Segunda-feira, 17 de Maio de 2021
MEIO AMBIENTE

Medição amadora aponta que cheia do rio Negro vai bater recorde

Há mais de 50 anos, Erasmo Amazonas mede subida das águas. CPRM diz que é cedo para afirmação sobre recorde



erasmo_amazonas_regua_da_enchente_3BA3845D-9400-48BD-80FB-198E48609F83.jpg Erasmo mostra régua que acompanha sua família desde os anos 50. Foto: Junio Matos
17/04/2021 às 08:00

Em fevereiro deste ano, ao cumprir tarefa que herdou do pai há seis décadas, Erasmo Amazonas levou um susto. Como sempre faz nessa época, o projetista de arquitetura e ex-deputado estadual desceu os quatro andares da casa onde nasceu e viveu a vida toda, no bairro de Educandos, e foi até a beira do rio Negro para conferir sua “régua da enchente”. O resultado o deixou muito preocupado: o nível das águas estava 52 centímetros acima da medição feita no mesmo dia de 2012, ano em que Manaus sofreu com a maior cheia do século e o rio chegou a 29,97m.

“Vai ser uma tragédia”, pensou Erasmo, que afirma que desde então tenta avisar autoridades para que se preparem e entrem em ação com medidas paliativas. Ele acredita que, mesmo com cheia recorde, é possível minimizar os estragos da enchente. O alerta, segundo ele, não tem tido muito efeito ou resposta oficial, mas nada que o faça desistir. Esta semana, ligou para a redação de A CRÍTICA e contou sua história.



“Desde a década de 50, eu faço a medição. Nunca antes tivemos um começo de ano com o rio tão alto. E desde fevereiro, ele só sobe. Atualmente são 6 centímetros por dia”, relatou Erasmo ao telefone. No dia seguinte, o ex-deputado recebeu a equipe de reportagem em casa, onde repetiu sua preocupação com os efeitos da cheia, falou da paixão pelas águas e cravou uma previsão: este ano o rio Negro vai chegar a 30,50 metros.

REFLEXÕES

No fundo da residência, os 45 degraus de uma escada feita de maçaranduba levam, nos meses de seca, a uma “praia de lama tóxica” que já foi relva e areia na juventude de Erasmo. Atualmente, a escada dá direto na água e apenas 11 degraus são visíveis (os demais estão submersos). “Essa escada quase toda dentro d’água já é um sinal de que o rio está bem cheio”, explica ele, mostrando, do lado esquerdo, a “régua da enchente” usada pela família desde a década de 50.

Sentado em um dos degraus ainda secos, o projetista de arquitetura faz as contas: se as águas subirem até meados de junho, que é o padrão para o pico da cheia em Manaus, são mais 60 dias. No ritmo atual, o nível do rio passará fácil dos 29,97 metros registrados em 2012. Naquele ano, a chamada “cheia do século” causou muito prejuízo e atingiu 75 mil famílias em todo o Amazonas.

Cada vez mais comum, a subida (e descida) extrema dos rios, avalia Erasmo, não deve ser atribuída somente ao La Niña. Ao falar de sua paixão pelas águas, ele ressalta a influência do “principal elemento da natureza” nos quadros que pinta desde pequeno. E faz questão de dizer que gosta tanto de água que é “até do signo de peixes”. Com essa autoridade e uma vida bem vivida na beira do rio Negro, ele crava: “É preciso ficar atento para o mal que o Homem vem fazendo ao planeta”.

O QUE DIZ A CIÊNCIA

As medições feitas por Erasmo Amazonas em sua “régua da enchente” são muito parecidas com as que foram registradas pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM-AM). De janeiro até meados de fevereiro, o nível do rio Negro em Manaus estava acima do nível medido nos mesmos meses em 2012. A partir de meados de fevereiro, a subida continua, mas em velocidade menor que a do recorde (veja gráfico ao lado).

No fim de março, a CPRM apresentou o 1º Alerta de Cheias para este ano, com previsão de 80% de probabilidade de se observar inundação severa no município, nível em que começa a ser inundado o centro da cidade. Já a chance de o rio Negro subir mais do que em 2012 é de 17%. Cientificamente, porém, é impossível afirmar na data de hoje se o recorde será batido, explica a pesquisadora responsável pelo Sistema de Alerta Hidrológico, Luna Gripp.

A medição mais recente, do dia 16 de abril, mostra o rio Negro com nível de 28,14m (em 2012, na mesma data, o rio estava com 28,49m). Segundo Gripp, quanto mais próximo do evento (pico da cheia), maior a precisão da previsão e maior a probabilidade de acerto. O próximo alerta de cheia está marcado para dia 30 de abril, e o último para 31 de maio.

Para fazer as previsões, a CPRM considera principalmente a quantidade de água que choveu nas bacias dos rios Negro e Solimões ao longo dos últimos meses, e a cota atual dos rios. A água coletada na bacia do rio Negro, que nasce na Colômbia, demora em média 30 dias para chegar em Manaus. Já as chuvas da tríplice fronteira, quando o Solimões entra em território brasileiro, levam dois meses para alcançar Manacapuru (e influenciar na cheia do rio Negro na capital).

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Jornalista
Jornalista formada na Ufam, começou no jornal A Crítica como estagiária em 1999. Hoje é diretora de conteúdo. Segue apaixonada pelo ofício de contar boas e difíceis histórias.

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