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Cotidiano
Medicamento

Desconhecida e fatal: HPTEC ganha novo tratamento no Brasil, o Riociguat

Pacientes com Hipertensão Pulmonar Tromboembólica Crônica têm nova chance de viver e com qualidade de vida 01/05/2016 às 15:56 - Atualizado em 02/05/2016 às 10:48
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Na foto, Mariana Oliveira, paciente com HPTEC
Luciano Falbo

SÃO PAULO - Falta de ar, vertigem e fadiga ao longo do dia são frequentemente associados ao cansaço ou à problemas de saúde relativamente simples e pontuais. Os sintomas, no entanto, podem alertar para uma doença grave e pouco conhecida entre a população, e até entre os próprios médicos: a Hipertensão Arterial Pulmonar. Diferentemente da hipertensão arterial, a popular “pressão alta”, a hipertensão pulmonar afeta apenas os vasos do pulmão. 

A doença pode surgir a partir de uma embolia, quando um coágulo se aloja na parede da artéria pulmonar - 5% dos pacientes com embolia desenvolvem a versão crônica da doença (Hipertensão Arterial Pulmonar Tromboembólica Crônica - HPTEC), quando o coágulo se fixa na parede arterial e aumenta a resistência dela.

Progressivamente, a HPTEC diminui a tolerância às atividades físicas, aumenta a fadiga e, na fase mais avançada da doença, atividades diárias simples como pentear o próprio cabelo se tornam praticamente impossíveis. No estágio mais agudo, a pressão força o coração até ele não resistir, levando a uma insuficiência cardíaca fatal.

Entre 80% e 60% dos pacientes da HPTEC podem ser tratados com a cirurgia de remoção do coágulo. No caso dos não-operáveis, o coágulo está na parte mais interna do pulmão, em vasos mais estreitos, onde as pinças não alcançam. Para esses pacientes, além de um transplante de pulmão, não havia alternativa a não ser "esperar a morte", como observa a cardiologista Gisela Martinha Bohns Meyer, coordenadora do Serviço de Hipertensão Pulmonar da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. 

Ânimo

Um novo medicamento, no entanto, promete dar ânimo e esperança a pacientes e familiares. O novo tratamento pretende dar qualidade de vida aos pacientes, ao regredir a gravidade da doença, possibilitando que eles voltem a fazer suas atividades diárias mais básicas afetadas pela enfermidade. A médica Gisela Meyer participou pesquisa mundial para comprovar a eficácia da nova droga, o Riociguat, que começou a ser estudado pela Bayer em 2004. O Brasil ingressou na pesquisa em 2008, sob a coordenação de Gisela. 

Em todos os continentes, 261 pessoas foram voluntárias. No Brasil, 14 voluntários participaram do estudo, que comprovou a eficiência do Riciguat. Do total de participantes, 94%, segundo a médica, estão vivos, superando a expectativa de vida para pacientes diagnosticados com HPTEC e que não passaram pelo tratamento, que é de menos de três anos.

O Riociguat atua inibindo o “engrossamento” da parede arterial (fibrose), e promovendo a vasodilatação, diminuindo, por consequência, a pressão na circulação sanguínea no pulmão, ao liberar na corrente o GMP Cíclico.  

No ano passado, o novo remédio, que recebeu o nome de Adempas®, ganhou o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser comercializado. O Adempas® é um comprimido que deve ser consumido diariamente, três vezes por dia. A caixa, com o suficiente para um mês, custa R$ 13 mil e é vendida, sob prescrição, pelo SAC da Bayer. Os diretores da Bayer no Brasil afirmam que o alto valor no medicamento se deve aos custos das pesquisas e que, gradativamente, deve diminuir. O desafio agora é a rede pública incluir Adempas® no protocolo de tratamento do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Diagnóstico é tardio

O difícil diagnóstico, que dura em média 14 meses, é um dos desafios para tratar a HPTEC. Pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Amigos e Familiares de Portadores de Hipertensão Arterial Pulmonar (Abraf) mostra que 76% dos brasileiros desconhecem a doença. A presidente da instituição, Paula Menezes, diz que é preciso tornar a patologia mais conhecida pela população e que as faculdades de medicina ofereçam um melhor embasamento sobre o tema. 

Paula, fundadora da Abraf, teve a mãe diagnosticada com HP em 2005. Antes, porém, ela passou por inúmeros  diagnósticos errados no Rio de Janeiro, onde moravam. “Os sintomas, principalmente o cansaço, vinham desde antes. Ela estava com a pele azulada e os médicos diziam que é porque ela pegou muito Sol. Então, nos trancamos em casa. Depois, veio o diagnóstico de sobrepeso, então coloquei ela para fazer exercícios e ela ficava mais cansada ainda.  Depois, enfisema. Por último, problemas psicológicos. Quando ela já estava num estágio muito mal, demos sorte de sermos atendidas por uma médica plantonista médica plantonista fazendo mestrado em HP. Foram anos de sofrimento e isolamento, pois ninguém sabia nada sobre a doença”. 

Depoimento: Mariana Oliveira, paciente com HPTEC

“Há dois anos eu tive a minha primeira embolia pulmonar. Comecei a sentir muita falta de ar e não sabia o que estava acontecendo. Nunca tive outro problema de saúde. Fiz o tratamento contra os coagulos durante seis meses.  Aí, tive outra embolia, e a hipertensão pulmonar estava presente. Sempre fui muito ativa, de sair, ir pro cinema e hoje sou muito limitada. Se souber que vai ter dois lances de escada recuso convites porque não vou ter fôlego, como agora. Coisas simples começaram a ficar difícieis para quem tem HP, como tomar tomar banho e se secar. Daí, fiz tratamento especializado, conheci a doença. Fico feliz com o novo medicamento (...) Se precisar, eu ingresso na Justiça para o SUS pagar o tratamento”.

*Jornalista viajou a  convite da Bayer

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