Quinta-feira, 03 de Dezembro de 2020
TEORIAS

Josué Neto sugere que China criou coronavírus para lucrar com vacinas

Pesquisadores acendem alerta para o perigo da desinformação e politização da pandemia em tempos que ela ainda precisa ser combatida



50516770327_bc53a0d76a_c_31A1329F-8711-41FA-99C2-C2D988723852.jpg (Foto: Elisa Garcia Maia/Aleam)
23/10/2020 às 10:20

O presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM), deputado Josué Neto (PRTB), embarca na politização da pandemia do novo coronavírus e propaga desinformação nas redes sociais sobre a vacina desenvolvida pela farmacêutica Sinovac em parceria com instituto Butantan, do governo de São Paulo, a Coronavac.

Nesta quarta-feira (21), o presidente da Assembleia publicou no twitter que é uma coincidência o novo coronavírus ter surgido na China e o mesmo país ter criado uma vacina. Sugerindo sem provas que a China criou o vírus para lucrar economicamente.



"Esse é o famoso NEGÓCIO DA CHINA: na China nasceu a doença e na China criou-se a vacina. Tem forma melhor de ficar Trilionário? Detalhe, trilionário com milhares de mortes #PENSA", digitou Josué Neto.

Na segunda-feira (19), o parlamentar fez circular um texto de sua autoria em um aplicativo de mensagem em que ele se posiciona contra uma provável proibição de frequentar espaços públicos por pessoas que não tomarem a vacina contra a covid-19. Neto repetiu a retórica inflamada do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e acusou João Amoêdo, líder do Partido Novo e o governador de São Paulo, João Dória (PSDB-SP), de estarem “obrigando o povo a tomar vacina”.

Na ocasião, Josué Neto voltou a chamar o novo coronavírus de "vírus chinês" e empregou erroneamente termos como "liberdade individual" e "imposição autoritária" para forçar a narrativa de suposta violação de direitos. 

“João Amoêdo, do Partido Novo, deseja que os brasileiros que não tomarem a vacina contra o Covid-19 fiquem proibidos de frequentar espaços públicos. Assim como o Dória ditador de SP está obrigando o povo a tomar vacina. No que depender de mim, nosso povo do Amazonas, não terá seu direito de ir e vir restringido por não ter tomado vacina. Pior que o Vírus Chinês é um cidadão de bem, um pai e mãe de família ter sua liberdade retirada porque optou por não tomar vacina. A responsabilidade individual do cidadão e seu amor  ao próximo fará com que, no momento certo, tome voluntariamente a futura vacina contra o COVID-19. Sou totalmente contra a imposição autoritária para o cidadão de bem, de tomar vacina. A Liberdade é nosso maior bem”, escreveu Neto.

O presidente do Legislativo estadual já havia ironizado a doença em abril, quando anunciou a sua filiação ao Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB). “É um momento difícil não só de Manaus, nem do Brasil, mas inclusive de países desenvolvidos, de primeiro mundo, onde já se tem mais de 40 mil mortos no planeta por conta desse ‘vírus chinês’”, disse Josué na ocasião.

Acometido pela covid-19, Josué Neto anunciou que teve uma "recaída" da doença e que ficou com 25% do pulmão comprometido. O deputado se tratou no hospital da rede Samel e respondeu bem ao tratamento.

A CRÍTICA questionou a embaixada da China no Brasil sobre as declarações de Josué Neto e se elas significariam algum entrave para investimentos do país no Amazonas, mas não obteve resposta.

Indagado se as declarações seriam uma tentativa de capturar apoio da base bolsonarista, Josué Neto pediu para a reportagem interpretar "da forma que quiser".

O titular da embaixada chinesa, embaixador Yang Wanming, chegou a responder de forma dura e provocativa a uma acusação feita pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, de que a ditadura chinesa ocultou a gravidade da pandemia do novo coronavírus, impossibilitando que pessoas se prevenissem. "Contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizades entre os nossos povos", rebateu Wanming.

Discurso politiqueiro

O cientista e doutorando do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Lucas Ferrante, que possui artigos de impacto científico sobre a pandemia na Amazônia publicados nas revistas científicas Nature e Science, explica que estudos científicos publicados nas mesmas revistas por outros grupos de pesquisadores comprovaram que o novo coronavírus surgiu “naturalmente” na natureza, não sendo criado em laboratório, onde os estudos não detectaram edição “genética do vírus”. O professor esclarece que os coronavírus são “zoonoses” (doença infecciosa transmitida de animal para humano) e que “salto zoonóticos” são normais quando se aumenta a “degradação ambiental” e o “contato com animais silvestres”. 

“Um estudo publicado na revista Science que mapeou geneticamente o novo coronavírus e descobriu-se nesse estudo que o vírus não sofreu edição genética, caso esse vírus tivesse sido criado em laboratório seria observado no DNA do vírus, um processo de edição genética que não foi observado”, evidencia o pesquisador.

Para o pesquisador, que participou de uma reunião pública em junho, envolvendo outros pesquisadores sobre a pandemia, na ALE-AM, presidida por Josué Neto, falar que o coronavírus foi criado em laboratório é uma “tentativa burra” de politizar a doença. 

Lucas Ferrante defendeu que a imunização da população por uma vacina efetiva é a única saída para pandemia. Para ele, falar mal da vacina “é um desrespeito aos pesquisadores brasileiros” que estão inseridos na produção da dela. 

“O fator mais importante é que esta é uma vacina produzida com parceria com o Instituto Butantan situado em São Paulo, que é um Instituto Brasileiro e referência mundial na produção de vacinas. A qualidade das vacinas produzidas pelo Butantan é incontestável, falar mal desta ou qualquer outra vacina com participação deste instituto é falar mal da produção brasileira e não chinesa (...) Esses políticos que dão esse discurso politiqueiro, ideológico, colocam em risco a população. Isso é extremamente complicado nesse momento de pandemia. E isso tem que ser considerado pela população ao escolher esses representantes”, esclareceu.

Fenômeno

A professora doutora em comunicação social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Ivânia Vieira, analisa que o fenômeno da politização da pandemia acompanhado da desinformação nas redes sociais encabeçado por figuras políticas “serve a interesses gigantescos”.

“Desqualificaram a ciência, zombaram e ignoraram dos protocolos médico-sanitários e, por correspondência, das instâncias da área de saúde de seus próprios governos, das instituições de pesquisa. Ataques e ameaças à direção da Organização Mundial de Saúde (OMS), como fez Trump, não são teimosia, ignorância ou bizarrice e sim o vale-tudo para garantir, mesmo em cenário de área movediça, ganhos econômicos e político-eleitorais”, descreveu

No episódio da vacina da Sinovac, a professora atribui o comportamento do Brasil à uma “pequenez” para melhor servir aos “interesses estadunidenses e, ironicamente, o faz ao mesmo tempo em que é golpeado pela política econômica de Trump”.


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