Segunda-feira, 28 de Setembro de 2020
DEBATE NAS REDES

Influenciadores digitais roubam a cena e viram protagonistas no debate político

O embate da cantora Anita com o relator da PEC da Grilagem ganhou destaque no Twitter e campanha feita por celebridades levou ao adiamento da matéria. O papel de influenciadores digitais no debate de temas políticos é objeto de análise de estudiosos ouvidos por A CRÍTICA



d11288c4-b9b9-489e-930a-f4601c22dd95_63B4D171-6510-4767-BDE4-2C5BC48994BD.jpg Foto: Reprodução/Internet
14/06/2020 às 06:00

Com a ascensão das redes sociais, ganhou relevância também um novo tipo de figura pública: o influenciador digital. A soma das ações adotadas pelo governo federal para combater a pandemia do novo coronavírus, o isolamento social, a crise  política e a convulsão social nas ruas revelou que os criadores de conteúdo na internet também conseguem engajar seu público e obter alcance com outros assuntos mais sérios, por exemplo, temas políticos.

Em março, a cantora e empresária Anitta assumiu seu papel, enquanto figura pública, no campo político. Anitta e a advogada e professora Gabriela Prioli promoveram lives para tirar dúvidas sobre a política brasileira. Intitulada de ‘beabá da política’, os vídeos foram direcionados para quem não entende nada do tema, com uma linguagem simples e acessível.



“É muito positivo e a iniciativa dela (Anitta) parte de uma humildade de falar que realmente não entende as questões políticas. É muito provável que uma enorme parcela da sociedade também não entenda. É bom dar para essas pessoas um leque de entretenimento e informações sobre política, capacitação e quase uma educação cívica”, avalia o coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio, Ivar Hartmann.

Anitta se uniu a classe artística na campanha marcada pela hashtag ‘MP 910, não’ e defendeu no Twitter que “nossa floresta merece mais do que um PL votado às pressas” em alusão ao projeto de lei da regularização fundiária no país, que tem como relator o deputado federal Marcelo Ramos que após duras críticas retirou a proposta de pauta. A cantora respondeu a uma publicação do parlamentar que fez referência à ‘anittaminions’. “Não vamos parar… vamos evoluir… porque estão todos se disponibilizando a aprender mais sobre política pra saber como cobrar pessoas como o senhor. Aliás… anittaminions também são eleitores. Não deboche do povo. Você trabalha pra eles”, disparou a influenciadora digital.

O estudante universitário amazonense, Matheus Castro, de 20 anos, aborda e promove o debate político em suas redes sociais. A discussão ganhou tamanha proporção na internet que o influenciador e seus seguidores convocaram e realizaram o ato de rua ‘Amazonas pela democracia’.

“Falar de política nas redes sociais é bom porque chamamos a atenção de pessoas que não estão tão ligadas para assuntos muito importantes, mas ao mesmo tempo é ruim visto que um influenciador político digital se torna uma pessoa vigiada. Quase todos querem saber o que você pensa sobre muitos temas, logo manter cuidado e coerência é sempre bom. Todo tipo de conversa ou discussão sobre temas políticos atuais são muito importantes até mesmo pra que mais jovens e influenciadores tenham noção da responsabilidade que cabe a eles como cidadãos de abordar esses temas e democratizar esse debate para que seja acessível a todos”, afirmou.

Na avaliação de Ivar Hartmann, é positivo que a população se manifeste e leia mais sobre política apesar do fenômeno online apresentar problemas colaterais, a exemplo das fake news, mas frisou a necessidade de descentralizar essa discussão. “Também me preocupa a disseminação de explicações, argumentos, teorias sobre o que é bom ou ruim para política nacional e os rumos do país por pessoas que não pensaram suficiente e não estudaram sobre isso. Mas temos que tomar cuidado quanto a reação e a resposta o que exatamente é um problema e o que queremos efetivamente resolver”, declarou o professor.

Hartmann pontuou que programas humorísticos na televisão desempenharam papel muito importante na construção do debate político como o Casseta & Planeta. Para o doutor em Direito Público, o entretenimento mesclado com conteúdo político torna, no mínimo, mais acessível o debate e convida quem busca por divertimento a participar dessa discussão e adquirir novos conhecimentos. Segundo ele, uma democracia saudável passa pelo diálogo e a interlocução desses campos.

“Acho que não queremos uma separação. Queremos essa influência e esse diálogo. Os influenciadores digitais, cuja maioria cresceu e ganhou amplo número de seguidores como produtor e disseminador de entretenimento, se começam a misturar um pouco de política com entretenimento e a falar, se posicionar e incentivar a sua audiência também a pensar sobre política e avaliar certas coisas, questionar certos posicionamentos políticos é um fenômeno positivo”, conclui o pesquisador.

Saiba mais

O youtuber e comediante Whindersson Nunes entrou no debate político e tem usado o Twitter para manifestar posicionamentos contrários a gestão Jair Bolsonaro, Segundo dados da Sala de Democracia Digital, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o humorista se une ao influenciador e empresário Felipe Neto e assume voz central nos grupos de oposição não alinhados a bases partidárias. Neto, com mais de 39 milhões de inscritos em seu canal no youtube, defende que influenciadores, de modo geral, se posicionem sobre o momento em que o país se encontra e declarou que “o silêncio já não é mais uma opção”.

Blog de Guilherme Oliveira, frentista

“Antes não tínhamos contato com a quantidade de informações que temos hoje. Não precisa ser em uma faculdade, estudar ciência política ou sociologia para ter acesso a esse conteúdo. Várias pessoas vem tratando desses assuntos nas redes sociais cotidianamente e estamos vendo ser expressado nas ruas através das manifestações. Não dá para receber um conteúdo, tratá-lo como verdade sem analisar o todo. É preciso analisar e a partir disso formar uma opinião. Se não fica apenas desinformando mais que informando. Vejo o debate político como a sociedade amadurecendo. É melhor debater que resumir política a ladrões. O tema é muito mais abrangente e para sociedade é boa toda essa discussão. Ao mesmo tempo é ruim chegar de forma errada por fake news. A pessoa pega uma informação totalmente fora do contexto, desinforma e tira isso como verdade. Nem se preocupa em ir atrás, verificar a fonte ou se está acontecendo de verdade. É muito bom quando vem tudo bem explicado com início, meio e fim, assim como existem fake news, influenciadores jogam isso de qualquer forma e acaba atingindo uma massa muito grande de pessoas. É uma corrente que é complicada”.

Comentário de Rafael Carletti, professor e doutorando em sociologia pela Universidade Federal de São Carlos

“Desde as eleições de 2014, a discussão política sobre os temas relevantes para sociedade brasileira foi ocupada por uma polarização muito aguda que acabou por trazer à tona o lado odioso das torcidas. É importante que esteja sendo resgatado, especificamente, nesse momento que a gente carece de um debate político. É preciso que a gente olhe com um certo distanciamento o conteúdo que é produzido nas redes. Pessoas que são ligadas a movimentos e a política propriamente dita que existe uma produção já consolidada têm mais visibilidade e credibilidade ao falar. Quando não vivíamos sob a realidade da pandemia, a Anitta e o Whindersson Nunes nunca se preocuparam em discutir ou falar sobre política. Em uma busca rápida na internet, os dois durante o processo eleitoral foram muitos cobrados da abstenção em relação a um posicionamento político mais contundente. Há de se perguntar por que se mostram interessados a participar do debate. O que é legítimo e louvável esse comportamento, mas por terem um alcance grande tem que ter muita responsabilidade e estar ciente do conteúdo propagado. O que falam reverbera entre milhões de seguidores, então essas pessoas ao se manifestar politicamente tem que ter minimamente responsabilidade, se amparar e consultar fontes fidedignas de conteúdo político já consolidado para reproduzir para o seu público. Na internet, infelizmente, ainda não temos um crivo para filtrar o que é dito. Cabe a audiência, ter acesso a esses canais, ouvir e a partir de sua leitura atestar a veracidade. Se causa algum estranhamento busque outra fonte e um canal de informação consolidado. A internet democratizou o acesso a muita coisa, mas empobreceu a qualidade da informação. Não temos certeza de tudo que é dito na internet. Ainda é um ambiente de pouca regulação diferente do jornalismo e da academia”.

ANÁLISE de Paulo Emílio Douglas de Souza, Cientista político

“Partidos políticos, fortemente hierárquicos e de pouco acesso ao eleitor médio como costumam ser, perderam bastante a expressividade atualmente. Ocorre que não temos como escapar dos partidos políticos na medida em que estes detêm o monopólio da participação no processo eleitoral. No Brasil, não há uma forte tradição de engajamento cívico e debate público sobre questões de interesse comum. O que fazer, então, se partidos não são mais catalisadores dos grupos organizados e seus interesses, além de o cidadão não abraçar pessoalmente as causas do espaço público?

Para o bem e para o mal, desde junho de 2013, o país parece ter mudado sua sensibilidade em relação ao debate dos interesses públicos. Me parece que o elemento central a explicar tal fenômeno é a polarização que teve início com a entrada de movimentos de direita no jogo. De lá para cá, testemunhamos a conflagração de duas visões distintas sobre nosso futuro.

A sociedade digital brasileira simplesmente, dada sua instantaneidade de acesso e impacto coletivo, aderiu em volume, proporção e rapidez a um fenômeno observável em quase todo o mundo. E por que eu disse que esse interesse pela política a partir de 2013 vem para o bem e para o mal? Porque no Brasil ele é nascido da polarização extrema, que agora começa a ser expressa pelos influenciadores digitais. Estes, frequentemente celebridades e subcelebridades, foram motivados pelo oportunismo, popularidade e apelo que os debates sobre política alcançaram no Brasil. Se por um lado ajudam a despertar o interesse das pessoas comuns pela política, por outro, dada a superficialidade e o maniqueísmo simplório notadamente exibidos, põem em risco, ao desqualificá-la, a credibilidade e legitimidade da política enquanto linguagem por excelência da democracia. Eis o dilema”.

News larissa 123 1d992ea1 3253 4ef8 b843 c32f62573432
Repórter de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.