Quarta-feira, 29 de Janeiro de 2020
Encontrar alguém

Com vídeos na internet, iniciativa ‘conecta’ almas e forma novas famílias

Projeto de adoção tardia do TJ-AM já conseguiu novos lares para 17 crianças que estavam em abrigos da capital



eca1_0E7F786B-3CB3-4F0E-9F09-C77E4F6A2F83.JPG Projeto incentiva adoção de crianças mais velhas: um dos maiores desafios. Fotos: Junio Matos/freelancer
15/12/2019 às 16:26

“Sou talvez a visão que Alguém sonhou/ Alguém que veio ao mundo para me ver, e que nunca na vida me encontrou”. Esse trecho do Livro de Mágoas, da poetisa lusitana Florbela Espanca, norteia o projeto “Encontrar Alguém”, que tem por objetivo conectar crianças que vivem em abrigos de Manaus a novas famílias. Só neste ano, 10 crianças tiveram a oportunidade de encontrar novos pais pela iniciativa da Justiça amazonense. O projeto leva à Internet vídeos das próprias crianças fazendo apelo por um novo lar.

O último levantamento da Justiça mostra que existem mais de 180 crianças e adolescentes acolhidos nas 10 unidades acolhedoras de Manaus. No primeiro semestre do ano passado, foi constatado que mais da metade (57,5%) são crianças de difícil colocação em família substituta, por diversos motivos. Um dos principais é a idade: a maioria dos interessados em adotar prefere crianças pequenas.



Implantado em 2018, o Encontrar Alguém surgiu com o objetivo ajudar os acolhidos de qualquer idade que já foram destituídos do poder familiar e que não foram inseridos em família substituta, após consulta no Cadastro Nacional de Adoção do CNJ. Os órgãos responsáveis pelo projeto são a Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas (COIJ/TJ-AM), juntamente do Juizado da Infância e Juventude.

“Encontrar Alguém é o projeto de busca ativa ou adoção tardia, com intenção de alcançar crianças e adolescentes já destituídas de difícil colocação em família substituta, que estão nessa categoria porque são grupos de irmãos, ou apresentam alguma doença ou alguma condição que dificulta a sua colocação em família substituta, e jovens que tentamos reinseri-las a suas famílias biológicas e não foi possível”, explica a juíza Rebeca de Mendonça Lima, titular da COIJ/TJ-AM.

“Então, pensando nelas, no seu tempo de abrigo e de que forma poderíamos ajudá-las, até mesmo por uma questão moral, pensamos nesse projeto. Felizmente, é um projeto de divulgação, com o intuito de mostrar a história dessas crianças com a autorização delas, na voz delas, fazendo com que as pessoas se sensibilizem e entendam que a adoção é muito mais do que simplesmente criar um bebê. Consideramos que adoção é um gesto de amor, então quem tem essa intenção no coração não vai olhar pra faixa etária”, defende a magistrada.

“Há um preconceito por serem adolescentes e aquele pensamento de já estar moldado de um jeito e não ser possível educar conforme o padrão familiar próprio. É um desafio, não negamos, mas a gente sempre pensa que é um desafio que pode ser positivo”, ressalta.

A ideia do projeto consiste em gravar diversos vídeos e mostrar a história de cada uma dessas crianças, divulgando-as em meios de comunicação para ter o maior alcance possível. Das 37 crianças que fazem parte do projeto desde o último ano, 17 já foram acolhidas, sendo quatro grupos de irmãos, que hoje vivem em diversas partes do País e do mundo.

“Esse projeto tem nos dado um retorno muito positivo. Infelizmente, no Amazonas e na região Norte não há a cultura da adoção, há a cultura de ‘se pegar para criar’. Mas, isso tem mudado bastante em outros estados”, observa Rebeca.

Os jovens acolhidos hoje residem em locais como Recife, Goiânia e até mesmo em Paris, na França, uma vez que graças à Internet, os apelos das crianças podem ter um alcance global.

“Os vídeos são importantes, pois as pessoas não tinham acesso, muitas vezes por não irem visitar os abrigos, e não saberem a histórias dessas crianças. Então, a partir do momento em que você acaba ouvindo a história, já se sensibiliza. A gente lida com a vulnerabilidade social, então quando vemos o outro lado, é incrível. Lidar com o extremo desamor e ver o extremo amor, de pessoas querendo adotar e ter uma família, ver esse encontro de almas”, comemora.

'Vi o vídeo deles e me encantei'

Oriundos do Ceará, os professores universitários Patrícia Rodrigues Costa e Felipe Costa da Silva vieram até Manaus atrás da sua nova família. “Eu já estava pesquisando sobre adoção tardia. Nós estávamos pretendendo entregar a documentação no fórum de Fortaleza para fazer adoção. Estávamos vendo vídeos de outros projetos e fazendo uma busca ainda maior, procurando até depoimentos de pais que já haviam adotados crianças maiores, o que já era meu desejo. Então, vi o vídeo [do projeto Encontrar Alguém] dos seis irmãos e me encantei com eles, independente da quantidade”, disse a mãe.

Os seis irmãos são extremamente unidos e passaram três anos em um abrigo esperando por um encontro desses. “Eu lembro que até chorei na hora e falei ‘esses daí são meus filhos’, porque senti que eram meus de verdade. Foi uma emoção muito forte, não sei explicar”, comentou Patrícia.

Ela explicou que entrou em contato com a Vara de Manaus para ver se os irmãos ainda estavam em adoção. Agora, o casal já está no processo final para conquistar o Termo de Guarda. “A gente, de início, tinha a ideia de adotar no máximo três. Mas planejar é uma coisa, na prática o sentimento falou mais forte”, disse a mãe.

“Sempre bate aquele susto, né? Afinal seis é um grande número, mas pensamos bem e vimos se tínhamos condições. É como ela falou, é algo que não sabemos explicar, é um chamado”, afirmou Felipe.

As crianças, que já estavam ansiosas para conhecer o mar e as praias do Ceará, veêm se comunicando com o casal por redes sociais há um tempo, para que houvesse a interação e compatibilidade até o encontro presencial, que ocorreu em novembro, em Manaus “Quando chegamos aqui e vimos que era real, foi uma emoção muito maior, a expectativa é grande durante meses e viver isso é bem mais forte”, afirmaram.

Casal adotou quatro irmãos

E foi por meio de grupos de interessados em adoção em aplicativos de mensagens que os microempressários Cléria Machado e Walter de Paula encontraram seus filhos, ainda em Trindade (GO).

“A gente participa desses grupos e lá havia vários vídeos do Encontrar Alguém e foi por ele que encontramos nossos filhos. Assistindo ao vídeo, nos identificamos com eles. É uma emoção inexplicável, o amor não se explica”, conta a mãe.

“É uma sensação única ao ver o vídeo, o coração despera e fala mais forte. Você diz ‘esses são meus filhos’. Queríamos adotar há mais de dois anos , diz Cléria. Os quatro irmãos adotados pelo casal goiano estavam abrigados há cinco anos.

‘Queremos permitir que vivam isso’

A juíza Rebeca de Mendonça Lima explica que, após a entrega do Termo de Guarda, a equipe da Vara da Infância do estado em que as crianças passam a residir fará o acompanhamento, comunicando a Vara de Manaus para que seja sentenciada a adoção.

“A interação dessas famílias (citadas pela reportagem) vem acontecendo desde junho, para que seja feita a sentença com 100% de certeza de que haverá sucesso no processo de convivência dos pais e filhos, além de toda questão de adaptação à nova vida. Eles ainda estão no caminho, mas já se conectaram e só queremos permitir que vivam isso”, disse. Atualmente, ambos os grupos já foram para as casas e cidades de suas novas famílias.

 

Repórter de A Crítica

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