Publicidade
Cotidiano
Notícias

Governo vai pagar pelo trauma que o País causou ao separar filhos de hansenianos ao nascimento

O anúncio, feito semana passada pelo secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho 22/08/2013 às 10:38
Show 1
Maria de Fátima Lima da Silva, 73, ainda mora na antiga colônia, onde foi segregada da sociedade, e recebe todos os dias a visita da Kátia Regina, 41, que formou-se em assistente social pela causa
Jaíze Alencar ---

Filhos de portadores de hanseníase que foram separados dos pais no nascimento serão indenizados pela União pelo trauma da separação compulsória. O anúncio, feito semana passada pelo secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, nutriu de esperança gente que sofreu o trauma, no Amazonas.

Kátia Regina, 41, é uma dessas pessoas que foi separada da mãe quando tinha poucos dias. Além dela, outros sete irmãos também foram entregues para a adoção. Ela relata que até aos cinco anos de idade não sabia que era adotada e que durante um ano sofreu maus tratos de uma madrasta. “Minha mãe adotiva havia morrido e meu pai era muito ausente. Ele arrumou uma nova mulher e ela me batia e me colocava de castigo”, desabafa.

A avó adotiva Nazaré Pereira, saía todos os dias para vender tapetes pelas ruas e levava a pequena Kátia para que não ficasse em casa sendo maltratada. Em uma dessas andanças pelo bairro Santo Antônio, Zona Oeste, onde moravam, encontraram Tereza Santos, que também havia adotado uma criança na colônia dos hansenianos.

Tereza sempre manteve o contato com os pais biológicos da criança que adotou, chamada de Adriana. Ela achou Kátia muito parecida com a menina que tinha adotado e começou a fazer perguntas para a avó dela e descobriu que tinha adotado a irmã da pequena Kátia.

Ali, o destino estava atraindo as crianças para as origens delas. As mudanças, porém, não seriam brandas. “Lembro-me que fomos até a casa dessa mulher e passamos a tarde e a noite inteira lá, e quando acordei minha avó já não estava mais, tinha me deixado com aquela família. Foi muito triste. Foi quando descobri que eu era adotada. Passei muitos dias chorando e me fechei para o mundo”, relembra Kátia.

Lembranças

A primeira visita aos pais biológicos foi mais traumática ainda, relata Kátia. “Crianças são muito observadoras e eu guardo muito bem na minha memória a imagem daquelas pessoas mutiladas, sem braço, sem pernas, queria ir embora daquele lugar”, descreve.

Os pais biológicos de Kátia, dona Maria de Fátima, conhecida como “Nena”, e José Brito, “Socó”, não eram mutilados, mas apresentavam manchas adormecidas pelo corpo.

Nena como é chamada carinhosamente pela filha, veio com a família do município de Tefé, a 516 quilômetros de Manaus, para ser isolada. “O pior momento foi quando tiraram meus filhos de mim, não tínhamos escolha, eu ficava triste porque não podia criá-los, mas sabia que eles iriam para um lugar melhor”, relata Nena.

Dos oito filhos que teve Nena só conhece o destino de quatro, Kátia e Adriana adotadas pela mesma mulher e Sidneia e Siglinei, que também foram adotados por membros da mesma família e tornaram-se primos-irmãos.

Hoje aos 41 anos de idade Kátia diz que sente carinho pela mãe biológica, mas é um sentimento mutilado. “Faço o que posso por ela, me revezo com meus filhos para dormir aqui, e a gente passa o tempo conversando sobre nossas trajetórias, os filhos que não conhece, como foi na época do isolamento”.

Publicidade
Publicidade