Sexta-feira, 23 de Outubro de 2020
MANOBRA

Governo Federal realiza nova intervenção e substitui antropólogos na Funai

Antropólogos responsáveis pela demarcação de terras indígenas foram substituídos por engenheiros agrônomos. Medida divide opiniões entre especialistas e a própria comunidade indígena no país



zDIA0326-M2_p01_37CF7200-419F-47A2-A632-4FE1D12F6F84.jpg Foto: Rodolfo Oliveira / Ag. Pará
26/11/2019 às 07:29

A substituição dos antropólogos Vânia Fialho e Ugo Maia Andrade pelos engenheiros agrônomos João Pinto Rosa e Juliana de Aguiar Lengruber para tratar a respeito da demarcação de terras na Fundação Nacional do Índio (Funai), em Pernambuco, no último dia 31 de outubro, reascende a polêmica sobre direitos indígenas.  

A manobra, feita pelo presidente do órgão, Augusto Xavier da Silva, vem dividindo opiniões entre especialistas e a própria comunidade indígena em todo o País. No Amazonas não é diferente, e a decisão preocupa a comunidade científica e indigenista diante de um governo que já deixou claro que não irá priorizar a demarcação.



Para o antropólogo indigenista e membro do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Christian Crevels, a reformulação do quadro é uma tentativa explícita de invalidar as demandas territoriais destes indígenas, ou ao menos reduzi-las consideravelmente.

“Não apenas acho que pode, e que irá, prejudicar a comunidade indígena, mas acho que esta é, de fato, a intenção de tais medidas. Colocar profissionais incapacitados, e pertencentes aos grupos que historicamente têm se posicionado contrários aos direitos territoriais indígenas, para fazer os trabalhos de identificação de Terras Indígenas é uma afronta”, destacou.

Repercussão

Diante da mudança, o movimento Associação Brasileira de Antropologia (ABA) divulgou uma nota denunciando a interferência política da atual gestão do órgão indigenista em assunto de caráter técnico.

“Chegou ao nosso conhecimento a informação de que pessoas sem a mínima qualificação e legitimidade, inclusive sem amparo legal, estão sendo nomeadas na Funai para coordenar e realizar estudos de identificação e delimitação de Terras Indígenas. A atual direção do órgão indigenista segue demonstrando não estar interessada em contar com pessoas com conhecimento e com experiência profissional na implementação de suas atribuições”,  diz um trecho  do comunicado oficial.

Entenda

À frente da Funai  desde julho deste ano, o presidente do órgão é delegado da Polícia Federal. Em 2017, Xavier atuou na assessoria de deputados da bancada ruralista na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Funai que investigou o órgão e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Na análise do Membro do Conselho Indígena Missionário (Cimi), órgão vinculado à Igreja Católica, Guenter Francisco, a mudança é uma estratégia do governo. Ele faz uma crítica a atual gestão da Funai.

“Faz parte da estratégia do governo para não demarcar terras indígenas, já publicamente assumido pelo Presidente. A Funai cuja missão institucional é demarcar e proteger as terras indígenas  está sendo transformada numa agência a serviço dos interesses mais mesquinhos do agronegócio”, disse.

Bolsonaro não quer demarcação

Dados do Cimi a respeito da situação geral de terras indígenas, mostram que pelo menos 821 áreas indígenas aguardam alguma providência do governo federal, em suas diferentes instâncias, correspondendo a 63% das 1.290 terras indígenas. No entanto, se depender do presidente da República, Jair Bolsonaro, essas terras continuarão à espera.

Em agosto deste ano, Jair Bolsonaro declarou que as reservas atrapalham o desenvolvimento do País. “Tem locais que, para produzir, você não vai produzir, porque não pode ir num linha reta para exportar ou para vender, tem que fazer uma curva enorme para desviar de um quilombola, uma terra indígena, uma área proteção ambiental. Estão acabando com o Brasil”, disse.

Afirmou também que durante seu governo a demarcação de terras indígenas não será feita, pois a área demarcada existente já é suficiente. "Enquanto eu for presidente não tem demarcação de terra indígena. Os indígenas querem liberdade para trabalhar na sua área, vivem como em um confinamento, como seres pré-históricos”, finalizou.

News whatsapp image 2019 05 27 at 11.54.48 8d32dbdd 4f80 4c51 b627 e3873c2e56de
Repórter
Cientista Social, Escritora e Jornalista. Repórter de A Crítica, apaixonada pela arte de contar histórias.

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.