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Cotidiano
ELEIÇÕES 2018

Holofotes do Brasil devem se voltar para políticos impunes, diz Marina Silva

Em entrevista ao Portal A Crítica, presidenciável diz que foco nacional deve ser membros impunes do Congresso e do Planalto, porque eles ainda podem ser eleitos 29/04/2018 às 14:14
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Foto: Euzivaldo Queiroz
Náis Campos Manaus (AM)

A terceira candidata mais votada nas eleições presidenciais de 2014, a ex-senadora Marina Silva (Rede), que obteve mais de 22 milhões de votos nas urnas, fala, nesta entrevista, como se prepara para concorrer ao cargo de presidente da República mais uma vez, de sua relação com o ex-presidente Lula, suas queixas contra o governo de Michel Temer (MDB), o arrependimento de ter apoiado o senador Aécio Neves (PSDB), no pleito de 2014, e da polêmica sobre a pavimentação da BR-319. A candidata reconhece que fará uma campanha no estilo “franciscano” e na base do “oferecer a outra face”.

A senhora esteve em Manaus há quatro anos, nas últimas eleições como representante do Norte. Qual a principal diferença entre aquele momento e o atual cenário político de hoje?

Uma diferença muito grande, pois nós temos hoje um País em crise e, com certeza, nas regiões do Norte e Nordeste essa crise é muito maior. Hoje nós temos 13 milhões de desempregados e as pessoas que saíram da extrema pobreza por meio do Bolsa Família ou programas de transferência de renda já voltaram em função do desemprego. São mais de 50 milhões de brasileiros devolvidos à pobreza. Temos também graves problemas com os serviços públicos, como a segurança, um caos no País inteiro e, aqui (Manaus) foi um dos piores exemplos para o Brasil (massacre do Compaj em janeiro de 2017). Temos uma saúde que não funciona para a maioria das pessoas, que ficam meses e meses à procura de consultas e realizações de exames. O Brasil de hoje é incomparavelmente pior em razão do ciclo de governantes que, ao invés de entregar um País melhor do que encontrou, estão entregando pior, a exemplo da ex-presidente Dilma Rousseff e do atual, Michel Temer.

Esse desemprego afetou a geração de novas vagas na Zona Franca de Manaus. O que poderá ser feito para reerguer o prestígio do modelo econômico?

De fato, a Zona Franca de Manaus é muito importante e segurou por muito tempo os problemas de uma cidade que se polarizou nas fábricas do Polo Industrial de Manaus (PIM). Por isso é fundamental a implementação de mudanças de verdade para a recuperação da credibilidade política e a confiança do investidor. A corrupção, um governo ilegítimo e desacreditado espanta esse investidor. Temos de um lado uma crise que é grave, econômica, social e política e, por outro, grandes oportunidades de investimento. É só ter um governo confiável.

A senhora considera esse governo ilegítimo por quê?

O presidente Temer é ilegítimo sob muitos aspectos, não tem legitimidade e tampouco credibilidade. A legitimidade de um governo, por exemplo, acontece quando em algumas questões que pretende realizar o faz durante a campanha política e não anunciá-las agora, como o caso das reformas. Temer não tem credibilidade, pois só não está sendo investigado para ser punido como merece por ter aliciado votos no Congresso para barrar as investigações, do mesmo modo que uma grande quantidade de ministros e ex-ministros seus igualmente implicados na Lava-Jato.

De fato existem muitos implicados na Lava Jato, inclusive com um ex-presidente preso, mas muitos outros blindados por artifícios como o foro privilegiado. Como a senhora avalia esse quadro?

Com muita tristeza porque temos os grandes partidos PT, MDB, PSDB e todos os seus satélites implicados em graves problemas de corrupção, segundo as apurações do Ministério Público e Polícia Federal no âmbito da operação Lava Jato. Por outro lado há um sinal de esperança, de que a Justiça começa a ser para todos, para os poderosos políticos e empresários, mas temos um problema: o foro privilegiado. Os que não dispõem desse benefício estão presos, pagando por seus erros, e os que têm? E o Renan Calheiros, Romero Jucá e o Collor? Exemplos não faltam. São mais de 200 parlamentares investigados, entre deputados e senadores, sem falar em ministros e o próprio presidente da República. Nós precisamos acabar urgentemente com a prerrogativa do foro privilegiado que cria dois pesos e duas medidas. Só vamos passar o País a limpo se acabar com esse manto de impunidade onde as pessoas se escondem para não pagar por seus crimes.

É possível em uma campanha eleitoral, com ânimos tão acirrados no país, unir esse discurso com os candidatos e levá-lo para a prática?

Acho mais fácil unir com a sociedade, pois imagine só: de 513 deputados, 200 estão sendo investigados. Foi a sociedade que não permitiu que eles (deputados e senadores) aprovassem a anistia para o “caixa 2” – imagine a quantidade de dinheiro que foi roubado, desviado da campanha de 2014, uma verdadeira fraude eleitoral. Também quiseram aprovar um projeto do Renan Calheiros que tentava intimidar a Polícia Federal e o Ministério Público sobre o abuso de autoridade. Aliás, existem muitos parlamentares que não estão sequer concorrendo a uma vaga nas eleições por cargo eletivo e, sim a um Habeas Corpus, um salvo-conduto.

Como a senhora avalia a prisão do ex-presidente Lula, já que a senhora foi ministra no governo do petista?

Acho triste uma pessoa com a trajetória do ex-presidente Lula que de repente, por erros que cometeu junto a seu partido e equipe, ter que pagar por suas ações, mas sempre digo que a lei é para todos. Não temos que ter dois pesos e duas medidas. Porém, acredito que um indivíduo após passar por todos os trâmites da Justiça e ser condenado para cumprir sua pena, não cabe a ninguém ficar tripudiando de quem já está pagando por seu crime. Agora os holofotes do Brasil devem se voltar não para quem já está pagando por seus erros, mas para quem está impune, dentro do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto, e ainda corremos o risco de vê-los eleitos.

O senador Aécio Neves agora é réu na operação Lava-Jato e teve seu apoio nas eleições de 2014. Algum arrependimento?

Se naquela campanha eu tivesse as informações que hoje tenho a respeito do senador Aécio Neves jamais o teria apoiado para presidente. Ninguém teria votado, nem nele e nem na Dilma. A eleição de 2014 foi uma fraude porque teve corrupção eleitoral envolvendo PT, PSDB e também no MDB, partido do vice (Michel Temer). Contudo, entendo que as denúncias envolvendo grandes nomes da política vão influenciar na campanha, fazendo o eleitor ser mais criterioso, de forma que o emprego de grandes recursos em campanhas milionárias não fará tanta diferença como já aconteceu no passado.

Na campanha anterior a senhora falou que a BR-319 não era viável economicamente. E agora?

Uma estrada para ser construída ou recuperada precisa responder a três requisitos: viável do ponto de vista econômico, social e ambiental e com a BR-319 não é diferente. Sei que existe um grupo de trabalho entre vários órgãos públicos e a sociedade civil e nós temos que aguardar o que essa comissão tem a nos dizer. Porque eu estou afastada do governo há uma década, e nesse período já tivemos um ministro do Transportes (Alfredo Nascimento, PR), que é daqui (Amazonas) e de Minas e Energia (Eduardo Braga, MDB) e nada fizeram para que a estrada fosse recuperada. Continuo afirmando que toda a licença para a construção de uma obra é necessária a verificação das viabilidades econômica, social e ambiental

Muitos lhe criticam por achar que a senhora some e só aparece em campanha eleitoral. A senhora concorda?

Isso é algo que a oposição criou, mas graças a Deus que eu “não apareci” na Lava Jato e em nenhum desses escândalos de corrupção. Então eles inventaram que eu sou sumida. Transformaram uma coisa boa, que é não estar nessa operação, como se fosse algo ruim. Mas estou sempre me posicionando a favor da Lava-Jato, contra o foro privilegiado e a anistia para o Caixa 2. Fomos nós, do Rede, que levamos o senador Aécio Neves para o Conselho de Ética, pedimos o afastamento do ex-deputado Eduardo Cunha e da lei que impede alguém que esteja sendo investigado esteja na linha sucessória presidencial. Tenho trabalhado, e trabalhado muito, obviamente que não é dizendo o que os grandes partidos desejam que eu diga.

Como a senhora define sua campanha em tempos escassos de recursos?

Faremos uma campanha “franciscana”, sem recursos e tempo de TV e no estilo “oferecer a outra face”. Será um tempo da guerra de Davi contra Golias, mas ainda bem que quem venceu foi Davi (risos). Na campanha de 2010 me deram 14 segundos no horário eleitoral, em 2014 ganhei dois minutos e 14 segundos para falar, e esse ano terei apenas 10 segundos. Mas dez segundos não são maiores que 200 milhões de brasileiros. Não precisa de rios de dinheiro para fazer política, o que a gente precisa é de ideias, de propostas. O povo tem que fazer a operação lava-voto. Eles (candidatos) estão unidos para uma campanha do contra, vamos nos unir por ações a favor, de luta e paz. 
 

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