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Cotidiano
Pra somar, e não subtrair!

Jovens do Centro Dagmar Feitosa participam da Olimpíada de Matemática hoje

Aos 18 e 19 anos, eles cumprem medidas sócio-educativas naquele centro e foram classificados para a segunda fase do evento destinado às escolas públicas; ambos estudam na Escola Estadual Josefina Melo, que funciona nas dependências da própria Dagmar Feitosa e ministra aulas a internos das unidades para recuperação do Estado 09/09/2016 às 21:39 - Atualizado em 10/09/2016 às 08:56
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Construir uma nova vida é o objetivo dos dois jovens que vão fazer a Olimpíada de Matemática hoje / Fotos: Evandro Seixas
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Os estudiosos dos cálculos dizem que você só aprende matemática construindo de parte em parte e, às vezes, demora-se anos para se construir um todo. E construir uma nova vida é o objetivo de dois jovens que cumprem medidas sócio-educativas no Centro Dagmar Feitosa e que foram classificados para a segunda fase da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Neste sábado, eles participam da segunda etapa do exame também naquele complexo de correção.

Aos 18 e 19 anos ambos cumprem medidas sócio-educativas por roubo majorado (realizado com arma de fogo) e homicídio, respectivamente, sendo que o segundo é natural do Município de Boca do Acre (a 950 quilômetros de Manaus). Eles estudam na Escola Estadual Josefina Melo, que funciona nas dependências da Dagmar Feitosa e ministra aulas a internos das unidades sócio-educativas do Estado.

“A iniciativa de participar da primeira fase da Olimpíadas partiu dos próprios jovens”, relata o diretor da instituição, Antônio Lima.

O mais jovem deles entrou na Dagmar Feitosa com 17 anos, em abril passado, e durante a semana completou 18, estando a apenas 1 mês de voltar à liberdade da medida de seis meses que lhe foi imposta.

“Estar classificado para a segunda etapa me deixa feliz. Foi muito esforço e muito estudo. Estou estudando para passar novamente e o esforço vai ser maior ainda para mim conseguir ir para a terceira fase”, diz ele.

O jovem disse que sempre gostou de matemática e que ela é sua disciplina preferida. “Gosto de somar as coisas, de subtrair e multiplicar as coisas. Pra tudo nós precisamos da matemática nos nossos dias. Não a considero um ‘bicho-papão’: pra mim eu aprendo rápido”, diz ele, que sonha mais alto. “Quero ser um estagiário, um professor de Matemática ou, então, entrar no Exército”.

Para o jovem, a Olimpíada de Matemática é a oportunidade de recomeçar a vida após o delito que cometeu. “Essa é a minha chance de recuperação definitiva. Mudei muita coisa, o meu jeito de ser, parei de falar em gíria, de usar drogas, essas coisas”, relata o jovem, que é casado e tem um filho. “É bom assim quando a família vem. Quando eles não vêm a gente fica triste, pela dificuldade pois nem sempre eles têm dinheiro pra vir, mas é assim mesmo”, conta ele.

Com o jovem de 19 anos de Boca do Acre, que integra o regime de semi-liberdade, ser classificado para a segunda etapa da Olimpíada de Matemática é “uma chance na vida, um motivo de felicidade e a oportunidade para mostrar às pessoas que não é só porquê eu cometi um ato que eu sou um merda, um nada?”.

Ele frisa que tem condições de passar em cursos e seguir várias profissões, e esquecer do passado.

Satisfação

Para a secretária executiva adjunta de Justiça dos Direitos Humanos e Cidadania, Socorro Cavalcante, a classificação dos dois jovens significa um momento de reflexão.

“Temos 61 meninos e 2 foram classificados, sendo um daqui e outro da semi-liberdade. Eles sabem que podem conseguir superar todas as dificuldades que vêm enfrentando por ter cometido um ato infracional grave. É um momento de reflexão, de oportunidade de estarem mostrando  o potencial que têm como alunos normais de outras escolas. Esse momento é de alegria e muito orgulho para todos nós pois mostra que nosso trabalho está no caminho certo”, disse ela.

O Sistema

No Amazonas, o sistema sócio-educativo é composto por cinco unidades, sendo três de internação, uma de internação provisória (quando o jovem vem da delegacia e fica aguardando a aplicação da medida pelo juiz) e outra de semi-liberdade (depois que cumpre a medida de internação que o juiz determina uma medida de cumprimento de liberdade assistida, onde fica por um período sob a responsabilidade do Estado, e frequenta escola regular fora da unidade e também os cursos profissionalizantes em parceria com o Cetam.

BLOG

Marta Nery da Silva,  professora de Matemática da Escola Estadual Josefina Melo

“Eu gosto desse trabalho, além do que também sou assistente social. É um trabalho que me encanta. Sei que eles têm problemas familiares, sociais, psicológicos, mas é muito bom saber que nós podemos contribuir pelo menos um pouco, e principalmente, na parte da Educação, que é o conteúdo programático que todo aluno normal que não esteja num sistema desse, passa. Me sinto orgulhosa disso. Eu represento os professores de Matemática que fazem parte desse sistema sócio-educativo. Nós trabalhamos com os alunos visando o melhor para eles. Quando soubemos que iria haver essa Olimpíada a gente se focou nisso, buscou os conteúdos, preparou os alunos para isso. Fomos nós que aplicamos a primeira etapa da Olimpíada com os alunos aqui mesmo na Dagmar Feitoza. Os alunos com medidas sócio-educativas têm muitas dificuldades pois muitos deles passam anos sem estudar. Temos alunos que já passaram 6, 5 anos sem pegar num lápis. Então, quando eles pegam nu lápis, verificamos que eles têm dificuldades de escrita, até de manusear o próprio lápis. Então somos nós, professores, que vamos num processo de muita paciência e dedicação, começando bem dizer do zero com eles. Já com outros não, pois vêm bem preparados, uns deles com evolução muito significativa, onde a gente até se surpreende, aconselha, e são até mais incríveis que os nossos alunos do ensino normal, é impressionante. Não sei se é porquê temos menos alunos e a aula fica mais direcionada a eles. Eu por exemplo falo muito para os meus alunos: ‘Pôxa, você é muito inteligente, e se quiser vai ser um grande doutor’.  

Provas terão 16 mil alunos no AM e 900 mil em todo País

As provas da segunda fase da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) serão aplicadas neste sábado, às 13h30 (horário de Manaus). Aproximadamente 900 mil estudantes da rede pública de todo o País participarão das avaliações. Somente no Amazonas, 16.678 estudantes de 413 escolas públicas estaduais foram selecionados para a última fase da competição.

Como ocorre em anos anteriores, em 2016, a OBMEP foi organizada em duas fases. Na primeira, realizada no dia 7 de junho, as provas foram compostas por 20 questões de múltipla escolha. A segunda fase, para os alunos classificados na primeira avaliação, contará com provas dissertativas.

Em sua 12ª edição, a OBMEP é promovida anualmente pelos Ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação e Ministério da Educação (MEC), em parceria com o Instituto Nacional de Matemática Pura Aplicada (Impa) e Sociedade Brasileira de Matemática (SBM). No Estado do Amazonas, a coordenação da olimpíada é feita pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e a mobilização para participação dos estudantes conta com o apoio do Governo do Estado por meio da Secretaria de Estado de Educação e Qualidade do Ensino (Seduc).

Neste ano, as escolas da rede pública estadual da capital e do interior do Amazonas tiveram adesão total à olimpíada. Segundo o gerente do Ensino Fundamental dos Anos Finais e coordenador da olimpíada na Seduc, professor Eriberto Façanha, a ampla divulgação nas escolas favoreceu a participação efetiva dos estudantes na competição.

“A rede pública estadual do Amazonas tem avançado positivamente, a cada ano, nas provas da OBMEP. A cada edição, os nossos estudantes têm alcançado um número favorável de medalhas de ouro, prata e bronze, além de menções honrosas na competição. A tendência é que nessa edição, esses números possam aumentar, uma vez que realizamos um trabalho muito importante na divulgação da olimpíada tanto na capital quanto no interior, em parceria com a Universidade Federal do Amazonas e também na preparação dos nossos professores, por meio de encontros pedagógicos, a fim de que eles pudessem desenvolver atividades com os alunos voltadas para as questões avaliadas na competição, como o raciocínio lógico e pensamento matemático”, explicou o professor Eriberto Façanha.

Grupos de Trabalho

Em uma ação mais direcionada, a Seduc por meio de seu Grupo de Trabalho (GT) de Matemática, formado por professores especializados na área, neste ano, passou a atuar mais diretamente na divulgação da OBMEP entre os professores e estudantes da rede estadual.

Conforme o coordenador do GT de Matemática na Seduc, Nilo Sena, a divulgação da olimpíada foi um dos pontos mais trabalhados pela equipe de professores, dada a importância da competição. “Em parceria com a Ufam, coordenamos um trabalho de divulgação da OBMEP junto aos professores e estudantes da rede estadual, buscando destacar a importância da competição e mobilizando-os a participarem mais ativamente da olimpíada, já que uma das premiações da OBMEP, dá ao aluno a oportunidade de estudar fora do Estado, em um dos institutos mais renomados do país, o Instituto Nacional de Matemática Pura Aplicada (Impa)”, afirmou.

Premiações

A 12ª edição da OBMEP premiará estudantes com medalhas de ouro, prata, bronze e menções honrosas. Também serão premiadas escolas e as Secretarias de Educação que se destacarem em virtude do desempenho dos alunos.

Na edição de 2015 da OBMEP, a rede pública estadual de educação do Amazonas conquistou quatro medalhas de ouro, 13 de prata e 86 de bronze, totalizando 103 medalhas, além de 582 menções honrosas.

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