Sábado, 16 de Janeiro de 2021
Finados

Luto: saiba como pedir ajuda para si e ajudar quem precisa

Após um ano da perda, pode ser necessário buscar ajuda profissional



935043-dia_de_finadosdsc_3111_27D9E82C-A4F4-48A3-9D93-C29024FE773D.jpg Foto: Agência Brasil
02/11/2020 às 08:12

Não existe um tempo certo para o luto: cada pessoa vai passar pela experiência de uma forma. E, de acordo com especialistas, nenhuma forma de atravessar este período de acostumar-se com a ausência deve ser julgada. "Há quem se cobre sobre o próprio reequilíbrio e não se julga autorizado a sorrir ou chorar, dependendo da situação", exemplifica  Milena Câmara, psicóloga e pesquisadora que atua no grupo de estudos International Working Group on Death, Dying and Bereavement (Grupo de Trabalho Internacional sobre Morte, o Morrer e o Luto).

A tendência é que os enlutados contem os dias um a um a partir da morte da pessoa. De acordo com as observações de Elaine Alves, professora da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora em emergências e desastres, os três primeiros meses tendem a ser os mais difíceis nesta construção da resiliência. Contudo, ela alerta que o ciclo do primeiro ano ainda tende a ser mais doloroso pois tudo acontece pela primeira vez, inclusive o Dia de Finados. "Nesse sentido, o Finados é uma data horrorosa porque é a primeira vez que a pessoa recebe essa homenagem. Ou seja, a morte é concretizada", pontua Elaine.



A psicóloga brasiliense Juliana Gebrim aponta, inclusive, que após este primeiro ano, com as dores no mesmo patamar, é necessário busca de ajuda profissional. Um sinal de que chegou a hora de recorrer a este tipo de apoio é quando a pessoa enlutada detectar que não consegue mais realizar as atividades que fazia antes.

Tolerância

Nesse caminho de reconstrução do mundo interno, as pesquisadoras recomendam tolerância do próprio enlutado e de todos que o cercam. É importante garantir o direito à dor alheia e evitar dar receitas para quem está sofrendo. "Precisamos ter atitude afetuosa e compreensiva sobre a dor de si ou do outro. Toda dor é legítima. O sofrimento faz parte da experiência humana. Não se permitir pode levar ao adoecimento", explica Milena Câmara, que considera cruel que existam comparações entre as dores ou minimização dependendo da relação social que exista. "Muitas vezes, o enlutado quer apenas ser ouvido. Como não sofrer? O vazio é pra sempre. A dor não precisa ser pra sempre. Estamos vivendo lutos coletivos. Não tem como não sentir o impacto". 

Transparência com crianças e idosos

Poupar a realidade de crianças e idosos tende a ser o movimento natural de muitas pessoas. Porém, negar a verdade pode gerar consequências piores. Segundo Elaine Alves, os idosos já vivenciaram mais experiências de luto e, possuem condições de serem informadas e atendidas sobre a morte de alguém próximo.

A psicóloga brasiliense Simone Lavorato defende que os mais velhos devem ser estimulados a participar das atividades, ainda que à distância, e encorajados a momentos prazerosos, como tocar instrumento, pintar e escrever. Milena Câmara entende que o diálogo precisa ser aberto e que eles tenham espaço de trabalhar os seus receios.  No caso das crianças mais novas, o uso de metáforas como "ele foi embora e não volta mais" pode gerar compreensões errôneas como se a pessoa tivesse ido embora por algo que a criança fez.

Explicações fantasiosas não podem ser disseminadas. Para a psicóloga Simone Lavorato, os menores entendem os recados de forma literal. "Tive uma paciente criança que entendeu em algum momento que o coronavírus era uma ameaça que chegava de navio e principalmente à noite. Por isso, temos que tomar cuidado como falamos com eles". 

Outras formas de viver o luto

A antropóloga Braulina Baniwa, que é pesquisadora indígena do laboratório Matula da Universidade de Brasília (UnB), explica que o processo de luto guarda diferenças entre os mais de 305 povos originários do Brasil. "Existe um desconhecimento sobre as práticas e culturas em relação a esse tema". Ela pede que haja maior conscientização sobre a necessidade de ouvir quais são os ritos de cada lugar. "No meu povo, ao mesmo tempo que é dolorido, entendemos que esses ritos fortalecem os nossos familiares e a memória dos que partiram", disse. Em São Gabriel da Cachoeira (AM), de onde conversou por telefone com a Agência Brasil, a cientista social salienta que os ritos de despedida celebram a vida dos que partiram.

Ainda no Amazonas, na cidade de Manacapuru, o cacique Francisco Uruma, da aldeia Tururucari-Uka, do povo da etnia Omágua-Kambeba, testemunha que a forma de despedida é respeitada integralmente na comunidade. "A gente planeja nas roças e pergunta como a pessoa quer que seja a despedida. Quando alguém parte, é um evento de celebração da vida de alguém. Desde pequenas, falamos com as crianças sobre isso. Explicamos que quem partiu sempre continua conosco".

Na Bahia, o agricultor Simplício Rodrigues, da comunidade quilombola Rio das Rãs, em Bom Jesus da Lapa, também destaca que o dia do velório e do enterro tem comida, bebida e o agradecimento àquela pessoa que se foi. "O cemitério é um lugar que fica dentro da nossa comunidade e homenageamos sempre quem já partiu".


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