Sábado, 07 de Dezembro de 2019
Saúde popular

'Herdeiras das freiras' contam segredos adquiridos na produção de medicamentos

Em Manaus as freiras, monjas religiosas que moram reclusas em comunidades, ensinaram há anos e anos muitas pessoas a fazer esses medicamentos que curam da gripe a inflamações passando pela indisposição estomacal



remedios1.JPG Dona Antônia Camurça mostra a geladeira e exibe, nas mãos, a "poção milagrosa" que é a garrafadas que cura inflamações e outros males do corpo / Fotos: Winnetou Almeida e Euzivaldo Queiroz
23/04/2017 às 05:00

Quem busca a cura para os males do corpo encontra na religião um local de conforto, e essa solução vem em forma de oração ou manifestação espiritual, com os tradicionais fitoterápicos, que são medicamentos alcançados de plantas medicinais, onde utiliza-se exclusivamente derivados vegetais como suco, cera, exsudato, óleo, extrato, tintura, entre outros.

Em Manaus as freiras, monjas religiosas que moram reclusas em comunidades, ensinaram há anos e anos muitas pessoas a fazer esses medicamentos que curam da gripe a inflamações passando pela indisposição estomacal e, acreditam muitos, até asma, câncer e problemas no colo do útero.



Consideradas verdadeiras herdeiras dessa tradição de remédios populares, algumas voluntárias e colaboradoras dessas freiras seguiram produzindo e comercializando os medicamentos mesmo após as próprias freiras terem se ausentado por motivos de remanejamento para outras paróquias ou até mesmo pelo avançar da idade. 

Fora do convento, A CRÍTICA entrevistou três dessas herdeiras dos ensinamentos das monjas para saber delas as particularidades e os produtos naturais que são mais vendidos à população manauense.

Fátima Arruda é uma delas. Colaboradora da Pastoral da Saúde da Paróquia de São Bento (rua Félix Valois, Cidade Nova 1, Zona Norte, próximo ao Terminal de Integração 3 (T3)). “As freiras da Imaculada Conceição primeiro vieram e implantaram o trabalho junto com a comunidade desde 1994. Depois de certo tempo elas têm que sair transferidas para outro local, e a comunidade tem que assumir, dar continuidade ao trabalho. Aqui nós fazemos tanto a parte do remedinho quanto de visitas às pessoas. E estamos com um pequeno empreendimento que é a empresa Cupim da Amazônia, criada em 2015 e que é uma cooperativa de mulheres”, destaca ela, que está no local desde 2000. A Pastoral funciona de 8h às 16h de terça a sexta-feira. 

No local, o medicamento mais procurado desde o início das atividades é o xarope de cupim, que custa R$ 12 e serve para curar, segundo ela, da gripe à asma e até mesmo o câncer, pois ajuda a aumentar a imunidade. “Ele serve pra bronquite e também serve pra quem tem tuberculose e anemia. Ele é feito do bichinho do cupim da árvore, de preferência fruteiras. E a árvore tem que estar viva. Junte-se a isso o jatobá,guaco, eucalipto e o cambará”, reforça ela. Além dele, os primeiros medicamentos, e que são vendidos até hoje, são também os chás (como de cidreira, pobre-velho e jatobá) a R$ 3 e pomadas inflamatórias para a cura de problemas como a psoríase, que custam R$ 7.

Hoje, além disso, há multimisturas (complemento alimentar de farelo de trigo, arroz, aveia e castanhas), tinturas, argila, pomadas, shampoos e reguladores intestinais. “O chá de jatobá com cambará é bom para tosse”, orienta ela.

De cliente, Alberta Albuquerque, 59, é uma das pessoas que viraram voluntárias da Pastoral na venda de fitoterápicos após comprar o xarope de cupim para o filho tomar para um caso de asma e o mesmo ficar curado, garante ela. “Ele tinha de 5 a 7 anos quando tomou o medicamento. Já curei meu filho, depois meu neto e primos e a todos eu indico o xarope de cupim. Ele é eficaz”, afirma Alberta.

Garrafada é ‘poção milagrosa’ para vários males do corpo

A dona de casa Antônia  Medeiros Camurça, 48 trabalhou durante 7 anos como no setor de remédios naturais do Retiro Sant’Anna, na avenida André Araújo, no Aleixo. Quando saiu de lá, e1a aprendeu com as freiras a fazer os medicamentos, como tinturas (de alho para pressão alta; de jucá, que é anticicratizante; e mururé para reumatismo), poção (garrafada com 40 espécies de cascas e folhas regionais) para inflamação (que ela defende ser a cura para infecção urinária, miomas, cistos e para quem se opera da próstata, por exemplo), “pomada milagrosa” para feridas, sinusites e queimaduras, xaropes para gripe/tosse e asma e comprimidos de copaíba.

“A irmã disse para nós nunca revelarmos tudo o que existe no que fazemos nas garrafadas. De qualquer forma, só aprende quem esteve lá dentro na hora da produção”, explica ela, que produz e comercializa os medicamentos na casa localizada na Comunidade da Sharp, na Zona Norte. A “poção” garrafada contra inflamações é o produto mais vendido por Antônia Camurça, custando de R$ 10 a R$ 20 seguido do xarope para gripe e tosse (R$ 10) e da pomada (R$ 12). “É daqui que tiro meu sustento”, conta Antônia.


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