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Mais de cinco décadas após golpe, CNV luta para descobrir o que houve com desaparecidos

51 anos do golpe que deu início à ditadura: Amazonenses que testemunharam os ‘anos de chumbo’ relembram os dias sombrios que o País viveu a partir daquele 31 de abril de 1964. Parintinense faz parte da lista de mortos e desaparecidos durante o regime militar 30/03/2015 às 20:34
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A ditadura militar no Brasil teve seu início com o golpe militar de 31 de março de 1964
Aristide Furtado Manaus (AM)

Com um legado de graves agressões aos direitos humanos, que incluem torturas, mais de 400 mortos e desaparecidos, censura, supressão das liberdades civis  e perseguições políticas o golpe que deu início à ditadura militar no Brasil (1964 a 1985) completa hoje 51 anos num contexto político marcado pela intensificação de manifestações de rua, as quais, em parte, dão margem à discursos pedindo a volta do regime de exceção.

Uma das testemunhas desse período histórico no  Amazonas, o jornalista e advogado Benedito Azedo, 81 anos,  lembra com indignação do desaparecimento do conterrâneo Thomaz Antônio da Silva Meireles, o “Thomazinho”, em maio de 1974, como  para dar eco a lema que inspirou a Comissão da Verdade Nacional: “Ditadura nunca mais. É uma maluquisse a gente vê jovens pedindo a volta do regime militar. Nunca tivemos um período tão farto de democracia no Brasil. Vamos punir quem está errado. Não importa se deputado ou senador”, afirmou o jornalista.

Brasileiro parece que tem memória curta, assevera o parintintense que viveu os anos de chumbo em Manaus como repórter do Jornal do Comércio e do extinto A Gazeta. “Um coisa que me machuca e me dói ainda hoje foi o desaparecimento do Thomazinho.  Caboclo de parintins como eu. Eu participei da despedida dele, rapaz talentoso, se projetou na vida estudantil. Foi para o Rio de Janeiro, se destacou na UBES e UNE. Ganhou bolsa de estudos para ir para a Rússia estudar planejamento econômico e direito internacional. Voltou para o Brasil. Foi preso, torturado e até hoje não foi achado.  Ninguém descobriu até hoje como o mataram. E onde jogaram o seu corpo. Nunca tive ódio de ninguém. Mas tenho asco do regime militar”.

Benedito, ou seu Bené, como prefere ser chamado, guarda na memória a lista de cassados, no Amazonas, pela ditadura. “Almino Monteiro Álvares Afonso era deputado federal pelo PTB do Amazonas. E o professor Gilberto Mestrinho, ex-governador, exercia em Brasilia mandato de deputado federal por  Roraima.  Foram cassados na lista de abril de 1964. Outros amazonenses que tinham mandatos importantes como o senador Arthur Virgílio Filho foi cassado no Ato Institucional número 5, junto com José Bernardo Cabral, deputado federal”,  recorda.

O pai da advogada Paula Valério, o deputado estadual João Valério, não chegou a ser cassado, mas foi perseguido pelo regime. “O meu pai  foi relegado ao ostracismo político que o matou aos 44 anos de idade em 1973. De 1964 a 1973 continuou sendo deputado mas foi impedido de lecionar. Ele era professor de história no Colégio Estadual. Passou 50 dias em prisão domiciliar. A perseguição se deu porque era considerado subversivo. Posicionou-se contra o golpe. Sempre lutou pela liberdade. Ele foi a assinatura número um do MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Até o fim da vida não pôde voltar a lecionar”.


Análise: Elenise Scherer, professora da Ufam

‘Tudo era proibido e reprimido’

"É surpreendente e impactante ver recentemente manifestações favoráveis ao retorno dos militares ao poder. Tais manifestações revelam, a meu ver, total desconhecimento deste momento da história brasileira.  Fiz todo o meu curso de graduação nos  anos finais do governo Geisel. Tudo era proibido e reprimido: os professores não podiam se manifestar, o ensino era mecânico, os alunos não podiam discordar, criticar nem pensar.  Éramos obrigados a assistir todos os sábados a disciplina Educação Moral e Cívica momento de inculcação da ideologia da segurança nacional, por meio de personalidades convidadas da Escola Superior de Guerra – ESG. A cidadania civil e política intrínsecas as democracias modernas durante quase trinta entraram em recesso. Afora, aqueles que perderam a vida lutando, não podemos nos esquecer. Acrescente-se, ainda, que o Brasil se tornou a nona potência mundial por meio de uma política desenvolvimentista pelo alto sustentada por uma profunda espoliação do trabalho e do aprofundamento das desigualdades sociais que estruturam até hoje a vida social brasileira e de difícil de concertação. A cultural autoritária e a ausência de atitudes democráticas  são heranças forjadas no passado respingam em muito no Brasil recente, nos focos difusos da elite predadora, nas faixas com intenções golpistas  e de apelo à intervenção militar. Tudo indica que Estado Democrático de Direito entre nós tem um longo caminho a percorrer."



Comentário: Ademir Ramos, antropólogo e professor da Ufam

‘Estado é omisso e a omissão estamos vendo nas ruas’

O maior responsável pelas vozes que vêm das ruas reivindicando a  volta dos militares ao poder é o  próprio Estado brasilirio.  O ensino básico, segundo a LDB e Plano Nacional de Educação, tem a obrigatoriedade  de implementar os grêmios estudantis nas escolas. E esses grêmios devem ser articulados com todos os colegiados das escolas. O Estado tem sido omisso na  articulação da escola com a sociedade, no sentido de uma gestão participativa.  A omissão dos agentes públicos se dá quando não aparelharam a escola para a formação política, a formação do cidadão.  A situação que estamos vendo na rua de jovens gritando  pela volta da ditadura é responsabilidade do Estado que não ofereceu meios de discutir a escola e a política no Brasil.  O Estado é omisso e a omissão estamos vendo na rua pela ignorância, desinformação e  desesperança dos jovens.  Essa juventude não conhece a história, não participa dos processos de discussão. Então busca o passado e o passado é a ditadura. Mal sabem os males que a ditadura nos fez. Isso denuncia a má qualidade da educação brasileira. Também temos que olhar com mais atenção  para o ensino superior. Como o Estado foi omisso, a juventude virou refém das igrejas e partidos políticos fundamentalistas, que reduziram esses jovens cidadãos a uma ação tarefeira. São obreiros nas igrejas e tarefeiros nos partidos.

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