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Jovens do Amazonas com HIV/Aids reaprendem a viver com apoio de Associação

Cerca de 287 crianças já nasceram com o vírus da Aids, no Amazonas, entre os anos 1980 e 2013. No mesmo período, 1.946 casos de jovens de 15 a 24 anos foram diagnosticados com a doença 29/11/2014 às 11:49
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Gabriela* tem o sonho de ser uma chef de cozinha
Luana Carvalho Manaus (AM)

Com postura de uma mulher determinada e olhar de menina sonhadora, aos 18 anos, Gabriela* carrega uma história de vida diferente da maioria das jovens da idade dela. Ela nasceu com o vírus HIV/Aids, foi deixada pela mãe em um abrigo para crianças soropositivas aos quatro anos de idade e hoje corre atrás do sonho de se tornar uma chef de cozinha.

A jovem é uma das 287 crianças que nasceram com o vírus da Aids, no Amazonas, entre os anos 1980 e 2013. No mesmo período, foram diagnosticados 1.946 casos de jovens de 15 a 24 anos com Aids. Os dados são do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde.

Quem vê Gabriela não imagina que ela teve pneumonia cinco vezes, se curou de tuberculose, sofreu de bronquite e outras complicações respiratórias. “Minha mãe não aceitava a doença dela e também não me aceitou. Por falta de informação e condições para o tratamento, ela preferiu me deixar no abrigo Casa Vhida, onde todos me receberam de braços abertos”, conta Gabriela.

Ela viveu no local até os 16 anos, quando o Juizado da Vara da Infância e da Juventude estipulou que as crianças fossem encaminhadas para a fila de adoção ou de volta às famílias, como foi o caso de Gabriela. “Minha mãe me deixou de lado e por isso eu não fazia questão da presença dela. Hoje nós nos falamos, mas é apenas de ‘oi e tchau’. Eu quero mudar isso, porque não suporto mais viver nesse clima chato entre mãe e filha”.

Além do desejo de se reconciliar com a mãe, Gabriela tem outras metas, como “viajar bastante e comer muita comida boa”. Ela está cursando o Ensino Médio, pretende fazer faculdade de Gastronomia e, às sextas-feiras, faz curso de inglês. “Hoje eu tenho um emprego de babá. Cuido de três crianças, sendo que duas também têm o vírus HIV”, comentou.

A jovem também gosta de sair para festas, mas o círculo de amizades se limita aos jovens que também são soropositivos. “Esse é meu ambiente, é como eu vivi a vida inteira. É muito difícil e doloroso fazer novas amizades, porque apesar de ser uma coisa boa, nunca sei como me abrir e dizer que tenho Aids. Por isso prefiro a companhia daqueles que passam pela mesma coisa que eu”, explica.

Decepção

Casar e ter filhos não fazem parte dos planos da jovem. Ela conta que se relacionou apenas uma vez, na adolescência, mas rompeu o relacionamento sorodiscordante (quando um dos parceiros não foi infectado com o vírus) por causa do preconceito da família do namorado. “Ele sabia, gostava de mim. Mas a família dele nos afastou. Na época eu fiquei doente demais e deprimida, não quis levar adiante”. Desde então Gabriela procurou não se envolver com outra pessoa. “Eu saio, mas raramente beijo alguém e não transo. Eu preciso conhecer muito a pessoa para me entregar”, comentou.

Atualmente, a jovem coordena um grupo chamado “Vida Positiva”, na Associação de Apoio à Criança com HIV (AACH), mais conhecida como Casa Vhida “Nossas reuniões acontecem uma vez ao mês, nos sábados, para promover palestras, bate-papos e passeios”.

Ela também está no meio do processo para se tornar voluntária na Rede Amizade e Solidariedade às Pessoas com HIV/Aids, ONG que atua na defesa dos direitos de pessoas convivendo com o vírus e desenvolve um trabalho de acolhimento na Fundação de Medicina Tropical do Amazonas.

A dura descoberta da doença na juventude

O ano de 2008 foi um dos piores da vida de Gustavo*, que tinha apenas 18 anos quando descobriu que era portador do vírus HIV/Aids. “Eu não desconfiava, não sei nem dizer como eu me senti na hora porque desmaiei e entrei em coma”, relata o jovem, hoje com 26 anos e em tratamento contra a tuberculose.

Bastante tímido, ele preferiu não ser identificado. “Alguns amigos meus sabem e outros não. Tenho um certo receio por causa do preconceito. Já aconteceu de eu estar conhecendo uma pessoa e contar sobre a doença e ela dizer que nada iria mudar entre nós. Mas no outro dia a pessoa desapareceu, não deu mais notícias”, contou.

O sofrimento, segundo ele, é muito maior quando um portador de HIV se apaixona por alguém que não tem o vírus. “Nem todo mundo quer ter uma pessoa soropositivo ao lado. Hoje em dia eu estou um pouco doente, o que dificulta minha vida social. Então só estou cuidando da minha saúde”.

Família

Ao descobrir ser soropositivo, Gustavo sentiu dificuldades e medo de contar para a família sobre a doença, como a maioria dos jovens infectados. “No início eles não souberam. Mas depois de duas semanas minha mãe desconfiou e me pressionou para que eu contasse. Foi muito difícil, tudo mudou depois daquele dia, principalmente minha rotina”, desabafou.

Apesar de ter algumas limitações e uma rotina diferenciada, Gustavo leva uma vida tranquila. Ao acordar, o jovem toma café da manhã, junto com os medicamentos, e pelo menos duas vezes por semana vai à Fundação de Medicina Tropical fazer acompanhamento médico. “É difícil, mas não é o fim do mundo. HIV não tem cura, mas tem tratamento. Basta saber se cuidar e querer levar uma vida normal sem desistir de viver”.

*nomes fictícios

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