Publicidade
Cotidiano
SAÚDE PÚBLICA

Médicos abordam importância da empatia para o tratamento da depressão

Especialistas de diversas áreas se reuniram no Instituto Brincante, em São Paulo, para debater sobre os males da depressão. Equipe do Portal A Crítica acompanhou o evento 19/11/2018 às 18:47 - Atualizado em 19/11/2018 às 23:25
Show 1702636 50fe584b bccb 49d0 a91d cb4b0423da27
Membros do coletivo #PodeContar são músicos, terapeutas e influenciadores digitais
Laynna Feitoza São Paulo (SP)

Houve um tempo na vida da engenheira Bernardete Araújo, 64, que ela não conseguia sequer ler manchetes de jornal e fazer coisas básicas do dia a dia. Depois de 8 anos gastos em médicos que só a diagnosticavam com stress e dedicavam a ela poucos minutos de conversa, ela recebeu um diagnóstico de uma psicóloga que mudou a sua vida: o da depressão. O acolhimento, por sua vez, não partiu só da psicóloga: um psiquiatra finalmente lhe deu mais do que alguns minutos de “ouvido” e mostrou a ela o quanto a empatia pode ser transformadora.

“O psiquiatra me ouviu por quase duas horas, de maneira afetuosa, e ele refinou meu diagnóstico. Ele identificou que eu tinha também transtorno de ansiedade, identificou que a minha depressão era recorrente e que tinha raiz na infância”, pondera ela. Na cadeira sentada à frente de seus pacientes, os médicos que aprendem a acolher pessoas deprimidas têm o despertar desta consciência muito cedo. Exemplo disso é o do médico psiquiatra Kalil Duailibi.

Ele trabalha com depressão em São Paulo há 35 anos. Mas, em sua época de médico iniciante, aprendeu a pôr em prática a sua empatia quando era um residente de um laboratório de reumatologia. “Certa vez, entrou uma senhora cheia de dores no corpo e, numa consulta, o médico supervisor perguntou dela há quanto tempo ela tinha se separado. Em pouco tempo de conversa, ela ficou aliviada”, comenta ele.

Impressionado, o jovem residente perguntou porque o supervisor fez aquela abordagem, e ele respondeu: ‘Você não percebeu que ela ficou com a marca da aliança no dedo? Ela tinha mandado cortar a aliança’. Ele viu que as dores existiam, mas que havia um componente emocional por trás daquilo. Me colocar no lugar do outro foi o que mais me marcou na hora de escolher ser psiquiatra”, declara Kalil.

Vergonha Atrapalha

O Brasil é o País número 1 em casos de depressão na América Latina, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ao todo, a doença atinge 11 milhões de pessoas em território nacional. Pesquisas apontam que 70% dos depressivos têm vergonha de falar sobre o assunto e serem julgadas, o que atrasa o tratamento da doença – e a agrava – em muitos casos. Segundo a psiquiatra Carmita Abdo, entre as 32 doenças mais prevalentes no Brasil, 10 são mentais, como o transtorno depressivo, o de ansiedade, bipolar e alcoolismo.

Além dos tratamentos farmacológicos, o tratamento emocional ao paciente deve ser levado em conta. É aí que entra a empatia. “A empatia envolve processos afetivos e cognitivos. Os componentes da empatia são a capacidade de perceber sem julgamento as emoções e sentimentos da pessoa”, assegura Abdo, deixando claro que a empatia auxilia no tratamento e na recuperação do depressivo. E como fazer isso? “Expressar verbalmente ou corporalmente, manifestar a empatia com a pessoa deprimida é validar a emoção dela, comunicar a ela que entendo o que ela vive, sem minimizar o que ela sente”, complementa Carmita.

Como devemos cuidar de nós mesmos para cuidar melhor dos entes em depressão? Não existe uma receita de bolo. Mas fazer atividades que coloquem o indivíduo em contato com sua autopercepção e autoconhecimento é fundamental – seja ouvir músicas, ver filmes, praticar yoga ou afins. “Quando estudamos psiquiatria na faculdade, tivemos atividades para nos autoconhecermos, para reconhecer as nossas emoções e pensamentos no outro. Ninguém consegue ser empático se não entra em contato com as suas emoções. Se eu me conheço, posso reconhecer emoções em você e vou facilitando interações interpessoais. Quem é empático consegue sociabilizar com mais facilidade e se coloca no lugar do grupo e entende a linguagem grupal”, afirma ela.

As pessoas chegam a fazer o diagnóstico da depressão, mas após esse diagnóstico largam o tratamento, explica o psiquiatra Taki Cordás. “Cerca de 30% a 50% das pessoas fazem isso. Um quinto dos pacientes depressivos abandona o tratamento no primeiro ano, porque não dá para manter um vínculo empático em 15 minutos”, conta ele.

Conforme o médico, é preciso ter tempo para dialogar com o depressivo, e ter a humanidade de recordar de momentos dolorosos nossos para ser empático. “Quando um ator tinha que interpretar um papel dramático, o diretor russo Stanislavski pedia ao ator para lembrar de algum momento de dor de sua vida, para transferir o sentimento ao personagem. Assim devemos fazer em nós para lidar com o deprimido’”, completa ele.

70% das pessoas com depressão atualmente não estão em tratamento contra a doença. Um dos motivos é a vergonha de falar sobre a doença por conta da falta de empatia que encontram.

Saiba +

Bernadete, Kalil, Carmita e Taki debateram suas vivências durante o lançamento da campanha #PodeContar, instituída pela Medley Brasil, que aconteceu na última terça (13), em São Paulo. A campanha estimula o combate à depressão e o desenvolvimento da empatia com auxiliar do tratamento do indivíduo deprimido. A campanha abre espaço para pessoas que precisam de ajuda e para pessoas que querem ajudar por meio do site www.medley.com.br/campanhas/podecontar/ .

*A jornalista viajou a convite da Medley

Publicidade
Publicidade