica, assédio sexual e estupro;
4) redução dos estereótipos da figura feminina na mídia;
5) salários e oportunidades iguais no mercado de trabalho;
6) divisão dos afazeres domésticos entre homens e mulheres;
7) fim da imposição de padrões de beleza feminina.

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