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Cotidiano
Educação

Programa Expedição monta e mantém bibliotecas em municípios do interior

Realizado desde 2001, a iniciativa cria e mantém bibliotecas comunitárias como espaço de compartilhamento de saberes em Estados da Amazônia Legal 30/07/2017 às 13:00 - Atualizado em 30/07/2017 às 14:51
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Crianças de comunidade rural de Carauari se divertem com rodas de leituras (Fotos: Divulgação)
Silane Souza Manaus (AM)

A leitura empodera pessoas,  comunidades e possibilita a transformação social, além de auxiliar no desenvolvimento humano e escolar das crianças. É o que mostra a organização não-governamental Vaga Lume com o programa Expedição. Realizado desde 2001, a iniciativa cria e mantém bibliotecas comunitárias como espaço de compartilhamento de saberes em Estados da Amazônia Legal. No Amazonas, mais de sete mil pessoas são impactas pelo projeto. 

O professor Dijaik Nery de Souza é uma delas. Ele conheceu a Vaga Lume em 2002, quando o programa Expedição criou uma biblioteca no Centro de Educação Ambiental do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, em Tefé (a 523 quilômetros de Manaus). Na mesma ocasião, se tornou um voluntário da organização. “Sempre gostei de ler e queria que meus alunos também gostassem. Buscava forma diferente de incentivar a leitura e vi na Vaga Lume essa oportunidade”, conta.

Em 2007, a convite da Vaga Lume, Dijaik integrou uma comitiva que foi a São Paulo participar de uma formação para multiplicar a metodologia da organização. Quando voltou levou a mediação de leitura a dezenas de comunidades ribeirinhas no Solimões e, por sua atividade, a Secretaria de Educação de Tefé criou o cargo de Técnico para programas de Leitura, algo inédito no município. Ainda através dele, a Vaga Lume chegou ao município de Uarini (distante 565 quilômetros de Manaus). 

Hoje, o professor coordena a Biblioteca Pública Municipal de Tefé, aberta em 2012 graças a sua atuação junto a Vaga Lume, e desenvolve trabalho exemplar na formação de grupo de jovens que expande as atividades na cidade. “Eu acredito que a leitura valoriza o protagonismo desses jovens. Minha luta agora é implantar a cultura do livro na cidade de Tefé”, disse.

Dijaik Nery de Souza, coordenador da Biblioteca Pública de Tefé e do Programa Expedição no município

Em 2016, esse trabalho rendeu a Biblioteca Pública Municipal de Tefé – Protásio Lopes Pessoa o reconhecimento no 8º Premio Viva Leitura do Ministério da Cultura (Minc), onde recebeu um prêmio na Categoria Biblioteca Viva em Brasília, sendo homenageada como uma das cinco melhores iniciativas de desenvolvimento da leitura do país. Além disso, teve seu trabalho reconhecido também na participação no documentário Galáxias: http://vagalume.org.br/noticia/610/documentario-galaxias.

Outro exemplo é Margarida Almeida Brasil, indígena da etnia piratapuia que vive na ilha de Camanaus em São Gabriel da Cachoeira (a 852 quilômetros de Manaus). Ela sempre teve vontade de aprender a ler em português para se comunicar também com pessoas de outras regiões. E em 2002, quando a Vaga Lume chegou em sua comunidade, ela teve essa oportunidade e aprendeu a ler em português por intermédio dos livros de literatura enviados pela organização. 

Hoje, Margarida é professora em sua comunidade e em 2016 foi educadora da Vaga Lume no Programa Rede, que é uma iniciativa em que a Vaga Lume apresenta jovens das comunidades rurais da Amazônia, onde existem bibliotecas Vaga Lume, e jovens da cidade de São Paulo uns aos outros. A ideia é criar oportunidades para que eles possam se conhecer, conversar e trocar experiências sobre si mesmos e sobre suas relações com o meio onde vivem. 

Margarida Brasil (blusa roxa), piratapuia que vive em Camanaus, em São Gabriel da Cachoeira, participa de capacitação em SP

Números crescentes

As 37 bibliotecas Vaga Lume implantadas no Amazonas estão em comunidades ribeirinhas e rurais dos municípios de Tefé, Uarini, Barcelos, Carauari e São Gabriel da Cachoeira. No total, elas contam com mais de 27 mil livros de literatura em seus acervos, 32 cursos; 761 mediadores de leitura formados; 177 voluntários ativos; 56 livros artesanais.

Acervos municipais

O Município de Tefé tem oito  bibliotecas Vaga Lume e 4.562 livros;  Uarini (3 bibliotecas; 1.690 livros); Barcelos (9 bibliotecas; 7.193 livros); Carauari (11 bibliotecas; 8.213 livros) e São Gabriel da Cachoeira (6 bibliotecas; 5.636 livros). Todas estão operacionais.

Comunitários são capacitados por ong

Com o programa Expedição, a Vaga Lume promove o acesso à leitura em comunidades rurais da Amazônia. Isso acontece com a doação de livros de literatura, estantes e esteiras para a comunidade montar a sua própria biblioteca, com a capacitação de mães, pais, educadores – e quem mais se interessar – como mediadores de leitura, fazendo com que os livros saiam das prateleiras e cheguem até as crianças, jovens e adultos. 

Biblioteca Vaga Lume em comunidade ribeirinha de Tefé

O programa também incentiva a gestão comunitária dessas bibliotecas e para que tudo isso faça ainda mais sentido para as comunidades, a organização valoriza a cultura local incentivando rodas de histórias e capacitando a comunidade a escrever livros artesanais com as suas próprias histórias. “Para a pessoa entender o quanto a sua cultura é valiosa e pode ser compartilhada com outras pessoas, não pode ficar restrita a uma pessoa”, afirmou a educadora Aline Calahani.

Ela explica que a metodologia utilizada pela Vaga Lume se baseia no tripé: estrutura, capacitação e gestão, sendo que o triângulo é envolvido pela cultura local. Todo o trabalho é desenvolvido com a ajuda dos comunitários, das secretarias municipais de educação e apoio de órgãos parceiros. Atualmente, há bibliotecas Vaga Lume em 149 comunidades rurais de 23 municípios da Amazônia Legal brasileira. A expansão das atividades depende de novas parcerias. 

Os interessados podem acessar o site http://www.vagalume.org.br/ e seguir as instruções. Conforme Aline, pode colaborar tanto pessoa física como jurídica. 

Biblioteca Vaga Lume em comunidade de Uarini

Em números

De acordo com a educadora Aline Calahani, a Vaga Lume atua em um universo de mais de 25.605 crianças e jovens residentes em 149 comunidades rurais de 23 municípios da Amazônia Legal brasileira. Desde 2001, distribuiu 92.114 livros de literatura, formou mais de 4 mil mediadores de leitura e produziu 269 livros artesanais. 

Ela conta que a organização nasceu há 15 anos quando três amigas – Sylvia Guimarães, Maria Teresa Meinberg e Laís Fleury – decidiram viajar pelo Brasil para conhecê-lo melhor. Dessa experiência surgiu o desejo de fazer uma troca com os moradores de comunidades rurais da Amazônia. 

A ideia era promover uma troca de saberes, um intercâmbio cultural. Hoje, a organização é reconhecida nacional e internacionalmente por seu trabalho. Entre os reconhecimentos que recebeu estão o “Prêmio IPL - Retratos da Leitura”, 2016; “Prêmio Leitura para Todos”, do Ministério da Cultura, 2014; e o “Prêmio Inovação Intercultural, Aliança das Civilizações das Nações Unidas (UNAOC) e Grupo BMW”, 2011.

Biblioteca Vaga Lume em comunidade de São Gabriel da Cachoeira

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