Quarta-feira, 03 de Junho de 2020
SAÚDE MENTAL

Isolamento social pode agravar quadros de depressão e ansiedade, diz psicólogo

O psicólogo Geisyng Azevedo comenta sobre o período de quarentena e os quadros de depressão e ansiedade. Conheça a história de quem convive com essas doenças



isolamento-social_B6C0CFF6-CA7E-4C5E-96D1-BC40DF11FA9C.jpeg Foto: Reprodução
05/04/2020 às 16:45

Fonte de estresse para muitos, o isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19) pode ser especialmente prejudicial aos que sofrem de transtornos de depressão e ansiedade. O Portal A Crítica conversou com psicólogos e pacientes diagnosticados com depressão a fim de enumerar métodos de prevenção da doença nesse período em que ficar longe do convívio social acaba sendo necessário.

O psicólogo Geisyng Azevedo informa que o período de isolamento social pode agravar quadros de depressão ou ansiedade em pessoas que sofrem das doenças. “Todos nós estamos passando por um período que altera nossa rotina. Estamos sendo bombardeados por notícias. Esses fatores influenciam muito aqueles que já tem um transtorno mental, o que pode gerar situações de aumento de ansiedade e depressão em pessoas que têm essas enfermidades”, disse.



Psicólogo Geisyng Azevedo Foto: Arquivo Pessoal

Resiliência e esperança

Diagnosticada com depressão e síndrome do pânico há oito anos, a professora universitária Ingrid Souza Azevedo da Costa, 38, redobrou os cuidados de prevenção às doenças, durante os dias em casa. “Não percebi recaída em meu quadro, mas intensifiquei medidas terapêuticas”, disse.

A professora contou que vê o período de isolamento social como um processo de introspecção. “Estou em quarentena com a minha família desde 17 de março. Durante o dia, procuro perceber meu corpo, alma e mente”.

Ingrid disse que percebe os sinais de recaída por meio do corpo, ao notar ocorrências de insônia, angústia, coceira no corpo e tremor nos olhos.

“Muitas vezes é difícil perceber esses sinais durante o dia. Essa fase de isolamento social está nos dado essa oportunidade. Quando percebo que minha mente está acelerada, busco uma pausa para minhas meditações, faço uma curta caminhada, converso com as plantinhas que cultivo ou observo o céu, contemplando a composição das cores”, contou.

Nélio Araújo. Foto: Arquivo Pessoal

O operador de caixa Nélio dos Santos Araújo, 29, resolveu começar um curso universitário à distância, durante a quarentena. “O amor próprio é o mais importante, além de saber que Deus está sempre olhando por nós”.

Nélio reforçou a importância da atenção ao próprio corpo e às próprias emoções. “As pessoas depressivas, muitas vezes, não se conhecem e não se auto-analisam, se entregando às críticas internas”, disse.

O jornalista Luan Neves Ferreira, 25, combate a depressão há nove anos. Em quarentena há 11 dias, o jornalista relatou  que conseguiu evitar um agravamento no quadro da doença ao manter uma rotina de estudos, trabalho e atividades físicas. “Entretanto, eu passei a ter distúrbios de sono, falta de apetite, cefaleia, e a ocorrência de pensamentos negativos”, contou.

Luan recomendou o contato com os amigos por meio das redes sociais. “Faça vídeo-chamadas com as pessoas que você gosta. Diga que as ama”.

Luan Neves. Foto: Arquivo Pessoal

Atendimento on-line

Geisyng, que passou a tratar dos pacientes por meio de vídeo-chamadas, notou um aumento dos quadros de ansiedade, melancolia e medo de alguns. “É natural que todo mundo apresente um quadro emocional afetado durante esse momento”.

O profissional aconselhou que as pessoas não negligenciem os cuidados no tocante à área emocional, prestando atenção às emoções sentidas.

“Quando negamos emoções, elas ficam mais fortes dentro de nós, então é importante que aceitemos sensações de tristeza e entendamos os motivos de ela aparecer, compreendendo também que ela será reduzida após voltarmos à normalidade”, disse.

Segundo última atualização do Ministério da Saúde, contabilizada às 17h deste domingo (5), foram confirmados 11.130 casos de infectados pelo Coronavírus no Brasil, com um total de 486 mortes e uma letalidade de 4,4%. No Amazonas, são 417 casos e 14 óbitos, com taxa de letalidade de 3,4%

Ainda de acordo com o Ministério da Saúde, a prevalência de depressão ao longo da vida no Brasil está em torno de 15,5%. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), a prevalência de depressão na rede de atenção primária de saúde é de 10,4%, isoladamente ou associada a um transtorno físico.

Dentre os métodos de prevenção recomendados pelo Ministério da Saúde, constam: manter dieta equilibrada, praticar atividade física regular, combater o estresse por meio de reserva de tempo a atividades prazerosas, evitar o consumo de álcool e uso de drogas ilícitas, diminuir doses diárias de cafeína, manter rotina de sono regular, e não interromper o tratamento sem orientação médica.

Confira cinco dicas contra depressão e ansiedade

1. Desenvolver novos hábitos

A psicóloga amazonense Nazaré Mussa, dona de um canal no YouTube voltado a dicas de prevenção da saúde mental, aconselha às pessoas a explorarem novos hábitos durante o período de isolamento social. “Se você não gosta de cozinhar porque não sabe, por exemplo, experiente fazer um doce. Mudanças de comportamento são importantes”.

2. Manter os tratamentos que já eram feitos antes da quarentena

Geisyng reforça que os indivíduos que sofrem de depressão ou ansiedade não devem interromper os tratamentos das enfermidades durante o isolamento social. “É preciso que elas mantenham um processo de higiene mental maior, durante esse período”.

O psicólogo recomenda que as atividades físicas sejam mantidas e adaptadas com segurança à prática em casa. “A meditação também é uma ferramenta excelente para combater tanto a ansiedade, quanto a depressão”.

3. Consumir material antiestresse

Mussa recomenda o consumo de séries que melhorem o humor. “É importante evitar as obras de terror, que normalmente aumentam a ansiedade e o estresse”.

Conforme Geisyng, o mantimento de boas leituras é outra arma no combate ao aumento de estresse durante o período de quarentena.

4. Manter uma rotina, mesmo em casa

Mussa salienta que o mantimento de um horário de atividades é importante, mesmo durante o isolamento social. “Ainda que  estando em casa, é importante evitarmos o pensamento de querer fazer qualquer coisa, a qualquer hora. Uma rotina é fundamental para esse momento”.

A psicóloga aconselha que as pessoas estabeleçam horas para acordar, exercitar-se e arrumar a casa. “Se não tomar cuidado, algumas pessoas conseguem trocar a noite pelo dia, por causa da falta de rotina. Isso não é saudável”, pontuou.

5. Preservar o contato com pessoas queridas

Para Geisy, é essencial que as pessoas não cessem o contato com os entes queridos, mesmo que a relação seja mantida por meio da internet. “Nossa biologia é de contato social. O período da quarentena cria uma interrupção nos processos biológicos referentes à interação, o que afeta não só a nossa mente, como o nosso corpo”.

O profissional reforça que até mesmo pessoas que não tinham histórico de transtornos mentais podem apresentar um quadro de melancolia ou ansiedade, durante o período de isolamento social.


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