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Fim da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação gera polêmica entre cientistas

Pensadores do Amazonas receberam com preocupação a proposta do governo e prometem lutar contra a efetivação 01/03/2015 às 19:42
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A proposta do governador José Melo de transformar a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) em um mero departamento, atrelado a outra pasta, causou grande comoção na comunidade acadêmica e científica do Estado.
Janaína Andrade Manaus (AM)

As mudanças anunciadas pelo governador José Melo (Pros) na reforma administrativa, entre elas a que acabou com o status de secretaria de Estado da pasta de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), não foi bem recebida pela comunidade científica.

A prova disso é que a comunidade acadêmica já iniciou mobilização contrária ao governo, inclusive com a organização de site - “O valor da ciência” (www.ovalordaciencia.com.br) -, criado na sexta-feira (27), dois dias após o governador anunciar a medida taxada por muitos, como é o caso do ex-titular da pasta, Odenildo Sena, de “desatino”.

No site, há um breve resumo de como a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação vem sendo tratada na reforma administrativa do Governo do Estado, além do total de assinaturas que já foram colhidas (902 assinaturas até às 17h deste domingo), depoimentos de personalidades da área sobre a medida governista, e ainda o local para deixar a assinatura em apoio a carta aberta de autoria do físico e presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ennio Candotti, que sugere ao governador repensar sua decisão.

Um dos idealizadores da página, o empresário Raoni Andrade, 24, é de um município do interior de São Paulo, Hortolândia, e mesmo distante 2.594 quilômetros do Amazonas se disse inquieto com a decisão do governador José Melo. “Na minha opinião, independente de estado ou região, temos que nos unir para o bem comum. Li sobre a extinção da SECTI-AM na Internet e fiquei sabendo da carta dos pesquisadores, de autoria do professor Ennio (Candotti), e através dessa atitude resolvi apoiar o movimento criando o sistema de coleta de assinaturas via site”, disse Raoni.

Paralelo à coleta de assinaturas no site, nesta terça-feira (3), às 10h30, será realizada uma audiência pública no auditório Cônego Azevedo na Assembleia Legislativa do Estado (ALE-AM) sobre a Reforma Administrativa do Governo do Estado, em especial, para discutir a extinção da Secti e sua incorporação à Secretaria de Estado de Planejamento (Seplan).

A audiência pública é de iniciativa dos deputados de oposição José Ricardo (PT) e Luiz Castro (PPS), que após reunião com servidores da Secti e do Movimento Ficha Verde, decidiram ampliar a discussão.

Para José Ricardo, que é membro da Comissão de Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa, a extinção da SECTI é um “grande retrocesso”. Já Luiz Castro, que é presidente da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional da Aleam (Caama) afirma que “o fim da SECTI fere o bom senso e é extremamente prejudicial ao desenvolvimento sustentável do Amazonas”. 

O ex-titular da SECTI e doutor em linguística, Odenildo Sena, é um dos nomes já confirmados para a audiência pública. “Estarei lá. É meu dever, pois a luta precisa ser grande”, falou Sena, que em artigo publicado na quinta-feira (26), no site do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de CT&I (Consecti) disse que “nada mais nocivo na vida pública do que um homem público sem espírito público”.

O projeto da reforma chegou a ALE-AM na quinta-feira (26), e deve ser analisado e aprovado pelos deputados até 11 de março. O presidente da ALE-AM, deputado Josué Neto (PSD), disse que nesse todas as comissões da Casa vão funcionar para analisar o texto. Segundo Josué Neto, o projeto não será analisado em regime de urgência e “será aprovado por unanimidade ou por maioria”.

Essencial

Responsável por capitanear a assinatura de 37 pesquisadores para a carta aberta  na qual defende a manutenção da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), o físico e presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ennio Candotti, sustenta que há “uma regra de ouro que convém lembrar nestes momentos de transição política”.

“Os investimentos em CT &I têm períodos de maturação longos, de dez anos em média, maiores do que os ciclos políticos de quatro anos. A Secti é essencial. O bom senso sugere que, na condução da política de C&T, se evitem sobressaltos e descontinuidades. Tudo o que foi semeado ao longo de anos pode ser perdido, em poucos segundos, com uma assinatura. Os danos demorarão 10 anos para serem recuperados. Secti ou não Secti, eis a questão”, disse.

"Ou a comunidade científica e estudantil vai à luta para defender a SECTI e o Sistema Público Estadual de CT&I como patrimônio do Estado ou veste luto e aguarda o retrocesso ser consumado. A justificativa corrente de extinção da SECTI com o propósito de enfrentar a crise econômica e reduzir despesas soa como flagrante contrassenso. Analisando o desempenho em 2014 da Secretaria de Ciência e Tecnologia, sua atuação direta ou por interveniência técnica conseguiu captar R$ 37,4 mi para o Amazonas de recursos federais. Números que representam algo em torno de oito vezes mais do que o seu reduzido orçamento que é da ordem de R$ 4,7 mi", afirmou Odenildo Sena.

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