Quarta-feira, 08 de Abril de 2020
DIA DO PROFESSOR

Dia do Professor: conheça a história de quem atua repassando conhecimentos

O Portal A Crítica conta hoje a história de mestres que guiam os outros ao empoderamento e à cidadania



li__es_9A14A78D-D546-40BA-ABF2-7E84D2C5B955.JPG Foto: Junio Matos
15/10/2019 às 07:23

Hoje é comemorado o Dia do Professor, este personagem da vida que muito nos ensinou e ensina. Geralmente, a data simboliza quem é talhado para exercer o magistério e que tem o fino trato da Educação em salas de aula ou fora dela. No entanto, o Portal A Crítica aproveita para homenagear também os autodidatas do conhecimento, que não são formados na academia, mas que são referência em ensinar algumas das coisas mais valorosas para o ser humano: lições de humanidade, amor ao próximo e solidariedade.

Alguns trazem na bagagem lutas herdadas de seus antepassados, como a índia dessana Deolinda Freitas Prado, 69, fundadora da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn), entidade existente desde 1987 e do qual hoje ela é vice-presidente. Tendo estudado apenas até o 3º ano primário, ela compensa sua ausência de escolaridade com a sabedoria de liderança indígena aliada ao dom de ensinar a tear e fazer grafismos em artesanato do seu povo, na sede localizada na rua 6, nº 156, do conjunto Vilar Câmara, Zona Leste. Entre os indígenas ela é conhecida como “mulher sábia” com toda justiça e reverência.



Da etnia tariano, Lucineia Vasconcelos Cardoso, 42, é uma das indígenas que trata dona Deolinda como uma verdadeira mestre. “Ela quem me ensinou a tecer e representa nossa mãezona, nosso espelho, a nossa professora da vida aqui na associação. É referência de todas as mulheres indígenas que vêm aqui pedir ajuda, orientação. Chegando aqui ela recebe as mulheres e vai ensinando a elas. Quando cheguei aqui, vinda de São Gabriel da Cachoeira, eu não sabia nada, mas aprendi o artesanato com ela. Dona Deolinda nos incentiva a trabalhar”, disse a tecelã, que tem 25 anos em Manaus.

Sereia da água

Deolinda traz também o nome Diacarapó, que em tupi-guarani significa “Sereia da Água”, em nomenclatura benzida entre os dessanas de São Gabriel da Cachoeira, onde nasceu e foi criada até, após idas e vindas, e trabalhar na roça, cozinhar e tecer redes, passar a ter Manaus como residência fixa.

Na associação que ela fundou, as indígenas não aprendem somente a tecer e a falar línguas como o tucano, mas também a correr atrás de seus benefícios – como aposentadorias e auxílio-maternidade - e defender seus direitos, além de ter consultoria jurídica.

“Deolinda é uma das referências de liderança indígena feminina que temos. Com ela aprendemos muito, é uma mestra e tem o saber de antigamente. Tem o conhecimento nato, mais do que nós”, destaca Joana Montanha Galvão, que é professora de língua dessana da rede municipal de ensino e está há cinco associada à Amarn.

“Antes éramos discriminadas, não tínhamos voz. Antes nossas parentes até diziam que eram peruanas porque falamos dessa forma”, diz Deolinda.

Apesar de toda humilde, característica comum aos verdadeiros mestres, ela diz ter consciência de que, com sua atuação, está ensinando seu povo a lutar por dias melhores e em busca de aperfeiçoamento. “Eu ensinei pra elas até o trabalho, e depois trabalhar particularmente em suas casas, para vender e melhorar sua situação. Não é só ensinar, aprender e deixar de lado, mas aperfeiçoar nosso aprendizado”, ensina a “professora da vida”.

Ensinado a ser cidadão

Algumas pessoas ensinam a coletividade a lutar pelos seus direitos, cobrar providências das autoridades e punição a quem faz desmandos.

É o que faz há mais de 20 anos o ex-motorista de ônibus Luiz Odilo Souza Reis, 64, fundador e presidente do Instituto Amazônico de Cidadania (Iaci). Ele acompanha e fiscaliza a aplicação recursos públicos municipais, estaduais e federais, colecionando conquistas para a coletividade após constantes representações junto a órgãos de controle.


Há duas décadas Luiz Odilo  ensina comunitários a buscarem seus direitos. Foto: Junio Matos

“Há várias e várias conquistas de pessoas comuns, como nós. Não somos graduados, mas o diferencial é que temos apoio de alguns professores-doutores aposentados da universidade, que nos assessoram em temas específicos”, diz ele, que já denunciou de vereadores a juízes e desembargadores.

Transforma limitações em vitórias

Joaquim Manuel Pinheiro Filho, 60, é diferente de dona Deolinda e de seu Odilo por ter formado acadêmica: é professor de Educação Física formado em 1986 pela antiga Universidade do Amazonas (hoje Ufam), fisioterapeuta e pós-graduado em Educação Especial. No entanto, se assemelha aos dois personagens anteriores por deixar legados além de conhecimento: ele descobriu e treinou paratletas campeões no Amazonas em provas como natação e corridas, entre eles Everaldo Mesquita, cego que é o maior nadador paradesportivo do Estado e que de 1995 a 2004 dominou as piscinas locais.

Nascido em Itacoatiara (a 110 quilômetros de Manaus), Joaquim Filho trabalha com esporte de alto rendimento para pessoas com deficiência há 36 anos e tem sete convocações para competições internacionais. Mais de 100 paratletas passaram pelas suas mãos e seu conhecimento ajudou esses mesmos competidores a conquistar cerca de 700 medalhas em eventos nacionais e internacionais. De segunda a sexta ele atua no Colégio Militar da Polícia Militar instalado na Compensa (CMPM8)


Joaquim trabalha com esporte de alto rendimento para PCDs há 36 anos. Foto: Junio Matos

“Quando me chamam de professor eu me sinto feliz, porque um professor na vida de uma pessoa, seja ele criança, jovem, adolescente ou adulto, é alguém que ele reconhece que seja, tipo um tutor para ele. Muitas vezes, quando se fala de gratidão, ele acaba sendo uma pessoa importante na vida de um cidadão, verdadeiramente”, frisa o mestre do paradesporto.  Foram 12 anos como chefe de delegações amazonense em competições. A partir do dia 18 de novembro ele lidera a equipe que representará as escolas do Amazonas durante os Jogos Escolares Brasileiros Paralímpicos em São Paulo.

“O atleta tem uma vida rápida, mas o cidadão continua. E todos os atletas que eu formei são cidadãos e trabalhadores honestos. Homens de caráter ilibado. Me sinto feliz em fazer parte dessas vidas que me procuraram e confiaram no meu trabalho, na minha experiência e responsabilidade. Conheço um pouco da vida, tenho experiência e repasso esse conhecimento para os alunos”, ensina.

Repórter de A Crítica

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