Domingo, 19 de Maio de 2019
ENTREVISTA

Matança no Compaj serviu para unir todos contra o tráfico de drogas, diz José Melo

Em entrevista, o governador disse que todos os governantes do País são culpados pelo massacre nos presídios e pregou ações para a Segurança deixar de “enxugar o gelo”



22/01/2017 às 05:00

Para o governador do Amazonas, José Melo (Pros), todos os governantes do País são culpados pelo massacre no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) e nos demais presídios do Estado e do Brasil. Em entrevista exclusiva para A CRÍTICA, o governador admitiu falha no dia 1º de janeiro, com a morte de 56 presos do Compaj, resultado de guerras entre facções. A falha aconteceu por todos estarem relaxados no final do ano, segundo Melo, mas acredita que a matança serviu para unir todos os governantes no combate ao tráfico de drogas. Sobre a situação da empresa terceirizada que atua no sistema penitenciário, Melo disse que em 2018 pretende realizar nova licitação, com abertura para empresas do mundo todo.   

Que lições tirar do massacre no Compaj?

Nesse episódio ficou muito claro duas coisas. Primeiro que o problema do sistema prisional não é só do Amazonas, é do País todo. Segundo, ficou exposto o sistema de segurança pública do País. Ficou claro que só se resolve com todos juntos. Ficou mais claro ainda que não adianta não estancar esse problema nas fronteiras e dobrar o policiamento na rua, aumentar o número de investigadores, pois vamos continuar enxugando gelo.

O que o governo sugeriu ao presidente Temer para melhoria do sistema e segurança pública?

O Amazonas deu a ideia de fechar as fronteiras. Foi nossa também a ideia da integração: as inteligências têm de ser integradas. Outra sugestão que a gente ainda está escrevendo é para a Amazônia toda. O presidente lançará o Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável para a Amazônia, que vai dar aos empresários, com recursos do BNDES e Banco Mundial, recursos para investir no Amazonas. Assim vai se desenvolver mineração, peixe e fruta sustentável, polo de cosméticos, fármacos, vai se desenvolver a região todinha. Fizemos essa sugestão, mas o presidente nos disse que já estava trabalhando nesse plano.

Que medidas o Estado está tomando em relação ao sistema prisional?

Vamos construir mais presídios em Parintins, Manacapuru, vamos regionalizar as penitenciárias. Já estamos com uma em Tefé. Estamos concluindo uma aqui em Manaus, para presos de menor periculosidade. Está vindo dinheiro para tornozeleiras, scanners e bloqueadores de celulares. Também recursos para o IML. O plano nacional colocou as forças armadas nas fronteiras, com o governo federal dando recursos para as forças armados, policiais se equiparem. Também vamos ter uma penitenciária agrícola em Rio Preto da Eva que vai servir para a etapa de ressocialização dos presos.   

A construção de mais presídios é a melhor solução?

Eu sou a favor de mais escolas. Eu não sou a favor de mais penitenciárias. Mas eu tenho um problema, como o presidente da República e todos os governadores têm que é a superlotação. Como se resolve esse problema? Tem duas formas só de resolver. Uma é ação conjunto que está acontecendo no Amazonas com o judiciário e a defensoria pública que em mutirão estão retirando os presos com crimes menores.  E a outra solução é a de expansão das vagas no sistema prisional.

Na reunião com o presidente se discutiu mudança na política de combate as drogas?

A gente não evoluiu para a flexibilização da legislação no que diz respeito à questão das drogas. Em alguns países como a Holanda, Paraguai resolveram liberar a droga, mas isso não evitou o grande consumo. Então isso tem de ser uma coisa muito estudada e avaliada. Tem que ter muito cuidado, porque às vezes numa vontade de resolver as coisas com uma lei a gente complica mais. Se lei resolvesse o Brasil seria o País mais resolutivo do mundo.

Como o senhor a população fazendo Justiça com a próprias mãos?

No estado democrático de direito isso não é aceitável. Se fosse aceitável nós teríamos de fechar os tribunais e Ministério Público, não é aceitável. No Estado de Direito as instituições que fazem Justiça e não é o povo que age. A incompreensão, a falta de política adequada levou a todo o povo brasileiro a essa situação de desespero. Você não ceifa a vida de uma pessoa com instinto assassino, é o desespero. Agora essas ações que estamos tomando levarão ao povo a sensação de segurança. A população amazonense vai ver uma mudança muito grande na Polícia Militar, Polícia Civil e também vai ver medidas duras no sistema prisional. Eu não admito em nenhuma circunstância perder a governabilidade dentro das penitenciárias. As penitenciárias não são lugar para ter xerife e bandido mandando.

Tem PMs nos presídios? Isso não é inconstitucional?

Não. É inconstitucional você colocar policiais dentro das celas, nas galerias, mas não é inconstitucional a policia estar nos pátios, nas muralhas. Se tivesse um policial na muralha acha que teriam fugido? Então tem que ter. A polícia tem de estar lá. Outro exemplo, a força nacional veio para o Amazonas, mas eles não poderiam entrar se tivesse motim, não poderiam fazer nada, ficariam na rua. Eu disse para o presidente que isso não serve, só serve pra ter mais gasto,  alimentar mais gente. Se tiver que vir tinha de entrar junto. A falta de policiais nas muralhas foi o que causou aquelas fugas.

A segurança no Estado diminuiu no seu governo?

Quando o Eduardo Braga era governador no final do ano o excesso de arrecadação era de R$ 2 bilhões de reais. Era uma maravilha governar. Quando o Omar foi governador, até o último ano a arrecadação foi de R$ 1,7 bilhão. Eu assumo o governo e no meu primeiro ano a minha queda de arrecadação foi de R$ 2,7 bilhões e no ano passado perdi R$ 1,4 bilhão. Então perdi R$ 4,1 bilhões em dois anos. Como aquele pai que ganhava R$ 10 mil perdeu o emprego e arranjou outro de R$ 4 mil e teve de estabelecer prioridades. Eu também tive de fazer isso no governo. Uma das prioridades foi potencializar o que tinha de veículos, motocicletas e pessoas e mudamos o conceito de segurança pública. Esse conceito é super eficiente em relação a detenções, tanto é que o Amazonas foi o que mais prendeu traficante.

O senhor acabou com o Ronda no Bairro?

O Ronda no Bairro é uma beleza de projeto. Ali era um conceito. As pessoas ficavam num carro passeando indo de um lado para outro. As pessoas passavam e tinha um carro da policia e achavam ótimo. Mas os índices de assaltos daquela época, nos governos do Eduardo e do Omar, é o mesmo que no meu governo, pois o problema é o tráfico. Então não adianta ter ronda no bairro se não estancar essa sangria. Os carros do Ronda no Bairro continuam na rua, mas estão fazendo um trabalho diferente. Eu não acabei com o Ronda, a policia continua na rua, mas não naquela quantidade.

O governo foi omisso na guerra entre facções?

Naquele dia (1º de janeiro de 2017) tinham 2.120 pessoas dentro daquela penitenciária.  Era final do ano e as famílias foram se congraçar com os presos. Naquele dia a Polícia Militar tinha que estar com um contingente de pelo menos 20 homens nas muralhas, não estavam. Então isso foi uma falha. Uma falha que serve de lição para todos nós. Naquele dia estávamos todos relaxados. Todos aqui fora relaxados porque era Ano Novo. Eles (presos) se aproveitaram desta falha. No réveillon  tinha uma média de 100 policiais na Ponta Negra e não podia ter 20 lá na penitenciária? Então foi uma falha do sistema que redundou em tudo aquilo ali. 

Quem é o culpado?

Eu diria que todos nós governantes deste País e todos os que estão envolvidos no sistema são culpados, todos, não sobra um. Então se buscarmos culpados não chegará a lugar nenhum. Esse episódio todo serviu para unir os culpados. Eu posso ser o culpado se o governo federal durante cinco anos contingenciou o dinheiro que devia passar pra mim para aumentar minhas penitenciárias, comprar meus bloqueadores, meus scanners e minhas tornozeleiras? Será que eu sou o culpado de os caras não terem me dado dinheiro? Será que um juiz e promotor são culpados, pois o processo não caminhou direito? Será que um delegado é culpado por não dar andamento ao processo de forma correta? Será que a sociedade que é culpada? Por isso nós resolvemos não ir atrás de culpados e sim de soluções que finalmente veio. Esse episódio serviu para uma coisa, unir os culpados em todos os matizes na busca de uma solução. Porque até então todo mundo teimava em não aceitar combater o tráfico na fronteira. Ninguém queria, porque não é fácil. Tu achas que a minha vida não está em risco ou da minha família por pegar essa bandeira?

Quando sai a nova licitação do sistema prisional?

Eu estou fazendo o projeto base. Eu peguei gente minha nas penitenciárias que tem no Brasil onde o sistema é misto, com terceirizados e o governo. Peguei um amigo meu que esta nos Estados Unidos e outro na Alemanha e pedi para que eles me trouxessem os experimentos deles, porque eu quero fazer uma licitação internacional. Eu quero da experiência de todo mundo, fazer aqui um sistema que depois ser copiado no Brasil. Como eu não posso consertar as turbinas de um Boeing no ar, eu tenho de prorrogar o atual contrato por um ano ao tempo que eu faço essa nova licitação. Durante esse ano vou fazer a nova licitação para um novo contrato. O início de 2018 será a meta.


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.