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Manaus está perdendo a luta contra o câncer de colo de útero, apontam dados do Inca

Segundo o Instituto Nacional de Câncer, Manaus é capital com maior incidência de câncer de colo do útero no País, com 53,30 casos para cada 100 mil habitantes. No Amazonas, a incidência é de 35 casos por 100 mil habitantes 29/10/2015 às 14:38
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Exames e ações preventivas, como a vacinação contra o HPV, gratuita na rede pública, são as medidas mais eficazes para se precaver contra o câncer de colo do útero
Rafael Seixas Manaus (AM)

Símbolo da luta contra o câncer de mama e que, no Amazonas, também alerta para a prevenção ao câncer de colo uterino, a 12ª edição do Movimento Mundial Outubro Rosa está chegando ao fim neste sábado (31), mas o Estado ainda não conta com números satisfatórios no combate contra a doença. Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam que Manaus é capital com maior incidência de câncer de colo do útero no País, com 53,30 casos para cada 100 mil habitantes. No Amazonas, a incidência é de 35 casos por 100 mil habitantes.

Conforme a Globocan, por meio da Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC, na sigla em inglês), o Brasil tem a estimativa de 15 mil novos casos previstos para 2015, quase o dobro da incidência de países desenvolvidos. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, o câncer de colo do útero é o terceiro mais prevalente no País.

De acordo com a oncologista e presidente do Grupo Brasileiro de Tumores (Eva), Dra. Angélica Nogueira, o alto índice na capital e no Estado são atribuídos a uma questão cultural da não realização dos exames preventivos, pelo não uso de preservativos durante as relações sexuais e pela dificuldade em conseguir realizar os exames nos postos de saúde, muitas vezes mal equipados.

“O câncer de colo de útero é um câncer que surge [a partir] do papilomavírus (HPV). Essa infecção é lenta e pode passar vários anos até que a mulher apresente os primeiros sinais do câncer. Durante vários anos, o Amazonas está tendo alta incidência. Isso é decorrente da falta de adesão do exame preventivo Papanicolau. Também, culturalmente, as mulheres não fazem o exame por vergonha ou por medo de enfrentar a doença e os postos de saúde são mal equipados”, afirmou.

Prevenção  

O Papanicolau possibilita a detecção precoce da doença (idealmente no estágio pré-câncer), aumentando significativamente as chances de um bom resultado terapêutico. “Devem fazer o exame no início da vida sexual. Quando os exames têm resultados normais, o médico pode decidir se será anual ou não, mas isso é uma decisão médica. No estágio de pré-câncer, ele é totalmente curável e podemos evitar que se torne um câncer”, disse a médica.

No estágio mais avançado ou com metástase, a doença é tratada com cirurgia, radioterapia e quimioterapia. No Brasil, segundo a especialista, mais da metade das pacientes com câncer de colo de útero são diagnosticadas com doença avançada – devido à demora em procurar tratamento.

“Recentemente a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) liberou o uso de um novo medicamento no Brasil, o bevacizumabe, que aumenta o tempo de sobrevida das pacientes”, disse Angélica, acrescentando que o bevacizumabe demonstrou um aumento de sobrevida global de 30% e a redução de 26% no risco de morte das pacientes com câncer de colo de útero metastático.

Resposta do município

A chefe do Núcleo de Saúde da Mulher da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), Rita de Cássia Castro, reconheceu que ainda existem falhas e melhorias a serem realizadas no sistema oferecido atualmente na capital.

“Para atender dois milhões de pessoas, nós só temos 250 unidades de saúde. Estamos buscando ampliar este número, mas existe a dificuldade para ampliar essa cobertura. Agora não adianta eu fazer (exame) preventivo em todas as mulheres, se não tem como tratar quando encontro uma lesão. Quando há uma lesão de alto grau, essa mulher vai para o serviço de biópsia. Temos seis serviços no município e no Estado”, disse a gestora.

“Quando tem uma biópsia, para fazer o procedimento cirúrgico, existe a ausência do serviço secundário. Só temos na FCecon (Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas), mas ela atende pessoas do Amazonas, de outros estados e de países vizinhos. A fila é muito grande e o tempo de espera é longo. Para uma pessoa com uma saúde mais delicada, quando chega o dia da cirurgia, o câncer está mais grave”, complementou.

Ainda de acordo com ela, tudo de alto grau – em relação ao câncer – é concentrado em Manaus. Por isso, já está sendo estudada a abertura de seis polos no interior do Amazonas. “Temos hoje duas policlínicas da Semsa, três da Susam (Secretaria Estadual de Saúde) e o ambulatório Araújo Lima da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Mulheres de 25 a 65 anos não devem deixar de fazer o exame Papanicolau pelo menos uma vez ao ano”.

Sobre a não adesão das mulheres ao exame preventivo, Rita de Cássia explicou que isto ocorre principalmente com senhoras de mais idade. “As mulheres com mais idade têm vergonha de fazê-lo. Quando o profissional que vai atendê-la é homem, ela não vai. Há locais que a coleta é feita por médicos e enfermeiros. A mulher que ficou viúva acha que não precisa mais fazer o exame por não ter mais o parceiro”, contou.

FCecon

Em nota, a direção FCecon informou que não existe fila para cirurgia de colo uterino, rebatendo a declaração dada pela chefe do Núcleo de Saúde à reportagem.

 “As pacientes encaminhadas à FCecon, na maioria dos casos, já vem com confirmação de diagnóstico (biopsia). Se após a avaliação e os exames necessários, ela estiver apta à cirurgia, ela tem o procedimento agendado. O tempo médio entre a indicação da cirurgia e a realização é de 45 dias (a maioria faz em menos tempo), e isso ocorre não só no serviço público, mas também no privado. Pela lei, o tratamento deve ser iniciado em até 60 dias após o diagnóstico fechado, o que significa que a FCecon está dentro do prazo”, disse a direção em nota.

Vida sexual precoce

Outra causa dos altos números de incidência da doença na capital e no Estado, segundo  Rita de Cássia Castro, é realmente o início precoce da vida sexual e a falta de planejamento familiar.

“As mulheres começam sua vida sexual cedo, mas isso não é algo específico do Amazonas. Também tem a questão da falta de planejamento familiar. Em 100% das unidades de saúde nós tralhamos com o planejamento familiar e todos os médicos oferecem preservativos. A mulher não desenvolve o tumor em dois, três meses, mas são necessários de 5 a 20 anos para se desenvolver um tumor de 1 centímetro”.

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente vacinação contra o HPV para meninas de 11 a 14 anos de idade. É importante que se vacine antes do início da vida sexual, pois oferece maior eficácia. A prevenção ainda é arma mais forte contra o câncer de colo uterino.  

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