Quarta-feira, 22 de Setembro de 2021
NOVA ESPÉCIE

Lares amazonenses são 'invadidos' por lagartixas que podem se clonar

Sob o nome científico 'Lepidodactylus lugubris', a nova espécie de lagartixa emite sons mais altos que o comum; além de ser mais 'corajosa' por chegar perto de restos de comida para se alimentar



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24/07/2021 às 05:44

Você com certeza já deve ter visto este animal andando pelas paredes de sua casa. A osga, como é conhecida popularmente na região amazônica, é uma espécie de lagarto pequeno que pode chegar a ter de 2 a 17 centímetros de comprimento. Inofensiva, a largatixa-doméstica-tropical se alimenta de insetos e aracnídeos como baratas e aranhas; além de conseguir se agarrar em diferentes superfícies, como paredes e madeira.

Mas, toda essa convivência "pacífica" com os humanos pode estar com os dias contados nos lares amazonenses. Isto porque a espécie mais comumente encontrada na capital - a Hemidactylus mabouia - está perdendo sua hegemonia para dar espaço a nova espécie que vem chegando do continente asiático: a Lepidodactylus lugubris.




Uma característica diferente na L. lugubris é apresentar 'linhas' pertos dos olhos (Foto: Igor Kaefer)

Em entrevista exclusiva ao A CRÍTICA, o biólogo e doutor em ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Igor Luis Kaefer, afirma que dezenas de pessoas residentes em todas as cinco zonas de Manaus têm relatado a existência dessa nova espécie em suas casas. Muitos relatam ainda que se assustaram com o barulho alto que a L. lugubris faz. Apesar disso, o pesquisador ressalta que a emissão do som é algo natural do animal.

"O barulho (vocalização) não é causado necessariamente pela invasão. A espécie produz esse barulho em todos os lugares em que ocorre, inclusive onde é nativa. Essa espécie já invadiu muitos países, incluindo Américas do Norte, Central e do Sul. Mais recentemente foi registrada na Bahia e no Pará, e agora no Amazonas", afirma o professor de biologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Segundo Kaefer, existe a possibilidade dos lares amazonenses estarem se tornando palco de um conflito entre duas espécies semelhantes. "Não sabemos se há conflito entre as espécies, mas penso que pode haver uma vez que elas são ecologicamente similares e podem estar competindo por recursos como alimento e abrigo", acrescenta.


Igor Luis Kaefer é  biólogo e doutor em ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Saúde dos pets

A pesquisa, que está no estágio inicial, ainda não é capaz de informar se a chegada da espécie asiática em Manaus pode implicar na saúde humana. Entretanto, animais de estimação como gatos podem ser impactados pela presença da L. lugubris.

"O cotidiano dos amazonenses pode ser impactado pela presença de uma espécie mais "corajosa" e mais barulhenta. Até agora não sabemos de implicações diretas para a saúde humana, mas a saúde de outros animais como felinos (gatos) pode ser impactada pela platinosomose, uma doença transmitida por lagartixas e causada por um parasita que pode causar doenças hepáticas nos gatos", comenta o pesquisador.

Como identificar

Apesar de serem visualmente muito semelhantes, o professor explica que uma forma de conseguir diferenciar as duas espécies é que a L. lugubris tem o corpo e cabeça mais delgados, além de apresentar uma listra escura na lateral da cabeça. A espécie asiática possui ainda o hábito de enrolar e desenrolar a cauda lateralmente em situações de estresse, característica não apresentada pela H. mabouia. Entretanto, Igor Kaefer ressalta que a principal característica de diferenciação é o barulho muito mais alto que a nova espécie emite.

Reprodução por clonagem

Outra característica curiosa que a Lepidodactylus lugubris apresenta é a forma de reprodução. Segundo o pesquisador, estas lagartixas não precisam de machos para procriar, a espécie gera "clones" dela mesma.

"Os indivíduos são todos fêmeas e se reproduzem por partenogênese. Ou seja, as fêmeas não precisam de machos para reproduzir, gerando filhotes clones idênticos. Manaus pode estar vivendo uma 'invasão' dos clones de lagartixas", destaca Kaefer.

Espécie 'turística'

A primeira vez que a lagartixa de origem asiática foi encontrada em terras brasileiras foi em julho de 2014, quando os pesquisadores do Museu Goeldi Teresa Cristina Avila-Pires e Marinus Hoogmoed observaram um exemplar da espécie de Lepidodactylus lugubris na varanda de seu apartamento, em uma esquina da Av. Pedro Álvares Cabral, próximo à zona portuária de Belém (PA). Igor Kaeger conta que a espécie possivelmente tenha chegado à capital amazonense da mesma forma.

"Essa espécie que é originária da Ásia pode ter chegado da mesma forma que chegou em Belém. Talvez ela possa ter vindo durante o transporte de cargas em alguma embarcação via Porto de Manaus, ou até mesmo em cargas vindas no aeroporto", destaca.

Pesquisas em andamento

Questionado pela A CRÍTICA se já um levantamento de quantas animais dessa nova espécie podem estar em Manaus, Igor Kaefer - integrante do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Ecologia do INPA - contou que está sendo elaborado um projeto em parceria com outras instituições de pesquisa para estudar mais afundo esse fenômeno na Amazônia.

"Nosso grupo de pesquisa está iniciando um estudo de longo prazo envolvendo a Ufam, Inpa e a Ufra [Universidade Federal Rural da Amazônia, no Pará] para fazer o levantamento da extensão da área de ocupação da espécie Lepidodactylus lugubris, bem como as interações da espécie com as que já existiam nas residências. Certamente teremos novidades científicas sobre essa invasão nos próximos meses", anunciou.

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Repórter de A Crítica
Amazonense, nascido e criado em Manaus. Graduado em Jornalismo e mestrando em Antropologia Social, ambos pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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