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Cotidiano
Aprovados para 2ª fase

Jovens do Amazonas que cumprem medidas socioeducativas participam da OBMEP

Os dois jovens participam hoje da nova fase da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas 10/09/2016 às 12:32 - Atualizado em 10/09/2016 às 12:43
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Após passado de crime, jovens miram educação para mudar o futuro. Foto: Evandro Seixas
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Os estudiosos dos cálculos dizem que você só aprende matemática construindo de parte em parte e, às vezes, demora-se anos para se construir um todo. E construir uma nova vida é o objetivo de dois jovens que cumprem medidas sócioeducativas no Centro Dagmar Feitosa e que foram classificados para a segunda fase da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Neste sábado, eles participam da segunda etapa do exame também naquele complexo de correção.

Aos 18 e 19 anos, ambos cumprem medidas socioeducativas por roubo majorado (realizado com arma de fogo) e homicídio, respectivamente, sendo que o segundo é natural do Município de Boca do Acre (a 950 quilômetros de Manaus). Eles estudam na Escola Estadual Josefina Melo, que funciona nas dependências da Dagmar Feitosa e ministra aulas a internos das unidades sócioeducativas do Estado. “A iniciativa de participar da primeira fase da Olimpíadas partiu dos próprios jovens”, relata o diretor da instituição, Antônio Lima.

O mais jovem deles entrou na Dagmar Feitosa com 17 anos, em abril passado e, durante a semana completou 18, estando a apenas 1 mês de voltar à liberdade da medida de seis meses que lhe foi imposta. “Estar classificado para a segunda etapa me deixa feliz. Foi muito esforço e muito estudo. Estou estudando para passar novamente e o esforço vai ser maior ainda para  conseguir ir para a terceira fase”, diz ele.

O jovem disse que sempre gostou de matemática e que ela é sua disciplina preferida. “Gosto de somar as coisas, de subtrair e multiplicar as coisas. Pra tudo nós precisamos da matemática nos nossos dias. Não a considero um ‘bicho-papão’: eu aprendo rápido”, diz ele, que sonha mais alto. “Quero ser um estagiário, um professor de Matemática ou, então, entrar no Exército”.

Para o jovem, a Olimpíada de Matemática é a oportunidade de recomeçar a vida após o delito que cometeu. “Essa é a minha chance de recuperação definitiva. Mudei muita coisa, o meu jeito de ser, parei de falar em gíria, de usar drogas, essas coisas”, relata o jovem, que é casado e tem um filho.

Segunda chance

Com o jovem de 19 anos de Boca do Acre, que integra o regime de semi-liberdade, ser classificado para a segunda etapa da Olimpíada de Matemática é “uma chance na vida, um motivo de felicidade e a oportunidade para mostrar às pessoas que não é só porque eu cometi um ato que eu sou um merda, um nada?”. Ele frisa que tem condições de passar em cursos e seguir várias profissões e esquecer o passado.

Marta Nery da Silva,  professora de Matemática

“Eu gosto desse trabalho, além do que também sou assistente social. É um trabalho que me encanta. Sei que eles têm problemas familiares, sociais, psicológicos, mas é muito bom saber que nós podemos contribuir pelo menos um pouco, e principalmente, na parte da Educação, que é o conteúdo programático que todo aluno normal que não esteja num sistema desse, passa. Me sinto orgulhosa disso. Eu represento os professores de Matemática que fazem parte desse sistema socioeducativo. Nós trabalhamos com os alunos visando o melhor para eles. Quando soubemos que iria haver essa Olimpíada a gente se focou nisso, buscou os conteúdos, preparou os alunos para isso. Fomos nós que aplicamos a primeira etapa da Olimpíada com os alunos aqui mesmo na Dagmar Feitosa. Os alunos com medidas socioeducativas têm muitas dificuldades, pois muitos deles passam anos sem estudar”.

Exame tem 16 mil no Amazonas

As provas da segunda fase da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) serão aplicadas neste sábado às 14h30 (horário de Brasília). Aproximadamente 900 mil estudantes da rede pública de todo o País participarão das avaliações. Somente no Amazonas, 16.678 estudantes de 413 escolas públicas estaduais foram selecionados para a última fase da competição.

Como ocorre em anos anteriores, em 2016, a OBMEP foi organizada em duas fases. Na 1ª, realizada em 7 de junho, as provas foram compostas por 20 questões de múltipla escolha. A 2ª fase, para os alunos classificados na 1ª avaliação, contará com provas dissertativas.

Em sua 12ª edição, a OBMEP é coordenada no Amazonas pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e a mobilização para participação dos estudantes conta com o apoio da Secretaria de Estado de Educação e Qualidade do Ensino (Seduc).

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