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Maria da Penha: Dona de casa se culpa por morte do marido durante rebelião em Parintins

Admílson Silva estava preso em Parintins por conta da Lei Maria da Penha e foi morto após ter as mãos e o pescoço decepados e o resto do corpo incendiado 09/09/2014 às 12:22
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Rebelados produziram cenas de terror que abalaram a vida das famílias dos presos, que têm direito a buscar justiça
Jornal A Crítica ---

A vida da dona de casa Rosa Ferreira Mendonça, 52, foi tomada pela culpa desde o dia 1º de setembro, data da rebelião no Presídio de Parintins (a 325 quilômetros de Manaus), em que o marido, Admildson de Souza Silva, 51, morreu após ter as mãos e o pescoço decepados e o resto do corpo incendiado, após uma rebelião num centro de detenção que, com capacidade para 34 presos, abrigava 202 detentos. Rosa Mendonça se sente responsável por tê-lo denunciado, com base na Lei Maria da Penha, fato que o levou à prisão.

Rosa afirmou que ela e Admildson tiveram oito filhos ao longo dos 33 anos de casamento. A relação várias vezes foi conturbada, segundo Rosa, por causa do vício de bebidas alcoólicas, que o marido não conseguia controlar. Separaram-se e voltaram várias vezes. “Tinha tempos em que ele morava noutra casa, outros morava com a gente. Ele não era ladrão, assassino e nem estuprador como estão dizendo. Era trabalhador, mas nunca conseguia ir para frente por causa da bebida”, afirmou.

Rosa conta que Admildson já havia sido preso outra vez após denúncia feita por ela, diante das perturbações causadas tanto a ela quanto aos filhos. “Não era porque me batia, mas ele gritava, quebrava tudo em casa, ameaçava me bater. Fiz a denúncia a primeira vez, mas depois eu e os filhos resolvemos ajudá-lo, juntamos dinheiro, pagamos a fiança e ele voltou para casa”, afirmou. Com o passar do tempo, no entanto, Admildson voltou a ter comportamento agressivo.

Agravamento

A situação se agravava quando Rosa saía para trabalhar, afirma a dona de casa. Os principais transtornos domésticos, na avaliação da viúva, eram sofridos pelos três filhos mais novos de 13, 12 e 10 anos. “Os outros (filhos) não porque já são “de maior” e cuidam da vida deles. Mas os meninos tinham medo de ficar dentro de casa por causa dele (o pai). Me esperavam pela rua até eu poder voltar para casa. Aí teve um dia que ele (Admildson) ficou doido mesmo, quebrou até as telhas de casa e eu tive que chamar a polícia e colocar ele de novo na cadeia”, conta Rosa.

Admildson já estava completando mais de dois meses na prisão e a mulher os filhos entenderam mais uma vez que ele estava arrependido e poderia mudar a conduta dentro do ambiente doméstico. O companheiro de Rosa chegou a ser ouvido em audiência, em que a Justiça baixou o valor da fiança para que ele fosse solto, de R$ 2 mil para R$ 700.

Rosa arrumou um novo emprego como cozinheira, numa lancha que faz transporte de passageiros de Parintins para Manaus, e os filhos também iniciaram uma poupança para juntar o dinheiro da fiança, o que esperavam conseguir até o final do mês. “Estava chegando de uma viagem da lancha em Manaus, quando vi no meu telefone várias chamadas não atendidas. Retornei e os meus filhos me disseram: ‘Mãe, mataram o papai’”, declarou chorando.

A dona de casa teve que deixar o emprego por não ter condições psicológicas de voltar a trabalhar. “Nos primeiros dias, meus filhos mais novos não conseguiam nem vir dormir em casa, mas já conversei com eles. Eu não queria que ele morresse assim, eu não desamparei ele. Acho que não podiam ter colocado ele misturado com todo mundo. Mas agora estou assim: me sinto culpada por ter denunciado e ele ter morrido”, declarou.

OAB diz que Estado é responsável

Para o presidente da Comissão de Direitos Humanos da seção Amazonas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-AM), Epitacio Almeida, a morte do Admildson Silva é totalmente responsabilidade do Estado. “Sou totalmente a favor da Lei Maria da Penha, mas não se poderia colocar sujeitos que cometem alguns deslizes num momento difícil com pessoas que tem na veia a índole do crime. Numa cadeia que está muito acima de suas capacidades, acaba desse jeito”, concluiu o advogado.

Para o advogado, o Estado é o grande transgressor da Lei de Execuções Penais. “A prisão seria para reeducar aquelas pessoas, mas, uma vez que se entra no sistema penitenciário a vida das pessoas muda, cria-se a pecha de ex-detento.

O secretário de Estado de Justiça e de Direitos Humanos, Louismar Bonates, afirmou que a Sejus não tem como amparar a família do detento morto, mas que o Estado, que estava com a tutela do presidiário, tem, sim, obrigações com a família. “Cabe ao Estado não à Sejus diretamente o apoio à família”, disse. Bonates afirmou que a rebelião em Parintins teve uma motivação diferente do que geralmente ocorre nesses episódios. “Era briga só entre os presos mesmo. Tanto que ao final da rebelião eles não pediram nada de melhorias”, declarou.

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