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‘Luta árdua’, diz arcebispo de Manaus sobre reforma política

Dom Sérgio Eduardo Castriani garante que se população não se mobilizar, os políticos não farão as mudanças que o País precisa 30/12/2014 às 10:47
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Dom Sérgio Castriani diz que é uma pessoa otimista e, por isso, acredita que as reformas serão feitas de qualquer jeito
ivânia vieira Manaus (AM)

O arcebispo metropolitano de Manaus (AM), dom Sérgio Eduardo Castriani, está convicto: a reforma política no Brasil só sairá do papel se houver pressão efetiva da sociedade. O religioso tem um olho nas celebrações de fim de ano e outro na defesa da união dos vários segmentos para fazer valer o projeto de iniciativa popular pró-reforma. Para dom Sérgio Castriani, a vinda à tona de tantos casos de corrupção demonstra que o sistema representativo brasileiro se corrompeu e a democracia corre perigo. “Talvez esse quadro preocupante sensibilize a maioria de deputados e senadores a se comprometer de fato com a reforma”, projeta o religioso.

A mobilização dos vários setores sociais que tem na Conferência Nacional dos bispos do Brasil (CNBB) uma das organizações de liderança é, na avaliação do chefe da igreja Católica do Amazonas, uma possibilidade de mostrar que há consenso entre as várias instituições quanto à necessidade de fazer as várias reformas que o Brasil precisa e deve enfrentar. Dom Sérgio considera que um parlamentar, ao sentir a ameaça pairando sobre o mandato dele, repensará as posições que defende, como retardar a votação da proposta de reforma política. Auto-declarado como “uma pessoa de esperança” e sem ignorar o tamanho da responsabilidade e do trabalho que tem pela frente no convencimento das pessoas a assinarem a proposta de reforma, o arcebispo vê uma “luta árdua” no processo de reunir 1,5 milhão de assinaturas e de instaurar em um Congresso Nacional de perfil conservador o debate e a tramitação do projeto. “As pessoas falam muito, reclamam e condenam, mas não se dispõem a fazer gestos simples e possíveis como é o caso de assinar um projeto de lei de iniciativa popular”, afirma.

Pastoral

Nas missas, novenas e nos demais eventos religiosos, padres, freiras e leigos estão desde a metade deste ano em busca de assinaturas e são as responsáveis pela constituição de núcleos de coleta em diferentes áreas da cidade. “Nossa intenção é alcançar 500 mil a mais de assinaturas a fim de aumentar o peso dessa iniciativa”, diz o sociólogo e advogado Carlos Pires Santiago, representante da OAB-AM na Frente Pró-Reforma Política. Talvez, antecipa dom Sérgio Castriani, a reforma não saia tal qual estamos propondo, ainda assim mudanças importantes podem ser conquistadas. Para o arcebispo, é preciso ter humildade e não querer ser dono da verdade. O arcebispo defende disposição dos interessados nesse projeto ao diálogo com todos os setores da sociedade, em clima de liberdade e de responsabilidade “porque é por esse caminho que construiremos bons acordos sobre o Estado que queremos”. E completa: “As mudanças virão. Percebo consenso quanto ao fato de que as coisas não podem ficar como estão atualmente”.

Será necessário mobilização popular

Encontrar meios de envolver para uma maior e mais ativa participação popular é central nesse processo, de Reforma Polícia reconhece a ativista Francy Junior. “Para nós está claro que não conseguiremos avançar nas reformas que o País precisa, inclusive na reforma política, sem a mobilização, formação e a militância do nosso povo”.

A militante cita a fala da presidenta Dilma Rousseff ao indicar que a reforma necessita de algo como o ocorrido no período das “Diretas, Já!”. “Se olharmos a história brasileira, inclusive a história mais recente, veremos que as importantes transformações e avanços na democracia foram conquistados por meio da organização e mobilização do povo. Não será diferente com a reforma política. Temos que ir para as ruas, ocupar os espaços, discutir, propor, divulgar, invadir as redes sociais... Só assim teremos a reforma que queremos e não uma reforma meramente eleitoral", prega.

Mudanças climáticas estão na pauta

A longa seca em São Paulo mostra, na opinião do arcebispo de Manaus, que temas como o de mudanças climáticas são sérios e que as tragédias estão começando a acontecer. “O modelo de desenvolvimento predador e devastador originários em nome do progresso e do lucro vai cada vez mais relevando o seu lado perverso quando não criminoso”, adverte dom Sérgio Castriani para quem a voz da igreja Católica se soma a tantas outras que dizem estas coisas e denunciam obras faraônicas destruidoras do meio ambiente e da vida. A igreja, na opinião do religioso, tornou-se parte de uma grande corrente difícil de ser quantificada, mas que existe e aos poucos vai criando uma consciência global ecológica e de casa e destino comum da humanidade. Para dom Sérgio, vale a pena continuar com todos os esforços de articulação de grupos e organizações que estão empenhadas em salvar a Amazônia.

Duas perguntas para Dom Sérgio

1º Em 2013 os bispos pediram mais atenção e responsabilidade para com a Amazônia. O que aconteceu depois disso?

A CNBB publicou um documento sobre o Brasil depois das eleições. A Campanha da Fraternidade de 2015 terá o tema “Igreja, fraternidade e sociedade”. É importante que o maior número de pessoas leia esse documento. Eu mesmo estou estudando e refletindo sobre a publicação, que está na página www.cnbb.org.br

2º Em janeiro, governos e parlamentares assumem mandatos, o que a igreja irá fazer em termos de documento-compromisso para entregar aos governos federal e aos dos Estados Amazônicos e ao Congresso Nacional?

A Igreja por sua própria missão, mas também pela sua presença capilar em todo o País, não pode deixar de se preocupar e sugerir políticas públicas em favor dos excluídos e aí se incluem várias categorias. Como esquecer a situação de indígenas, quilombolas, sem terra, sem moradia, sem emprego? Como não ficar preocupado e tentar saídas diante do crime organizado que se sustenta do tráfico de drogas, de armas e de seres humanos? O que fazer diante de tanta corrupção e desvio de dinheiro público? A igreja também quer colaborar como é o caso da campanha para o teste do HIV, e participar de busca de soluções como acontece na questão carcerária.

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