Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2022
Venezuelanos em Manaus

‘Manaus me ajudou, aqui posso trabalhar’

Venezuelanos que vivem em Manaus utilizam parte do dinheiro que ganham para ajudar ou trazer os parentes deixados no país vizinho



Sem_titulo_71ED28E4-C99A-4237-8D31-A0546939A340.jpg Foto: Iago Albuquerque
23/08/2021 às 09:30

Há quatro anos vivendo no Brasil, Jhon Josué Y Barra Mudarra, 24, realizou o sonho que muitos venezuelanos trazem consigo ao deixar o seu país de origem e buscar uma nova vida: a estabilidade financeira.

Partindo de uma nação arrasada pela fome resultado de uma queda de 80% do Produto Interno Bruto (PIB), nos últimos oito anos, e assombrados por quatro anos de hiperinflação, as vozes dos venezuelanos entrevistados por A CRÍTICA são  uníssonas ao afirmar que preferem garantir um prato de comida em solo brasileiro do que voltar para sua terra.

Hoje, gerente de uma churrascaria em Manaus, Josué, com muito orgulho e um largo sorriso no rosto, conta a sua história de imigração que começou dormindo debaixo de uma mangueira por sete dias em uma rodoviária na capital de Roraima. Ele ressalta que para alcançar o sucesso foi imprescindível o apoio e a oportunidade dados pelos brasileiros.

“O que eu achei bom daqui foi o jeito com o qual eu fui tratado, porque todo mundo me apoiou, dizendo: você pode vender assim, pode fazer desse jeito. Todo mundo deu um pouco de conhecimento. O restaurante me deu muitas oportunidades. Fiz muitos treinamentos, cursos e continuam me oferecendo muitas oportunidades”, disse o jovem.

Ao longo dos anos, Jhon conseguiu trazer para o Brasil todos seus familiares e agora têm seus primos, irmãos, pais e sua esposa que há quatros meses deu a luz ao primeiro filho do casal. Ele tem a meta de trazer para Manaus a avó, o que deve ocorrer até o fim do ano.

 

Sonho distante

 

Objetivo que ainda é uma realidade distante para Adamelis Del Vale Lopez, 49, que mora há três anos em Manaus, desde que partiu da Venezuela com seus quatro filhos, mas deixou para trás o esposo e a mãe. Vendendo água no cruzamento da avenida das Torres com a rua Barão de Rio Branco - Cidade Nova,  ela fatura por dia até R$ 70, que divide para as contas da casa e faz uma poupança mensal para enviar aos parentes que ficaram no país vizinho.

“Eu trabalho para ajudar a minha mãe que está na Venezuela e o meu esposo. Minha mãe é diabética, tem 75 anos, ela já não consegue vir para outro país por sua idade e sua enfermidade. Meu esposo também é incapacitado, por conta de uma hérnia na lombar que desenvolveu no trabalho”, revela a vendedora em um 'portunhol'.

Os parentes de Adamelis fazem parte da menor parte dos venezuelanos que ingressam no Brasil, de acordo com dados da Agência da Organizações das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), recolhidos durante a Operação Acolhida. A maioria  deles, cerca e 22% dos homens e mulheres possuem idade entre 20 a 34 anos e apenas 5% possui idade superior a 45 anos.

“Espero que nesse ano, em dezembro, eu possa ir até lá, mas eu gosto muito de Manaus, foi uma cidade que me ajudou bastante. Tenho muito o que agradecê-la. Aqui eu posso trabalhar e comer, na Venezuela não. Lá é duro para conseguir comida”, declarou Adamelis.

 

Colocação

 

O desafio para a parcela mais jovem  de imigrantes é uma colocação no mercado de trabalho, uma vez que a maioria dos que ingressam no país, além da barreira da língua, possuem somente ensino médio completo.

No Amazonas, por exemplo, nos seis primeiros meses de 2021,  4.985 mil pessoas  do país vizinho pediram asilo. Destes, 496 concluíram o Ensino Médio, 89 possuem o Ensino Superior e 43 têm Ensino Técnico e apenas três cursaram pós-gradução.

As ocupações mais frequentes destes trabalhadores são construção civil (52); cozinheiros (38); padeiros (18); e engenharia civil (18).

Esse é o caso do jovem casal Loriane Del Valle, 21, e Ruben Alonso, 21. Ele com pouco mais de sete meses no Brasil e ela recém chegada ao país, ainda falam com dificuldades a língua portuguesa. Com olhar desconfiado, Rubens contou que com a venda de banana consegue ao menos comprar comida e atender as necessidades da filha de um ano, que dormia no braço da esposa, enquanto Louriane segurava um cartaz pedindo ajuda em dinheiro para a pequena.

“Aqui eu praticamente recebo para comprar comida. Na Venezuela não, lá a comida era muito mais cara, pelo menos aqui com trabalho dá para sobreviver dá para comprar alimentos para a minha filha”, contou o venezuelano.

 

Sem ajuda

 

Nenhum dos venezuelanos com os quais conversamos recebem ajuda financeira do governo brasileiro ou de organizações não-governamentais, mesmo assim, ao longo do primeiro semestre o governo federal direcionou para o Amazonas  R$ 580 mil para os gastos com a acolhida de imigrantes. A Acnur, por sua vez, distribuiu em todas as duas operações ligadas a imigração venezuelana R$ 21 milhões. Já o Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância (Unicef) direcionou  R$ 10 milhões para educação das crianças em situação de vunerabilidade.



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