Sábado, 07 de Dezembro de 2019
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Fundadora do abrigo Coração do Pai fala dos desafios de cuidar de crianças abandonadas

Vânia Hall conta suas experiências no dia a dia com histórias emocionantes de cada pequeno que ganha um teto, carinho e atenção na ONG “O Coração do Pai”, um lugar para recomeço



1.jpg Vânia Hall
12/12/2015 às 17:05

Crianças rejeitadas pelos familiares e que sofreram inacreditáveis tipos de violência encontram no abrigo “O Coração do Pai” um espaço para o recomeço. Em três anos e meio, a ONG já recebeu mais de cem crianças e adolescentes até 14 anos. Hoje o local abriga 40, que têm o sonho de ter uma família - ou voltar a fazer parte.  A CRÍTICA entrevistou uma das fundadoras do abrigo, Vânia Hall, que falou sobre o trabalho executado no abrigo e também sobre a importância do amor na construção de uma nova sociedade marcada por intolerância.   

Que tipo de trabalho é executado aqui?



Hoje nós trabalhamos com crianças em vulnerabilidade social, retiradas de risco social e muitas das vezes do meio familiar por questão de segurança. Crianças que foram vítimas de todos os tipos de violência: maus-tratos, abandono, abuso físico, sexual, enfim, todas as questões que os colocaram em uma situação de risco. Aí elas são retiradas através do Conselho Tutelar com ordem judicial. É uma medida protetiva, dada diretamente pelo Juizado da Infância e da Juventude.

Essas crianças voltam para a família?

Sim, é esse o objetivo. Às vezes a família está doente por questões de dependência química ou inúmeras situações. O abrigo não trabalha só com aquela criança, mas sim com aquela família. Trabalhamos em visitas, acompanhamentos psicológicos de pais, mães, avós, avôs, tios, e até mesmo oferecendo cursos profissionalizantes empoderando esses pais que muitas vezes foram vítimas de uma situação financeira. É dado a eles uma chance de restaurar a sua família. Em último caso, quando isso não acontece, em parceria com o Juizado, nós passamos informações e então a criança vai para adoção pelo Cadastro Nacional de Adoção. Tudo é feito de forma legal.

 Algum caso tocou a senhora nos últimos tempos?

Não dá pra gente falar de algo específico. Existem casos de todos os tipos, em que todos foram retirados de uma situação de risco. Os riscos são inúmeros, desde abandono na lata do lixo até violência sexual, tortura, tráfico e envolvimento com drogas. A gente tenta desconstruir um costume. A maior dificuldade e a maior conquista é receber uma criança que não está acostumada a receber amor e carinho e ver aquela criança que tem medo de tudo ser ensinada a receber amor e respeito. Nós recebemos crianças que estão inseguras por conta de casos de agressões? Sim, existem. Você abre o jornal e todos os dias você vê! Eu não posso destacar um caso, mas o interessante é vê-las mudar, ver aquelas que não acreditam mais nos adultos sentirem que podem ter uma chance na vida.

No último semestre foi registrado um aumento no número de casos de abandono de incapaz na cidade. A quê a senhora atribui esse aumento?

 Tem inúmeras atribuições. Eu vejo que um grande exemplo, que é o que eu sigo, que é o amor de Deus. Quando a gente vive em um amor que vem de Deus você consegue. Todo mundo tem seus momentos. Aí tem pais que falam “faltou dinheiro em casa, o menino tava chorando com fome e eu bati nele”, “eu obriguei meu filho vender drogas porque não tínhamos o que comer”, “eu deixei o cara abusar dela porque ele me dava comida”. Eu não jogo a culpa pra isso porque todos tinham escolhas. Acredito que se as pessoas vivessem mais esse amor de Deus eu acho impossível uma mãe ou um pai fazer isso.

A intolerância é encontrada tanto na sociedade quanto na cúpula do poder. A senhora acredita que o povo consegue enfrentar isso?

Se nós conseguiremos não posso lhe dizer, mas acho que desistir é ser derrotado. Acho que temos que continuar tentando influenciar. Queremos que o exemplo mude. Falta esse amor lá de cima. Porque eu vou condenar a família simples que está aqui se destruindo se os meus próprios líderes são meus exemplos? Eu acredito sim na mudança. Se eu não acreditasse na mudança da sociedade eu não estaria fazendo o que eu faço hoje.  Acredito que podemos se encontramos a forma correta de seguir em frente.

O que a senhora sente ao ouvir a história de uma criança que chega ao abrigo?

Eu reservo espaço de ser humana. Já acordei nas madrugadas com crianças gritando dizendo “por que fizeram isso comigo”? E o que eu sinto numa hora dessas, diante de uma criança que sofreu coisas que você nunca passou na vida? Eu sinto raiva, claro. Passo por inúmeras emoções. Já passei por momentos de querer ir à delegacia olhar no olho dela e perguntar o “porquê”. Mas no caminho dei a volta, chorei, gritei dentro do carro e entendi que a vingança não levaria a lugar nenhum. Sinto tristeza, raiva, mas no final das contas, quando a gente consegue dar um lar acolhedor, eu me sinto realizada.

 A senhora concorda que muitas crianças que estão aqui são mais felizes que muitas lá fora?

Não sei se os que estão lá fora são mais felizes. Mas pela própria experiência, percebo que as crianças que estão aqui são muito unidas e fortes. Elas entenderam que estamos na mesma dificuldade. Elas se fortalecem e sentem aqui uma segurança. Aqui foi ensinado a ele uma nova forma de viver. O que me entristece é ver muitas crianças e adolescentes com princípios de valores fúteis. Dão tanto valor a ter o último celular do ano enquanto as minhas crianças só querem ver suas famílias juntas e restauradas. Acho que falta um pouco de realidade entre esses jovens lá fora. Falta eles entenderem que há coisas mais importantes nessa vida além de bens materiais.

O que a senhora espera para o futuro das suas crianças?

Eu espero ver futuros líderes, prefeitos, governadores, presidentes, futuras mães e pais, espero futuros vizinhos que façam a diferença, que contribuem para que nós possamos acreditar mais e ter uma sociedade melhor. Que eles possam escolher o caminho certo...É para isso que trabalhamos.

Que mensagem a senhora deixaria aos pais nesse Natal?

Aproveite o momento de ser criança com os seus filhos. Acredito que a primeira infância é a base do futuro. Escute mais os seus filhos. Observe mais ao brincar, seja mais presente. Os maiores casos que vemos aqui as mães “nem imaginavam”. Às vezes é falta de tempo, de passar o tempo com eles. Chamar a atenção quando necessário, ensinar, saber com quem seu filho está andando. Há casos em que só depois de dois anos a mãe descobriu que o filho tinha envolvimento com drogas. Eu trabalho 24 horas e não aceito essa história de que “estava muito ocupada”. É possível ser mãe e pai presente.

Perfil Vânia Hall
Idade: 40
Nome: Silvânia Alves de Souza Hall
Estudos:  Ensino médio completo e técnica em Instrumentação Cirúrgica
Experiência:  Morou em Tabatinga e trabalhou como missionária  em diversas aldeias do Amazonas. Em Manaus foi a fundadora do abrigo “O Coração do Pai” com o marido Barry Hall, espaço que existe há três anos e meio.


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