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Cotidiano
Entrevista da Semana

Médica sanitarista fala sobre dados preocupantes de DST e Aids no AM

Diretora do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde fala dos avanços no combate à aids no Brasil, no mundo e no Amazonas, e de como será possível erradicar a doença até 2030. 28/08/2016 às 05:00
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Adele Benzaken
Antônio Paulo BRASÍLIA (DF)

O Amazonas aparece entre os Estados com as maiores taxas de detecção do vírus HIV e mortalidade por aids em todo o País. Em abril de 2016, cerca de 475 mil pessoas estavam em terapia antirretroviral no Brasil (um aumento de 80% na comparação 2012-2015). Esses dados preocupantes foram repassados pela nova diretora do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, a médica sanitarista amazonense, Adele Benzaken. Nessa entrevista ao jornal A CRÍTICA, a conhecida militante no combate às DSTs e Aids no Estado do Amazonas traça um panorama atual da doença.

Qual é a situação real da doença no mundo, na América Latina e no Brasil?

Na África, a epidemia de aids atinge hoje entre 20% e 30% da população, principalmente mulheres gestantes e idosos. Mas, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) mostrou uma queda significativa da transmissão vertical (mãe para o filho). Na América Latina, principalmente, pelo tamanho do Brasil, temos o maior número de casos. Pelo indicador composto (taxa de detecção, transmissão de mãe-filho e mortalidade). Em abril de 2016, cerca de 475 mil pessoas estavam em terapia antirretroviral no Brasil (um aumento de 80% na comparação 2012­-2015). Apenas em 2015, quase 80 mil novos tratamentos foram iniciados.

Qual a situação no Amazonas?

Em 2014, o ranking das unidades da federação com as maiores taxas de detecção de aids mostrou que os Estados do Amazonas e do Rio Grande do Sul apresentaram as maiores taxas, com valores de 39,2 e 38,3 casos para cada 100 mil habitantes.

Por que o Amazonas está entre os Estados com as maiores taxas de detecção de aids no Brasil?

 Os números do Amazonas – tanto a taxa de detecção (39,2) quanto à mortalidade (8,7) esta última a terceira maior do País, atrás apenas do Rio Grande do Sul (10,6) e Rio de janeiro (9,5 por 100 mil habitantes) estão ligados pelas dificuldades geográficas, o acesso ao serviço de saúde.  O vírus HIV já chegou a todos os municípios do Amazonas; quem está lá em Pauni, Benjamin Constant, por exemplo, adoece e nem sabe aquilo é aids e quando chega, encaminhada à Fundação de Medicina Tropical de Manaus, já vem muito mal e acaba falecendo. Um das maiores causas da mortalidade por aids é o diagnóstico tardio.

 

Particularmente no Amazonas, o que o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde, está fazendo para que esses números diminuam?

 Estamos com uma iniciativa chamada Interfederativa do Amazonas (Interfam), com investimentos financeiros no valor de R$ 3 milhões, na tentativa de reverter esses dados. Por meio do programa “Viva Melhor Sabendo”, estamos fazendo testagem, com fluido oral, nas populações-chave (pessoas trans, usuários de drogas, homens que fazem sexo com homem e profissionais do sexo) em Manaus, Parintins e Benjamin Constant. Estamos fazendo um trabalho junto a 10 mil pacientes que estão sendo acompanhados na Fundação de Medicina Tropical. Há ainda uma iniciativa de descentralização das ações para melhorar a assistência em outras unidades de saúde do Estado; cursos e pesquisas também estão sendo realizados.

A senhora acaba de participar da Reunião de Alto Nível da ONU sobre o fim da Aids.  Quais foram os resultados da High-Level Meeting?

O fim da Aids foi uma meta estipulada pelo Unaids para o ano de 2030, baseado no 90.90.90 em que 90% das pessoas com HIV seriam diagnosticadas; 90% delas tratadas e 90% com carga viral indetectável. Essa iniciativa foi chamada de tratamento para todos.  O Brasil reiterou o seu compromisso com a eliminação dos níveis epidêmicos de aids até 2030 e com os objetivos estabelecidos pelos países, em conjunto com Unais, de conseguir, até o ano de 2020, que 90% das pessoas que vivem com HIV estejam diagnosticadas; que 90% destas pessoas diagnosticadas tenham acesso ao tratamento; e que 90% destas pessoas em tratamento estejam com a carga viral suprimida.

Quais as providências o governo brasileiro se comprometeu a realizar para atingir a meta 909090?

O Brasil implementou as recomendações da OMS (Organização Mundial de Saúde), indicando o tratamento antirretroviral a todas as pessoas que vivem com o HIV, independentemente da contagem de células CD4 desde 2013. O Brasil atingiu a meta de carga viral suprimida em 2015, quando 90% das pessoas que vivem com HIV em tratamento antirretroviral tiveram sua carga viral suprimida. A resposta brasileira é integralmente financiada por recursos nacionais e isto constitui um desafio neste novo contexto de “tratamento para todos”.

Quanto de recurso tem no orçamento para a prevenção e tratamento?

Temos um orçamento de R$ 1,1 bilhão para a compra de medicamentos da terapia antirretroviral, os quais fornecemos para o Brasil inteiro (CD4 e carga viral), assim como os testes rápidos de sífilis, HIV, hepatites B e C. Essa é a contrapartida do governo federal. Já os Estados têm a obrigação de fazer a compra de medicamentos para as chamadas infecções oportunidades que aparecem com a aids, como pneumonia, herpes e outras doenças. Os municípios, por sua vez, precisam comprar os medicamentos para combater as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Mas, às vezes, essas contrapartidas não funcionam a contento, os entes federados não cumprem a sua parte aí o sistema de prevenção e tratamento fica deficiente.

 

A senhora acredita que essa atuação do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde, serão suficientes para reduzir os casos da doença no País?

Entendemos que a resposta à epidemia precisa adotar uma abordagem abrangente para a saúde, com políticas específicas para populações-chave. No Brasil, os grupos que são chave para a nossa epidemia são pessoas que usam drogas ­ principalmente crack e outras drogas estimulantes, profissionais do sexo, pessoas transexuais, gays e outros homens que fazem sexo com homens e nestes grupos, especialmente os mais jovens, e as pessoas privadas de liberdade. Estamos trabalhando duro para tê-los incluídos nas políticas públicas de saúde que atendam às suas necessidades, como uma demonstração de nosso respeito e preocupação.

Os mais vulneráveis ainda são os mesmos dos anos de 1980, no início da epidemia de aids?

Nós cometemos um erro epidemiológico, no início da epidemia, em não acessar diretamente esses grupos porque eles sofrem muito estigma e muita discriminação. No início da epidemia a gente não quis nominar os grupos para não estigmatizar ainda mais. Na época, a própria sociedade civil que lidava com esses grupos não queria, sob hipótese nenhuma, que a gente ficasse dizendo que eram os gays, os homens que faziam sexo com homens que tinham maior incidência da doença. Mas, hoje, a gente não pode mais negar. Por exemplo, entre travestis, a taxa é de quase 15%. A gente precisa encarar de frente essa situação. Só que agora, estamos mais maduros nessa abordagem, a tecnologia melhorou muito.

Que tipo de contribuição a senhora poderá dar no DDAHV a partir da sua experiência de 33 anos trabalhando com DSTs e Aids no Amazonas?

 O Amazonas foi um grande professor. Lá eu fiz as primeiras atividades dentro da área de DST e aids. Comecei como médica (ginecologista), antes de aparecer a aids. Fiz a minha formação fora do Estado (Rio de Janeiro) e quando retornei me convidaram para criar um ambulatório de DST e lá inicie esse trabalho na Fundação Alfredo da Mata, onde lá fui diretora, uma unidade de grande referência para a cidade; quando apareceu a epidemia de aids, fui chamada para coordenar o programa e, na seqüência, criei a ONG Amavida – Movimento de Luta contra a Aids no Amazonas; trabalhei sete anos na prevenção com os profissionais do sexo, depois fui fazer teste rápido de HIV com as populações indígenas em todo o Amazonas e Roraima. Testamos 46 mil indígenas e esse trabalho me deu a oportunidade de conhecer bem a ponta do problema. Em 2011, por meio de um concurso, vim para o Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids e depois fui chamada para este departamento do Ministério da Saúde, onde me sinto em casa porque fui consultora dele toda uma vida.

Perfil Adele Benzaken

Idade: 60 anos

Profissão: Médica ginecologista

Experiência: Graduada em Medicina pela Universidade Federal do Amazonas, trabalha com DST e Aids desde 1983. Possui doutorado em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz

Cargos ocupados: Foi diretora da Fundação Alfredo da Matta em Manaus (AM), entre 2007 e 201; entre outros.

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