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'Guerreiros da floresta'

Série de reportagens de A CRÍTICA vai mostrar, durante a semana, vida na fronteira, desafios e curiosidades dos homens responsáveis pela guarda da Pátria no extremos Norte do Amazonas; repórter viajou a convite das Forças Armadas 01/06/2013 às 22:42
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A fronteira do Brasil com o Peru, separada pelo Rio Javari, chega a 400 quilômetros de extensão
Florêncio Mesquita Manaus, AM

Num universo de 11,2 mil quilômetros de fronteira no Norte do País, três bases localizadas no extremo do Amazonas marcam a última presença do Brasil nas divisas com a Colômbia e o Peru, maiores responsáveis pela produção e introdução de cocaína no Brasil.

São homens do Exército brasileiro e da Polícia Federal (PF) que vivem em alerta durante 24 horas e 365 dias por ano, em áreas isoladas, para defender o país em 1.180 quilômetros de extensão do rio Javari. O trecho é maior em registro de plantio, produção e existência de laboratórios de cocaína do lado peruano, segundo a PF. São apenas 400 ou 300 metros, dependo da margem do rio, que separam o Brasil do Peru. O local também é conhecido por confrontos entre criminosos peruanos com as forças do Brasil.

A primeira equipe responsável pela defesa da fronteira e por evitar que guerrilheiros e narcotraficantes entrem em solo brasileiro e introduzam armas e drogas, fica na Base Anzol (base flutuante), da Polícia Federal. Alguns quilômetros a frente fica o 4º Pelotão Especial de Fronteira (PEF) Estirão do Equador. O Pelotão Especial de Fronteira Palmeira do Javari é o último braço do Estado na fronteira. Estes últimos pelotões ficam nos limites do município de Atalaia do Norte (a 1.138 quilômetros de Manaus). 

A equipe por exemplo, é responsável por 400 quilômetros de fronteira. São 450 pessoas que vivem no pelotão, entre militares e civis, comandados pelo 1º tenente Hugo Cherman. Ao todo, 50 militares mantêm o efetivo fixo do pelotão que existe desde 1957.

Porém, o número varia quando há operações como a Ágata, o que eleva o quantitativo em 120 homens. Muitas crianças nasceram e moram no pelotão. Dos 50 militares, apenas dois não têm família morando no 4º PEF. Os outros 48 têm esposa e filhos que estudam em duas escolas, uma municipal com ensino fundamental, e outra estadual, com ensino médio. Elas são mantidas pela prefeitura de Atalaia do Norte. Mesmo em solo, amazonense, a maioria dos homens que servem no 4º PEF são de outros Estados como Rio de Janeiro, Salvador e Rio Grande Sul. Eles colecionam histórias reais que os autorizam a serem chamados de “guerreiros da floresta”.

Muitos abrem mãos das famílias, cidade natal, do conforto e da vida que tinham para se dedicar ao monitoramento da fronteira. A exemplo dos pelotões, a Base Anzol também possui homens que se dedicam exclusivamente à guarda da pátria. Ao todo, são dez militares do Exército brasileiro, dois agentes da Polícia Nacional do Peru e cinco agentes da PF brasileira que mantêm o efetivo da Base Anzol.

Eles têm duas embarcações de assalto rápido. Uma modelo Flexboat da PF e uma Guardian do Exército. Segundo o delegado Pivoto, são embarcações de alta velocidade construídas especificamente para perseguições e abordagens. Elas estão equipadas com metralhadoras de fabricação alemã HK, modelo MAG4, calibre 556 e calibre 762. Têm capacidade para disparar até 600 a mil tiros por minuto. Ambas têm dois motores de 225 HP. “Não há embarcação nessa região que consiga fugir de uma abordagem no rio Javari”, disse o delegado.
 

Reativação

A Base Anzol foi reativada no início de março, no rio Javari. Ela funcionou por mais de 15 anos na comunidade de Palmares, no rio Solimões e foi desativada em 2009. Ela era fixa e passou a ser flutuante. A base é mantida pela PF com apoio do Exército brasileiro e da Polícia Nacional do Peru, que fazem a fiscalização da fronteira de forma binacional.

‘Muitos nunca foram ao médico’

As pessoas que passam tanto pelos Pelotões de Fronteira Palmeira (PEFs) Palmeira do Javari e Estirão do Equador, quanto na Base Anzol, colaboram com os militares e agentes federais. De acordo com o delegado federal Gustavo Pivoto, “sempre que há algo errado como o tráfico de cocaína, a comunidade busca passar a informação”. O mesmo ocorre nos PFEs porque as pessoas que, e alguns casos, nunca tiveram acesso a serviços médicos, por exemplo, recebem a assistência gratuitamente nos PFEs e se sentem motivadas a colaboras com a fiscalização da Polícia Federal e dos militares.

Conforme o comandante do 4º PEF, tenente Hugo Cherman, 90% do atendimento médico realizado no pelotão Estirão do Equador é para colombianos, peruanos, indígenas e membros de uma comunidade israelita que existe na região. “Quanto eles procuram o PEF chegam necessitando de cuidado imediato. Alguns nunca tinham visitado um médico antes e pelo atendimento humano que recebem passam a manter uma boa relação conosco e nos ajudam também”, explicou. O pelotão possui uma equipe de saúde formada por um médico, um farmacêutico, uma dentista e enfermeiro.

Ágata 7

Tanto a Base Anzol, quanto os Pelotões Especiais de Fronteira (PEFs) Estirão (Equador) e Palmeira (Javari), ganharam um reforço na circulação de pessoal e material bélico desde o último dia 8, quando foi deflagrada Operação Ágata 7, do Ministério da Defesa. A ação envolve o Exército, Marinha e Aeronáutica. Ela está sendo desenvolvida em 16,8 mil km de fronteira terrestre e fluvial, com 10 países sul-americanos.


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