Segunda-feira, 08 de Março de 2021
PRESIDENTE EUA

Futuro da Amazônia entra em pauta com vitória de Joe Biden

Relação com os EUA deve sofrer mudanças após posse de democrata, que refuta negacionismo ambiental do Governo Bolsonaro



Capturar_025DFECD-2FCC-4206-BCC8-B1831C872F53.JPG Joe Biden é o novo presidente americano (Foto: Reuters)
09/11/2020 às 11:19

A proteção da Amazônia está entre as promessas de campanha do 46° presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden. Apesar do medo por parte da ala mais conservadora brasileira de uma intervenção norte-americana no país, o economista e doutor em desenvolvimento regional, José Alberto Machado, vê nessa retórica um leque de possibilidades para economia local.

Mais de uma vez, durante a conturbada corrida eleitoral, o democrata citou a possibilidade de reunir esforços internacionais para combater a questão do desmatamento em território brasileiro. Biden inclusive falou sobre a possíveis sanções econômicas, caso um plano concreto de desenvolvimento sustentável não seja estabelecido pelo governo de Jair Bolsonaro.



O economista entrevistado pelo A CRÍTICA, porém, não vê o novo presidente norte-americano com um caráter radical de proteção ao meio ambiente, mas sim, de defesa à geração de negócios e uma economia mais moderna e sustentável, alinhada as novas políticas arquitetadas nas grandes agências econômicas, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que abrem as portas para financiamentos de projetos "verdes".

“A equipe do Biden tem a visão econômica do meio ambiente, não de proteção ou de preservação intocável, mas sim, de fazer com que o ambiente seja incluído na equação econômica e possa gerar negócios e isso é o que a Amazônia precisa”, enfatiza Machado.

José observa, ainda, que Biden não tem uma postura intervencionista, pois é reconhecido pelo diálogo e "está pronto para buscar ajuda internacional para apoiar o governo brasileiro". Contudo, uma preocupação do economista é com o forte discurso ideológico do presidente Jair Bolsonaro, pois “é uma posição que não se sustenta muito, embora ela possa causar estrago”.

Para ele, o ativismo do presidente brasileiro deve se limitar à retórica e a saída dos ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e das Relações Exteriores, Ernesto Fraga, para ele, é dada como certa.

Mourão à frente

A figura do vice-presidente Hamilton Mourão também deve receber destaque neste momento para interlocução com as embaixadas, devido a sua postura mais sensata e proximidade com a causa da Amazônia.

Durante coletiva de imprensa na última quinta-feira (5) em Manaus, Mourão, disse não estar preocupado com a relação entre os EUA e o Brasil, caso a vitória de Biden fosse confirmada.

A afirmação foi proferida antes da conquista de Binden em estados-chaves para definição da eleição norte-americana.

Mourão sinalizou que o Brasil precisa fazer "o trabalho de casa" e mostrar para o mundo que está defendendo o patrimônio verde do país e a população que habita a região amazônica. "Cada um tem que buscar seus interesses. Algo que é básico na diplomacia, é a busca do benefício mútuo e nós sempre estaremos buscando o benefício mútuo e eu sei que o Estado Unidos da América também agirá dessa maneira", enfatizou o vice-presidente.

Biotecnologia poderá ser impulsionada

Para o economista José Machado, a política mundial de incentivo ao desenvolvimento sustentável deve favorecer o Amazonas com um poder de ‘barganha’ maior devido o volume de floresta preservada. Com essa tendência, negócios do ramo da bioeconomia, piscicultura, turismo, agronegócios alinhados a polícia ambiental e produtos nativos da floresta devem ter o acesso a financiamentos facilitado. O Polo Industrial de Manaus (PIM), também pode ganhar força, devido a política norte-americana de incentivo a indústria nos Estados Unidos para substituir produtos importados de países como a China. Entretanto, o Amazonas precisa de gestores com a visão estratégica e sustentável, pois o estado, sai atrás do Pará e Acre na busca por investimentos devido a ausência de um plano de ação a longo prazo na economia alinhada a questão ambiental.

Análise: Gilson Gil, Sociólogo

 “Em termos concretos, o alinhamento unilateral com Trump não chegou a produzir resultados palpáveis. Nenhum acordo comercial relevante foi feito. Não houve os investimentos aqui que o presidente esperava. Todavia, a pandemia foi um problema, não podemos esquecer. Os democratas sempre se pautam por temas como diversidade e meio ambiente e a Amazônia é um tema central nesse debate eleitoral. O governo de Bolsonaro não conseguiu apresentar planos reais que articulassem a proteção com a exploração sustentável. Creio que, agora, terá de prestar mais atenção a esse binômio e elaborar planos concretos que articulem, de fato, essas duas dimensões preservação e desenvolvimento. Penso que, assim como em outras áreas, o governo brasileiro terá chance de pensar esse binômio que citei, articulando a proteção com o desenvolvimento em novas bases. Os democratas não vão refrescar nosso país. Vão querer interferir nesse tema, sem ilusões. Penso que o governo precisa se rearticular e começar a ter propostas concretas para a Amazônia e o meio ambiente, mostrando real disposição de integrar tais temas às articulações internacionais, mas sem perder a soberania. Acho que virão muitas cobranças. Até certas imposições, não vejo como um mar de rosas para nós , amazônicos no futuro em curto prazo. O governo brasileiro reluta em definir marcos legais para temas como garimpo, indígenas, agronegócios, queimadas etc”.

Propostas

Entre as propostas ambientais estabelecidas por Joe Biden, está o investimento federal de US$ 1,7 trilhão em pesquisas de tecnologias verdes, a emissão líquidas zero de gases poluentes até 2050, reingresso do EUA no Acordo de Paris e a união de países em prol do meio ambiente.

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