Domingo, 08 de Dezembro de 2019
COMUNICAÇÃO

Jornalismo tenta se reinventar em meio ao caos das redes sociais

Em tempos de fake news, censura e ataques à imprensa, o jornalismo pode ressurgir como efeito colateral da desinformação



jornalismo_45E58633-61AA-411F-9D4E-92EB5D7A092C.JPG Acadêmicos da turma do terceiro período do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas durante a aula da disciplina de Audiovisual ministrada pela professora Ítala Clay. Foto: Junio Matos
21/04/2019 às 15:21

Vivemos um momento no qual o jornalismo é posto à prova a todo instante. As redes sociais se tornaram palco de desinformação, o Supremo Tribunal Federal (STF) censura publicações, os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos falam com veículos que lhes convém. Será que o jornalismo sobrevive a tantos ataques?

Para o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, o momento é de renascimento do jornalismo profissional como efeito colateral das redes sociais e a disseminação instantânea gerada por esses meios. 



“Ao contrário do que se imagina, o jornalismo está passando por um novo ciclo de valorização. A informação profissional passa a ganhar o status de antídoto contra a desinformação. Essa é uma constatação positiva para as empresas de comunicação, para os jornalistas profissionais e, sobretudo, para a sociedade”, analisa Rech.

O profissional cita ainda que a sociedade recorre ao jornalismo de qualidade para ter uma âncora de informação. Exemplo disso é o crescimento nas assinaturas digitais de veículos de comunicação como o The New York Times, Folha de São Paulo e também do Jornal A Crítica, que nos últimos dois anos acumulou mais assinantes do jornal e na sua versão digital. 

“As marcas são fáceis de destinguir, o A Crítica, por exemplo, que tem 70 anos de história é uma marca. Os profissionais têm suas marcas individuais e têm um peso enorme de responsabilidade porque são sete décadas de mercado, corrigindo, tentando acertar e isso gera confiança com o público”, frisa.

Ao mesmo tempo que o jornalismo mostra-se primordial, agências de fact-checking, que checam informações e dados passados por fontes oficiais ganham notoriedade, acumulam seguidores nas redes sociais por ajudar a separar informação e desinformação, principalmente as que envolvem política. 

Academias

Em 2013, o Senado aprovou alterações na Constituição Federal, e o diploma para Jornalismo deixou de ser obrigatório. A decisão não foi bem vista pela categoria e as universidades ficaram receosas, entretanto, a procura pelo curso se manteve. Nos últimos cinco anos, a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) registrou mais de 5 mil inscritos, uma média de 10 candidatos por vaga das 60 oferecidas em Parintins e 40 em Manaus. 

O coordenador do curso de Jornalismo da Ufam, João Bosco Ferreira, analisou o histórico do curso em Manaus.

“No fim da década de 1990 surge o primeiro curso de Jornalismo em uma universidade particular, que foi na Nilton Lins. Em seguida vem Uninorte, Martha Falcão, Boas Novas e Fametro, isso é resultado da demanda profissional. Apesar da retração do mercado, temos uma grande demanda nos vestibulares e uma grande relação de candidato por vaga”, avalia. 

Gustavo Soranz, coordenador do curso na Fametro também avalia positivamente a demanda. “A polarização política e questões sociais pelas quais a gente atravessa têm trazido um interesse renovado pelo Jornalismo, acho que revigorou. É uma profissão estratégica para entender o mundo contemporâneo”, finaliza.

TRÊS PERGUNTAS

Marcelo Rech - presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ)

O jornalismo está em crise?

Acho que ele está sendo desafiado a vencer algumas dificuldades relativamente novas. O jornalismo nunca foi tão importante, tão relevante quanto hoje. Não há dúvida que o modelo econômico que sustenta o jornalismo profissional está em crise pela fragmentação de alternativas, as profissionais e não profissionais, que de uma forma ou de outra competem com o mesmo espaço econômico que o jornalismo profissional. Isso se reflete na quantidade de recursos, de qualidade ou uma análise que o jornalismo precisa para exercer na sua plenitude a sua missão.

Como o jornalismo pode se reestruturar?

Acho que temos que deixar de trazer o noticiário de uso comum, que já está disponível e buscar nos focar em dois aspectos que são a exclusividade e o interpretativo. A exclusividade é uma abordagem diferenciada, única, exclusiva sobre um fato ou fenômeno, mesmo que de domínio público, mas com algum aspecto exclusivo. No interpretativo é trazer uma linguagem atrativa, compacta, simplificada do que é uma informação, não só noticiar.

Que veículos podem ser citados por utilizarem esses aspectos?

Internacionalmente, temos o The New York Times, The Washington Post, The Economist, The Financial Times Todos eles têm uma abordagem de um lado exclusivo, interpretativo, analítico e tem um crescimento muito expressivo nesse novo mundo.

ANÁLISE

Ivânia Vieira - jornalista e doutora em processos socioculturais na Amazônia

Vivemos a crise da desinformação. É nesse ambiente desgastado, desconfigurado por uma profusão de redes, informações, contra informações, mentiras e representações de verdades, que o jornalismo pode se tornar um bom exercício da aventura humana de contar histórias e estabelecer diferencial, o fazer jornalístico.

Nos falta, nesse cenário de "enxame digital", compreender o nosso espaço de jornalistas e agir nele. 

O jornalismo e o e a jornalista tem a oportunidade histórica de assumir uma nova postura reinventando-se nessa linha tênue que separa o jornalismo da propaganda e do marketing. Não é o jornalismo que é, isoladamente, prejudicado pelas atitudes dos presidentes estadunidense, Donald Trump, e do brasileiro Jair Bolsonaro.  O estado democrático de direito está sendo ferido, são feridas profundas.

Quando esse tipo de comportamento ocorre todos somos fragilizados, as instituições desrespeitadas, o temor se torna companhia diária,  a falta de respeito ganha espaço,  as violências de todas as formas são fortalecidas sob aplausos, e a democracia escrachada. Quem se beneficia com um ambiente desse?

Entendo como responsabilidade nossa, e educadores, insistir na formação crítica, humanística e ativa dos estudantes. Que queiram estudar, que se encantem com o campo escolhido e façam um bonito trabalho jornalístico.

*Por Suelen Gonçalves.

News portal1 841523c7 f273 4620 9850 2a115840b1c3
Jornalismo com credibilidade

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.