Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
PALESTRA

Jornalista compartilha experiências em palestra sobre mulheres refugiadas

As viagens para 80 países renderam à jornalista e escritora uma vasta experiência que foi compartilhada em Manaus, durante uma palestra



Capturar_E8A37237-A92B-4BAB-B04D-AB5AEB9E54C0.JPG Lucia Helena Issa é paulista, jornalista e especialista em Linguagem e Semiótica. Foto: Marcely Gomes
06/10/2019 às 16:16

O acúmulo de 80 países visitados nos 24 anos de carreira renderam à jornalista e escritora Lúcia Helena Issa experiências marcantes, e um pouco dessas experiências foram compartilhadas com alunos e visitantes em um bate-papo sobre a luta de mulheres refugiadas. Realidade vivenciada por ela quando conviveu com palestinas refugiadas em Roma, na Itália.

A palestra teve o tema “Refugiadas: uma luta pela paz com o rosto de mulher” e foi uma iniciativa das comunidades árabe e palestina do Amazonas com o intuito de aproximar mais a temática de caráter humanitário do público amazonense.



No início de 2018, Lúcia passou 25 dias vivendo como refugiada em Zahle, na fronteira entre a Síria e o Líbano. Ela conta que comeu a mesma comida que os outros refugiados comiam, dormiu em barracas da ONU, e a convivência permitiu conhecer as dores e os sonhos de quem foi buscar em outro lugar a paz que não teve em seu lar. A experiência vivenciada pela jornalista deu origem a um projeto de ajuda humanitária que contou com a participação de muitos amigos cariocas, que abraçaram a causa pela qual ela luta e doaram dinheiro para a aquisição de material escolar e brinquedos. Os materiais foram doados a 320 crianças moradoras dos campos de Zahle.

Três perguntas:

Foi a partir da sua experiência como correspondente que surgiu a vontade de dar voz às mulheres?

Sempre quis dar voz às mulheres que não têm voz, aí como correspondente da Folha de S. Paulo, em Roma, eu comecei com a questão das mulheres que lutaram contra a máfia e daí surgiu meu livro “Quando amanhece na Sicília...”. Conheci as refugiadas palestinas lá e é uma história que é uma dor da humanidade inteira, não só das palestinas. Lá foi a primeira vez que tive contato, aí viajei bastante pela Europa e cobri, em 2001, o fim da Iugoslávia como nação e vi o que ódio faz com um país. Um ódio que nunca tinha sido religioso era um ódio político, que tem a ver com dinheiro. Você quer saber o que acontece com um país com fácil acesso a armas e ódio político é só olhar para a Síria. Se o Brasil tivesse, além do ódio que a gente está vivendo, acesso a armas facilmente como acontece na Síria e outros países, a gente chegaria a uma guerra civil porque teria os dois componentes que se chega a uma guerra civil.

Quais mudanças podem ser percebidas nas mulheres quando elas podem ser ouvidas?

A minha vida mudou para sempre depois de ter ouvido os relatos das refugiadas palestinas, principalmente o massacre nos campos de refugiados no Líbano, sobretudo do massacre de Sabra e Chatila e foi perpetrada pelos cristãos. Elas são pessoas que tiveram seus corpos usados como território de guerra. Foram estupradas, mortas, tiveram seus filhos mortos e hoje são as que mais lutam pela paz entre cristãos e muçulmanos. Na Palestina eu vi uma igreja onde mulçumanos ajudaram na reconstrução junto com os cristãos, olha que coisa linda. Só que isso não aparece na mídia, tudo é feito para que nós odiemos nossos irmãos.

O convite veio de comunidades árabe e palestina no Amazonas. Como você recebe esse convite e o que foi levado ao público?

Recebo com imensa honra e alegria porque Manaus era um sonho para mim porque não conhecia esse pedaço do Brasil. Eu procurei mostrar que toda vez que a gente age com ódio, alimentando o preconceito seja ele contra o negro, o indígena, o nordestino, a gente age a favor da indústria bélica, da indústria da guerra, da indústria da morte. Toda vez que a gente combate esse estereótipo a indústria bélica tem a perder e nós a ganhar. As pessoas dizem que os refugiados estão longe, mas não, tudo está interligado. A mesma dor do refugiado de lá a gente tem no Brasil e quando a gente dá voz, a gente traz paz. O ódio é aglutinador, o amor dá mais trabalho.

Uma vida profissional muito rica

Lucia Helena Issa é paulista, jornalista e especialista em Linguagem e Semiótica, pela Università di Roma, na Itália. É autora de “Cerejas do Comandante”, que fala sobre a vida em Cuba, do livro-reportagem " Quando amanhece na Sicília...", premiado no Brasil e na Itália, sobre a luta das mulheres e da sociedade civil contra a máfia na Itália, onde entrevistou mais de 120 mulheres, e “Filhas da Esperança”, que ainda será lançado. A jornalista já viveu em Londres, Havana e em Roma, de onde colaborou com alguns dos principais veículos do Brasil. Esteve em mais de 80 países, alguns deles devastados por guerras recentes e reportados por ela, in loco, tais como Síria, Palestina, Kosovo e Líbano. Atualmente mora no Rio de Janeiro, onde é correspondente internacional e está terminando um novo livro-reportagem, sobre mulheres do Oriente Médio que lutam pela paz. Em outubro de 2018 recebeu o prêmio Embaixadora da Paz , outorgado em Pari, além da Medalha Marielle Franco, outorgada pelo Olodum e pela cidade de Salvador em 2018, Prêmio Recife de Liberdade de Expressão, outorgado em 2015 e Prêmio Estrella de Sur, outorgado no Uruguai em 2018 pelo seu trabalho na fronteira da Síria.

Repórter de A Crítica

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