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Garoto de 9 anos possui dois pais e família enfrenta barreiras do preconceito na capital

Luís Carlos vive a histórica condição de ter dois pais, Fábio e Rogerlan, que fazem de tudo para vê-lo feliz e com boa vida 09/08/2015 às 12:55
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Fábio (à esquerda), o filho Luís Carlos e Rogerlan (à direita) mostram que são felizes como qualquer família
Oswaldo Neto Manaus (AM)

O dia dos pais do pequeno Luís Carlos, 9, será um  diferente de outras crianças, porém tão importante quanto. Ele não deve lembrar, mas há oito anos, após o falecimento do seu pai biológico,  ganhou não somente um novo pai, mas sim duas figuras paternas. Essa é a história de uma nova família composta por Luís e seus pais Fábio Pereira, 33, e Rogerlan Rodrigues, 42, que superaram o preconceito e dão um exemplo de amor mesmo com tantas barreiras impostas pela sociedade.

O início dessa história aconteceu há quase uma década, logo após a morte do pai de Luís Carlos. Abalada, a mãe do garoto não tinha condições financeiras para criá-lo, pois ainda era adolescente e entrou em estado de depressão. A jovem, irmã de Fábio, acabou transferindo a guarda para ele na busca de um futuro melhor para Luís.

“Eu tive que reconstruir uma família. Estava morando há dois anos fora do Brasil e como tinha condições para criar, acabei legalizando tudo. Foi rápido demais, mas foi uma felicidade muito grande. Eu acho que Deus prepara a família de cada um. Não imaginava ter um filho tão cedo, mas agradeço muito por ele estar aqui nos meus braços”, disse o cabeleireiro.

O sentimento também é latente no coração de Rogerlan, marido de Fábio. Nesse meio tempo eles se conheceram e iniciaram um relacionamento. Ele afirma que aceitou ser um “pai de primeira viagem”. “Nunca tive experiência como pai, nem de sobrinhos cheguei a cuidar. Então foi uma experiência nova, mas que valeu a pena. Lembro dele dormindo quando bebê e eu levantava várias vezes pra saber se ele estava bem, e quando ele ficava doente. Tudo aquilo era muito novo”.

Emoção

A emoção de falar do sobrinho – que virou filho – se transforma em lágrimas nos relatos de Fábio. Dono de um salão de beleza no bairro Dom Pedro, Zona Centro-Oeste, ele luta para oferecer uma vida digna a  Luís, que estuda em uma escola particular e se esforça nos estudos para conseguir, em breve, se tornar um competente delegado de polícia.

“A gente trabalha para dar um futuro melhor pra ele. E ele entende a minha opção sexual e do pai dele. Leva numa boa, sem preconceito, sem nada. Ele sabe dividir as coisas”, afirmou. Sobre o preconceito existente entre filhos de pais heterossexuais, o casal afirma que Luís não sofre qualquer tipo de bullying na escola ou em outros locais. “Ele nunca teve problemas. As pessoas respeitam muito ele. Isso acontece principalmente por termos ensinado ele a entrar e sair de cabeça erguida”.

Desafios

A trajetória de Luís, Fábio e Rogerlan não foi fácil. A estabilidade financeira e a plenitude familiar só foram alcançadas após anos de luta do casal, que enfrentou o preconceito por parte de pessoas próximas e transformou isso em amor. Para o cabeleireiro, a vida de cada indivíduo deve ser julgada pelas escolhas corretas. Ele afirma repassar isso ao pequeno Luís.

“A gente mostra pra ele o que é o certo da vida. Tem muitos pais que escondem a realidade, mas eu quero mostrar pra ele como é a vida lá fora assim como os meus pais me ensinaram. Isso que faz o homem”.

União oficializada

A união civil  de Fábio Pereira e Rogerlan Rodrigues ocorreu de forma oficial no segundo casamento coletivo homoafetivo do Amazonas, promovido no último dia 22 pela Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Amazonas, em parceria com a Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc). Uma nova edição pode ocorrer em outubro.De acordo com Fábio, o momento foi o mais marcante na vida do casal.

“Ali nós sentimos que chegamos aonde queríamos chegar. Nós temos uma vida como qualquer pessoa normal. Uma rotina corrida, com muito trabalho, e tudo é pensando no futuro dele (Luís)”, disse o cabeleireiro. 

A representante da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/AM, Alexandra Zangeralame, afirmou na ocasião que ainda há desinformação a respeito do procedimento. Ela acredita que sair da  “clandestinidade” tem enorme significado para os casais.

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