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Marcha das Margaridas: mulheres de todo Brasil viajam até Brasília para defender a vida e a natureza

Elas marcham das cidades e do campo de todas as regiões do País repetindo ritual de resistência à arbitrariedade e à exploração de pessoas e dos recursos naturais 12/08/2015 às 10:02
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Desde segunda (10), milhares de mulheres chegaram a Brasília, onde permanecerão ao longo da semana
Ivânia Vieira Manaus (AM)

O Amazonas participa, com 57 mulheres, da 5ª Marcha das Margaridas, iniciada na última terça-feira (11). Desde segunda (10), milhares de mulheres chegaram a Brasília, onde permanecerão ao longo da semana. Elas marcham das cidades e do campo de todas as regiões brasileiras repetindo um ritual de resistência à arbitrariedade e à exploração de pessoas e dos recursos naturais. Este ano, as margaridas estão em marcha por “desenvolvimento sustentável com democracia, Justiça, autonomia, igualdade e liberdade”.

Coordenadas pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri-AM-Secretaria de Trabalhadoras Rurais) e do Movimento de Articulação  de Mulheres da Amazônia  (Mama), o grupo de amazonenses seguiu há três dias para juntar-se as outras caminhantes que representam camponesas e mulheres da floresta de mais de 40 cidades. Em Brasília, em área da Câmara dos Deputados, um mapa da região ecológica dos babaçuais compreendendo os Estados do Piauí, Tocantins, Maranhão e Pará, lançado ontem, faz uma das recepções às margaridas e lança uma das mensagens que as margaridas querem deixar ao Brasil e ao mundo na marcha deste ano. Nesse mapa é possível ver as florestas de babaçu e aprender mais sobre a importância dessas florestas para mais de 300 mil mulheres que têm suas vidas organizadas em torno das plantações de babaçu de onde asseguram a renda para as suas  famílias e às comunidades rurais (dados da EBC).

Democracia

A ativista do movimento de mulheres no Amazonas, Socorro Prado, participante  de várias marchas destaca trechos do documento-base deste ano que diz: “nós, margaridas do campo, da floresta e das águas estaremos nas ruas de Brasília, em marcha por desenvolvimento sustentável com democracia, justiça, autonomia, igualdade e liberdade. Marchamos por um desenvolvimento centrado na sustentabilidade da vida humana, na defesa da terra e da água como bens comuns, pela realização da reforma agrária, por soberania alimentar e produção agroecológica”.

“É o maior encontro de mulheres camponesas da América Latina e uma das mais significativas articulações de movimentos sociais e feministas do mundo", diz a socióloga Socorro Prado, membro da Articulação de Mulheres do Amazonas (AMA).

Carta combate a violência

A “Carta das Margaridas” chama a atenção para a violência  contra as mulheres. Cita que neste ano de 2015, “a Região Nordeste foi palco de outros crimes bárbaros contra a vida e dignidade das mulheres. Em maio, no Município de Castelo, no Estado do Piauí, quatro adolescentes foram vítimas de estupro coletivo e arremessadas de uma altura de dez metros. Em 15 de julho, cinco mulheres foram executadas em Itajá, interior do Rio Grande do Norte”.


Mulheres viajam juntas até Brasília. Marcello Casal Jr/ABr

O documento destaca que esse contexto “impulsiona a auto-organização das mulheres no campo e na cidade, com o objetivo de denunciar o silêncio que envolve e naturaliza a violência, bem como nos fortalecer para a resistência e o enfrentamento. Direcionamos diversas reivindicações aos Poderes Públicos em busca de garantir nossos direitos, a começar pelo mais básico deles: queremos permanecer vivas!”.

Alerta para o avanço das forças conservadoras que mantêm “os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário na função de conservar a ordem classista-racista e patriarcal. Por isso, compreendemos que apenas a reivindicação junto a esses órgãos, no que se refere aos nossos direitos à terra, a uma vida sem violência e a políticas públicas que reparem a desigualdade historicamente vivenciada por nós mulheres, não é suficiente para a garantia da nossa autonomia enquanto sujeitos políticos”.

Marcha inspirada em trajetória

A Marcha das Margaridas revive a trajetória da agricultora paraibana Margarida Maria Alves. Filha de camponeses, Margarida começou a trabalhar ainda criança e tornou-se uma das principais líderes de camponeses no Brasil.

No ano de 1973, em plena vigência do regime militar, Margarida assumiu a presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, município da Paraíba. Um matador de aluguel a assassinou em 1983. À época, relata um dos históricos da vida de Margarida Alves, ela lutava contra a atuação de usineiros e latifundiários, e tentava garantir o desenvolvimento do que mais tarde ficou conhecido com agricultura familiar. Há 32 anos, familiares de Margarida, trabalhadores e trabalhadoras rurais, organizações sindicais e dos diretos humanos aguardam por Justiça e lutam para que esse não seja mais um crime impune.

Margarida Maria afirmava que “é melhor morrer na luta do que morrer de fome”. Essa mulher, a primeira a assumir a presidência de um sindicato de trabalhadores rurais na Paraíba, morreu lutando. 

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