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Cotidiano
Arte pela liberdade

Internos do Puraquequara tem dia diferente assistindo a peça de teatro e evangelização

Companhia paulista de arte Jeová Nissi está realizando uma série de apresentações nas unidades prisionais da cidade; primeiro espetáculo foi no Puraquequara 12/09/2016 às 20:39
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Os internos da Unidade Prisional do Puraquequara (UPP), localizada no quilômetro 2 da Estrada do Puraquequara, Ramal Bela Vista, tiveram um dia diferente ontem. Eles acompanharam duas apresentações da companhia paulista de artes Jeová Nissi, que é formada por jovens voluntários de todo o País e que, além de peças gospels teatrais, também transmite o Evangelho ao público privado de liberdade.

A iniciativa é uma parceria da companhia com a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap), e as apresentações nas unidades prisionais de Manaus vão se dividir nos turnos matutino e vespertino, com início às 8h30 pela parte da manhã nas unidades selecionadas, e na parte da tarde com início entre 14h30 e 16h30. A intrépida trupe vai se apresentar ainda em outras unidades prisionais até a próxima quinta-feira (ver programação nesta página). A peça que eles apresentam se chama "Sobre Si", e trata como Jesus Cristo age na vida das pessoas, como Ele vem e troca de lugar com as pessoas, e sobre ingratidão no meio familiar.

De olhos bem atentos , mesmo sob o incômodo do calor de quase 40 graus que fez durante a apresentação realizada na quadra de esportes da UPP, os internos ouvidos por A CRÍTICA disseram que o espetáculo teatral representa um importante passo em busca da ressocialização após deslizes que cometeram.

Amarelinha e Bíblia na mão

Vestido com a camisa da Seleção Brasileira e uma Bíblia Sagrada na mão, o encarcerado Edson Corrêa Nunes foi um dos internos que se emocionou com a apresentação. “Para mim esse momento é muito importante. Eu ainda não havia visto isso aqui. Me emocionei, até lagrimei. Não tenho religião, qualquer uma é a minha”, falou ele, que está há dois meses na UPP aguardando ser ouvido pela Justiça após ser detido por tráfico de drogas.

Para Edson, outras iniciativas como essas deveriam ocorrer mais vezes na unidade. Ele aguarda pela liberdade para viver a vida de outra maneira. “Quero mudar a minha história lá fora. Trabalhar, conquistar minhas coisas suado”, conta ele, que era morador do Zumbi 2.

Recomeços e oportunidades

O mesmo motivo anterior fez o ex-taxista Alison Terço, 36, parar na unidade de detenção provisória para cumprir pena de 10 anos e 4 meses – no próximo dia 20 ele faz 1 ano e 6 meses na unidade. “Sem dúvida que ações como essas ajudam na ressocialização . Temos irmãos que saem daqui da cadeia sem nenhuma perspectiva de vida, voltando para o mundo do crime, das drogas. Muitas vezes eles não têm oportunidade e nem esperança. Iniciativas como essas são muito válidas. Recentemente a secretaria (Seap) promoveu uma tarde de cinema. Creio que não apenas eu, mas todos os irmãos que estão aqui tentando provar sua inocência ou que cometeram algum erro e estão cumprindo suas penas, consideram que é muito bem vindo nao só o teatro, mas também cinema, esporte, etc. Isso para nós, que queremos mudar, é muito bom realmente”, disse ele, que assume ser cristão, é casado, pai de cinco filhos e residia no Coroado.

Michael Araújo, 23, era um dos internos que não desgrudavam os olhos da peça. Garantindo ser temente a Deus e amante da cultura, ele, que está detido há 2 anos no Puraquequara por homicídio, destaca que o ser humano “precisa cada vez mais de arte na sua vida, ainda mais em um lugar como esse onde estamos isolados da família e das pessoas que amamos”.

Frase

O balanço desse início de apresentações é bastante positivo e eu, particularmente, me sinto honrado e feliz de trazer, na minha administração, eventos dessa natureza para os encarcerados. Entendo de que tudo que eles precisam é de atenção”. Pedro Florêncio, secretário da Seap

Blog

Bruno Batista de Faria, 20, artista da companhia Jeová Nissi

“Nós temos muito orgulho de carregar o nome de missionários, mas mais importante que é isso é carregar a palavra de Deus. Ele decidiu chamar a gente para esse trabalho específico e temos muito orgulho. Estamos cumprido uma missão que Deus nos deu, e podemos entender que essa missão já está sendo concluída. Éramos desgarrados e pecadores, e ainda continuamos  sendo pecadores, mas o Senhor nos separou para fazer algo diferente, assim como pode separar qualquer um que está aqui hoje. Jesus e o teatro me libertaram. Foi a melhor coisa pra mim”, disse o ator Bruno Batista de Faria, 20, que nasceu na cidade de Americana (SP) e que atua desde os 9 anos de idade. “Estamos com a alma lavada e mais tranquilos, leves. Nós sabemos que estamos mexendo com o reino espiritual, e há seres que querem impedir iniciativas como essas. Antes de vir para cá eu passei mal, me deu ânsia, só que aí oramos e agora estamos muito bem sabendo que concluímos o que viemos fazer aqui”, completa o artista.

Sem receber qualquer compensação financeira pelas apresentações, Bruno Faria disse que o maior pagamento deles é saber que uma única alma vale por um mundo inteiro e “essas que estão sendo tocadas estão nos dando retorno”.

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